Escolha uma Página
Aniversários

Aniversários

Digam Xis…

A criança sorria feliz enquanto todos batiam palmas ao seu redor, cantando o velho e bom “parabéns pra você”.  Era seu quinto ano de vida. Havia ganhado tantos presentes de seus parentes e dos colegas de escola, que nem tivera tempo de abri-los. Soprou a vela e fez o desejo como todos informaram para ele: “quero que minha mãe e meu pai voltem a morar juntos”. Como seria bom se esse presente vendesse em loja; melhor ainda seria se uma força sobrenatural realizasse o pedido secreto do pequeno garoto. Porém, não aconteceu igual aos filmes: nenhum vento repentino desarrumou a decoração da festa, tão pouco os pais se olharam apaixonados. Ao contrário o pai pensava no custo que tinha sido a festa, a mãe cogitava como seria a nova amante do ex-marido, pelo menos o menino não tinha acesso a esses pensamentos, e adorou quando posaram para foto, e os três se abraçaram, abrindo um lindo sorriso de família.

***

Avó não bate…

Não era todo dia que se completavam sessenta e cinco anos. Idade demarcatória para alguns capítulos sociais. Soares, por exemplo, enfim se aposentara. Para ele o mais importante é que chegou a essa idade com a saúde regular, e pelo menos aproveitaria. Apesar de ficar com salário proporcional ao tempo de contribuição e idade, a grana daria para ele atender suas despesas. Ele achou engraçado que no seu fim do ciclo produtivo, tinha que continuar na ponta do lápis, imaginou que nesse momento de descanso, essas coisas ficariam de lado.

Com seus filhos e netos na casa a festa foi repleta de felicitações e recomendações para essa nova vida. Viúvo a mais de cinco anos, os filhos tinham medo que o ócio pudesse leva-lo a uma depressão, por isso já tinham planejado uma espécie de escala para acompanhar o pai.

O neto mais novo de Soares, Armandinho, sentou no colo dele e perguntou:

– Vovô o senhor que viver até cem anos?

– Nunca pensei nisso meu menino… Por que perguntas?

– Gosto do número cem… Eu teria quarenta e dois anos… Com quarenta e dois anos posso ser avó também?

– Acho que sim… Você quer ser avô?

– Sim… Quero sim… Avô nunca reclama com os netos.

De uma criança ele não poderia esperar um raciocínio completo sobre qualquer que fosse o tema. Mas, tomou como homenagem o depoimento do neto. Afinal a experiência acumulada lhe deixou mais compreensivo.

No fim do dia, já sozinho em casa, não pensou em mais nada. Ligou a TV, estirou suas pernas no sofá, abriu uma lata de cerveja, cochilou e sonhou… No sonho jogava futebol, fez gol inclusive. Acordou dolorido e falou em voz alta “nem em sonho posso mais jogar futebol”.

***

Aos 18…

– Agenor você não pode dirigir assim!

– Não estou tão bêbado… Vem deixar de ser chata!

Agenor e seus dezoitos anos. Tanta comemoração num dia. Sua namorada tinha receio, mas também no alto de sua juventude, esses obstáculos da lei eram detalhes que podiam ser esquecidos. Saíram do motel. Ligou o rádio: “I’ve been roaming around / Always looking down at all I see / Painted faces, fill the places I can´t reach…”; a canção do King of Leon deve ter o entorpecido mais, e fez com que ele acelerasse.

– Vai devagar!

– Relaxa… Curte a adrenalina…

Cruzaram dois semáforos quando marcava a cor vermelha. Sabia que seus familiares os aguardavam para festa “surpresa”. Em algum momento ele pensou que poderia morrer sendo tão inconsequente, mas, não era momento de reflexões filosóficas, e sim de festa.

– Alô – atende a mãe de Agenor.

– Boa noite senhora… – fala o policial de plantão da delegacia do bairro; explicou a ela que seu filho estava detido, por dirigir alcoolizado, desacato ao policial militar que solicitou que fizesse o bafômetro.

A namorada desconsolada foi liberada. Pensava porque aquilo acontecia com eles, afinal não fizeram mal a ninguém, estavam se divertindo. Agenor passaria a noite na cadeia, o que poderia ser um ótimo presente de aniversário, partindo do princípio que aquele ambiente ele refletiria o rumo para seu futuro próximo. Claro se almejava completar mais um ano de vida.

***

Fios brancos…

O despertador tocou: cinco e trinta. Daniela não era afeita a religiosidades, acordou mas não se sentiu no dever de agradecer por mais um ano de vida. Evidente que esse desapego a comemorações de aniversários, se dava pelo medo de ficar velha. Não sabia ao certo sua idade, mas acredito que estava próximo dos quarenta. Não adiantava falar para ela o quanto era bonita, sexy… A ideia de intervenção cirúrgica persistia. Na cabeceira seu marido havia deixado um singelo poema:

Esses lindos fios brancos exilados entre teus cabelos negros

Tua silhueta de mulher formada

As linhas do tempo em teu rosto

Tuas cicatrizes…

É o que preciso para te amar… O tempo é nosso… Viveremos juntos…

Achou bonitinho… “Mas, homem não entende nossas angustias, pensou ela”. “É muito fácil para eles…”.

No trabalho e redes sociais todos lhe felicitaram, alguns menos discretos perguntavam sua idade, claro que gentilmente ela desconversava.

A festa surpresa que a família preparou no fundo não lhe agradou, porém, agradeceu a todos, e entrou no clima. “Amanhã tudo passa e já começo a contar novamente”, pensou ela.

Imagem: Sergei Solovev via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Pimenteira

Pimenteira

Supersticioso? Além da conta. Fico assustado o quanto estou preso a crendices. Por outro lado feliz, pois estou aberto a todas as religiões e cultos. Meus amigos se divertem, apelidaram esse meu hábito de sincretismo nonsense. Não ligo. Quando insistem nas brincadeiras, pego minha correntinha com um pingente da Estrela de Davi, beijo o símbolo para calar-me e não retrucar a intolerância deles. Sim. São intolerantes, e às vezes ignorantes. Nem sabem no que acreditam, e me chacoteiam por acreditar em tudo.

Para mim não existe cumprimento mais fantástico do que o Salaam Aleikum. Mesmo que nunca seja retribuído com Aleikum As-Salaam, no contato com as pessoas sempre fazia essa introdução abençoada.

O galho de arruda antes do futebol era crucial. Vestia meu uniforme de peladeiro, calçava as chuteiras e o ramo protetor lá, preso na orelha, só retirava quando entrava em campo. E bastava um gol para fazer o sinal da cruz em agradecimento.

Nada disso tinha a ver com sorte, que para mim é apenas um verbete no dicionário. Com minha confusa religiosidade buscava acalmar a fome de respostas que me consumia. Um amigo me dizia “te apega na ciência”, mas retrucava que a ciência é chata demais, aristocrata demais. Preferia navegar na incerteza do mundo inalcançável do empirismo. A simplicidade das profecias e das simpatias me trazia mais paz.

Meses atrás ganhei uma pimenteira. Nunca comi pimenta. Mas, sabia o que aquela planta anunciava: olho gordo. Guardei numa pequena estufa até florir e dar frutos. Estava pronta para atestar seu funcionamento. Coloquei-a no portal de casa, minha esposa e filho não gostaram muito. Diziam que a fruta era enfeitiçadora, virava e mexia, queriam tirar uma e botar na boca. Caímos na gargalhada. O pajem que me presenteou fez questão de informar o grau de ardência.

Ontem demos uma festa. Muitas pessoas na casa. Aproximavam-se da planta impávida tecendo comentários pejorativos. Ela continuou resistente e atraente. Uns amigos até queriam experimentar do frutinho vermelho, mas meus filhos foram os primeiros a proibir. Ela já era de estimação. No dia seguinte as crianças eufóricas batiam na porta:

“Papai! Papai! A plantinha está secando! A plantinha está secando!…”.

“Calma meninos… Ela está nos protegendo… Cumprindo sua missão… Ela vai se recuperar logo é só a gente cuidar dela”.

Não sei se esse meu relato deve ter alguma moral. A única coisa que sei é: para olho gordo nada melhor que uma pimenteira.

Texto e imagem: Tarcísio Oliveira

Espelhos d’água

Espelhos d’água

Tinha medo de altura, mas, mesmo assim resolvi encara o desafio de saltar de bungge jump. Junto com mais dez iniciantes nessa prática, nos ordenamos numa espécie de fila, para depois encarar o desafio. Confesso que por pouco não infarto. Porém, a sensação de tocar o espelho d’água com a ponta das mãos foi fantástica, de cabeça para baixo vi toda aquela cena por outra perspectiva. Ali formalizei uma virada na minha vida.

A primeira mudança brusca foi pedir demissão. Mesmo com minha carreira consolidada, resolvi ir atrás de novos horizontes, mudar de ramo. Quinze anos trabalhava naquela empresa, troquei-os por uma falsa-liberdade que acima de tudo me satisfazia, e nesse momento é o que importava para mim. Claro que não foi fácil, além de toda confusão em casa, o desligamento num momento delicado da firma, encheu de ódio todos os envolvidos. Meu único argumento foi “a empresa é um ser que se regenera sozinha, um indivíduo só faz falta por dois dias, depois ela se incube da cicatrização”. A metáfora pode até não ter sido boa, porém, a sensação de cruzar a porta de saída nem consigo descrever.

No caminho para casa parei na beira de uma praia. Chovia fino. Os pingos tocavam meu rosto, refrescante. Sozinho ali: urrei… Gritei… Não sei ao certo. Depois de me despir, entrei no mar para um mergulho, revigorante.

Meus filhos me receberam com alegria, durante anos nunca me viram naquele dia da semana e horário em casa. Tomei um banho e voltei para ficar com eles no sofá. Almoçamos na mesa. Levei-os para escola. Fiz isso por duas semanas, rotina agradável; descobri tantas coisas sobre eles. Nesse período convenci a minha esposa da importância de minha decisão. Ficamos bem.

Como dizem “o que é bom, dura pouco”, e essa máxima valeu comigo. Toda euforia que me levou nesses dias a um estado de êxtase, caiu quando comecei a pensar nas contas e no que fazer a partir de agora. Terminei conseguindo publicar um livro. Já tinha um material pronto. Enviei para três editoras. Uma delas comprou meu projeto e lançou no mercado de autoajuda. Tinha muitas histórias para contar e muito conselho para vender. Em seis meses já estava dando entrevistas para os veículos de mídia e acabará de receber adiantamento para o segundo livro. Minha agenda lotada para palestras, oficinas… Uma infinidade de eventos.

Novamente a minha vida havia seguido outro rumo. Na realidade lembrava o antes. Quero dizer que voltava a um ritmo acelerado, longe da família, com prazos a cumprir. Contudo, dessa vez não conseguiria voltar atrás. O que faria? Não tinha mais bungee jump para saltar, não tinha mais sonho para realizar (ser escritor era o último). O que me restava era lembrar-me do espelho d’água e toda aquela satisfação que nunca mais alcançaria com a ponta das mãos.

Imagem:  Teddy Kelley via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Espelhos

Espelhos

Assistia no telejornal da hora do almoço, a vida de um homem que morava no aeroporto. Era impossível não me identificar com ele: morava numa rodoviária. O rápido relato daquele senhor frisava mais as antigas qualidades curriculares dele, e seu declínio provocado por uma crise econômica no país. Mas, o fato é que ele escolhera viver só, assim como eu. Abdicamos de ter uma família, ou manter relações com parentes. Caso tivéssemos família ou parentes, poderíamos dormir pelo menos no quintal de um deles. Nossa opção foi mais ousada, dividir o espaço de muitas famílias. A dignidade passa longe é claro. Ser olhado de forma asquerosa por milhares de pessoas diariamente às vezes me aflige.

Não me lembro do nome dele. Ele, ao contrário de mim, ainda usa vestes mais organizadas, nem tenho mais calça; visto umas bermudas usadas, camisas amareladas que uns funcionários do terminal rodoviário arrumam para mim. Ser confundido com mendigo é uma ofensa. Vivo de maneira livre, tenho meus predicados, infelizmente não sou mais aceito pelo famigerado mercado. De certa forma, nem a própria sociedade me qualifica mais como igual. Observo tudo da minha atual posição, também não me vinculo mais as normas sociais. Joguei meu título de eleitor no lixo, permaneço apenas com a carteira de trabalho e o RG, mas não é para conseguir trabalho, guardo apenas por uma ocasião que envolva polícia.

A matéria da televisão acabara. Segui aos fundos da lanchonete. Zilda sempre conseguia uns restos de lanches deixados por alguns clientes, até refrigerante vinha. Zilda era ajudante na cozinha, uma quarentona bonita, cheirosa. Gosta de conversar comigo. Nutro por ela um desejo carnal. Mas, sei que ela não iria querer um desdentando.

Sentado na sombra comendo as sobras, fiquei pensando sobre o que o senhor do aeroporto falara “não peço esmolas, vou atrás das ONGs para me alimentar…”. Falei sozinho “é apenas outro nome para esmolas…”, dei um muxoxo e continuei minha refeição.

Os espelhos do banheiro da rodoviária estavam velhos, riscados, e a imagem que já não era tão boa, ganhava traços ainda menos convidativos. Meu rosto estava transformado. Rugas. Pele queimada. Não tinha vergonha disso, não tinha medo da velhice. Apenas queria lembrar quem tinha sido. E aquele rosto não me ajudava. O cara do aeroporto tinha fotografias. Eu apenas recordações confusas, como imagens retorcidas da TV.

Zilda me prometerá uma janta mais “recheada”. Por ora, isso era mais importante do que remontar minhas memórias… O que eu era… Quem eu fui… Não enche minha barriga.

Imagem:  Matthew Henry via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Homem menino

Homem menino

– É retangular?

– Não… É quadrado.

– Essas suas charadas geométricas são insuportáveis!

Sem dúvida minhas brincadeiras com formas geométricas estavam cansativas, porém era única forma que conhecia para me divertir.

Às vezes me sentia um tolo, na verdade quase sempre. Meus namoros não duravam… Evidente que devido ao meu comportamento infantil.

– Por que você é tão criança? Quero me casar e ter filhos…

– Eu gosto de crianças…

– Percebo… Seus amigos de dez anos não saem daqui… Vivem nesta droga de vídeo game…

Acho que elas têm é muita inveja, porque mesmo adulto conservo minha jovialidade, coisas que aprendi gostar na infância e adolescência.

– Como você quer me convencer com essa sua argumentação sobre questões existenciais, se toda sua base de leitura é montada a partir desse mundo de revista em quadrinhos que você lê? Você nunca vai amadurecer? É tão difícil você provar que me ama crescendo?

O que precisava fazer para provar que amei todas elas? Não tenho culpa de enxergar a vida de outra forma. Todas as minhas contas estavam em dia, mesmo não precisando sair para paga-las.

– Eu te amo! Não me deixas!

– Não posso continuar com você… Não me tratas como mulher… Queres que seja tua mãe… Preciso de um homem que cresça comigo, não de um pivete que precise ficar controlando a quantidade de doces e refrigerante que ele está consumindo.

– Não é minha intenção, juro…

– Ah! Para com isso! Não se jura uma coisa dessas…

Essa sequência se repetia. Até encontrar outra louca que gostasse de mim. Entendia o tempo que passava, mas não me convencia que devia mudar. Ter filhos fazia parte do meu plano futuro, talvez, não saberia como viver com eles. Primeiro deveria aprender a me relacionar com as mães deles. Pensamentos soltos que me vinham. Elas deviam ter certeza, esse comportamento inconsequente não me renderia muitos louros. O que restava para mim? Chorar, sofrer e esquecer. E esquecer terminava sendo a coisa mais fácil.

 

Imagem: Pawel Kadysz via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira