Escolha uma Página
O verdadeiro sentido da resiliência

O verdadeiro sentido da resiliência

– Tenho medo de falar em público. Por que será?

– Acho que deve ter algum trauma de infância.

– É… Bem provável… O que acha que devo fazer?

– Voltar ao trabalho, antes que o chefe nos demita.

Nunca tinha respostas para certos assuntos, mas as pessoas insistiam em conversar comigo. Pensavam que era uma espécie de intelectual, só porque estava sempre com uma revista na mão. Nem se davam ao trabalho de ver o assunto das revistas que lia. Eram na maior parte publicações que falavam de casa e construção. Mas, imagino que ler revistas, livros ou qualquer coisa palpável esteja tão em desuso, que termino recebendo título de intelectual.

– As próximas eleições o cara é Jardel. Ele tem uma plataforma política das melhores que já vi. O que você acha?

– Eu não voto. Meu título foi cancelado. Devo uma multa alta a Justiça Eleitoral.

– Você é louco cara? Não sabe o mal que te faz? Ainda por cima pessoas omissas como você prejudicam o futuro do país!

– Foda-se.

Não tinha problema em ser considerado uma pessoa estúpida, ou desqualificada. Viver com um salário-mínimo me qualificava em ser um desqualificado. Também sou um mentiroso, é claro que tinha título de eleitor válido. Queria me livrar do chato que sempre vinha com esse papinho de merda.

Era difícil encontrar uma pessoa que quisesse conversar sobre casa e construção. Que se interessasse em novas tendências de ambientes decorativos, ou até mesmo qualidade de conexões hidráulicas. Por isso, passava meus domingos visitando os homes centers na cidade. Fazia questão de ler as embalagens dos produtos e vê as novidades do segmento. Alguns vendedores já me conheciam, e nem vinham mais em minha direção. Momentos de paz.

– Já te falei que tenho fobia de falar em público?

– Não.

– Pois é… Não sei o que me dá… Acho que deve ser algum trauma…

– É bem provável.

– Você não dá a mínima, não é?

– Exatamente.

Imagem:  Jon Tyson via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Preguiça da peste! É uma doença ou uma praga?

Preguiça da peste! É uma doença ou uma praga?

A preguiça da peste não tem nada a ver com doença provocada pelo Bacillus pestis. A peste aqui tem significado mais próximo de mau humor. Sabe aqueles dias que levantar da cama é um desafio ao sono e a paciência? Pronto, é mais ou menos isso. Mas, uma hora a gente tem que sair da cama.

Rastejar até o banheiro, lavar o rosto, voltar ao quarto e não ceder a força atrativa dos lençóis e travesseiros, é um desafio quase quântico.

No ônibus, no carro, ou andando, não entendemos bem que força nos move, porém, sempre chegamos ao destino. E o pior ainda estar por vir: aguentar o dia de expediente.

Ah preguiça da peste!

Em relação a peste do Bacillus, ela é transmitida pela pulga do rato. Marcou a história medieval. Associada a falta de higiene, a peste bubônica matou muita gente. E talvez essa falta de asseio, seja de alguma forma ligada a preguiça e daí surgiu a expressão.

A expressão na verdade não é universal. É bem conhecida no nordeste brasileiro. Um regionalismo que é balbuciado até por crianças.

Ah preguiça da peste!

A hora não passa; os serviços aumentam; é normalmente o dia em que os professores estão inspirados e não param de fazer exercícios; dia de muito sol; frio demais… O que permeia o pensamento é “quero minha cama!”.

Ao fim do dia e chegando em casa, o sono já era. A preguiça é absorvida por um dia movimentado. Resta umas dores nas costas, pés cansados… Assistir filmes, séries, talvez ler algum livro é o melhor para curar um dia chato assim. E nem reparamos o quanto a hora avança. Dormir tarde de novo.

O sol nasce… O sinal do despertador nos acorda… Ah preguiça da peste!

Imagem: Danielle Dolson via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Aplausos

Aplausos

É incrível como aplaudir é tão difícil.

Estirar os braços, movimentar as mãos até uma encontrar a outra, fazendo um som de estalo… É missão quase impossível.

Ir num show e aplaudir o artista é coisa fora de moda.

O legal é conversar, tirar fotos, filmar… Pouco importa o que está acontecendo no palco.

O artista é um detalhe para foto.

Os aplausos já não têm mais espaço.

A vaia coitada, nem é lembrada, pois para ela acontecer é necessário a crítica, e criticar é tarefa ainda mais em desuso.

De qualquer forma agradeço que chegou até o fim.

Imagem:  Yvette de Wit via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Andando pelas ruas

Andando pelas ruas

Nada melhor do que uma esquina para entender trigonometria. Quadrante, raios, Pi… tudo começa a fazer sentindo nesses espaços urbanos…

As vezes virar o pescoço para os lados direito ou esquerdo faz muita diferença. Pequenos detalhes transformam por completo a opinião sobre um lugar, por exemplo. Esquecer da matemática e lembrar de botânica e história são consequências razoáveis.

Vegetação e história andam juntas sem dúvida. Devem ajudar também os urbanistas.

Acredito que poetas e contistas se utilizam dessas “ferramentas”.

Passado, presente e futuro não deviam estar ligados, se deturpam, se anulam, se destroem, se confundem.

Não existem pontos de vistas. O que existe é colocação espacial diferente. Quando damos dois passos para frente, conseguimos ver a janela do vizinho.

Sombra… Sombra de árvores. Ideal para estacionar carro. Melhor lugar para tomar água.

Um bom lugar para ver melhor a vida.

Politica? Politicagem? Politicalha?… Prefiro as previsões dos serviços…

A flor mais bela é aquela que suportar a força do sol durante meses, a inconsequência dos homens… Acima de tudo permanece lá impávida e forte.

Imagem:  Andrew Gook via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Meu dia no abismo

Meu dia no abismo

À beira do abismo tudo fica mais perto. Quando falo “tudo” me refiro à memória. As nossas lembranças sempre nos acompanham nessa parte final da vida.

E era isso que acontecia comigo, enquanto olhava para o fim daquele desfiladeiro: lembranças.  Não me faltava coragem para pular, é que naquele instante me vinham passagens boas que vivi.

Andei por minutos, talvez horas. Lembrei-me de minha juventude, dos meus amores, das minhas glórias… No final fui vencido por meu câncer. E foi quando estipulei o futuro que tomei fôlego e pulei.

E durante a queda via o quanto o futuro era ruim. Observava que um rochedo mais à frente me causava mais espanto do que o último.

E o suor que escorria cada vez mais; minha saliva que se esvaia e a cada instante a vida acabava.

Foi assim meu dia no abismo.

Imagem: Juan Davila via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Brasil: país de pudores

Brasil: país de pudores

O Brasil é um país cheio de pudores.

Falar sobre sexo no Brasil é um problema.

Tabuísmo é sinônimo de brasilidade. Ousado seja aquele que nomear vagina e pênis de forma que fira os bons costumes. Supondo-se que vai escrever sobre isso, adianto que será censurado.

Censurar é mais a cara do Brasil.

População ingênua + censura = jovens grávidas, propagação de DST.

Sim a população brasileira é ingênua, não com sua função de sinceridade, mas pela sua denotação de inocência. E entenda inocência por seu caráter de ignorância.

Ignorar é mais a cara do Brasil.

O brasileiro tem medo de se entregar ao sexo. Falar de sexo é feio.

Masturbação feminina é pecado, já a masculina é normal. A USP provou isso: 40% das mulheres pesquisadas admitiram que nunca se tocaram.

Não se tocar é mais a cara do Brasil.

Brasil é tão cheio de pudores que cega os brasileiros.

Brasileiros… Existe isso no Brasil?

Imagem: Samuel Zeller via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira