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Andando pelas ruas

Andando pelas ruas

Nada melhor do que uma esquina para entender trigonometria. Quadrante, raios, Pi… tudo começa a fazer sentindo nesses espaços urbanos…

As vezes virar o pescoço para os lados direito ou esquerdo faz muita diferença. Pequenos detalhes transformam por completo a opinião sobre um lugar, por exemplo. Esquecer da matemática e lembrar de botânica e história são consequências razoáveis.

Vegetação e história andam juntas sem dúvida. Devem ajudar também os urbanistas.

Acredito que poetas e contistas se utilizam dessas “ferramentas”.

Passado, presente e futuro não deviam estar ligados, se deturpam, se anulam, se destroem, se confundem.

Não existem pontos de vistas. O que existe é colocação espacial diferente. Quando damos dois passos para frente, conseguimos ver a janela do vizinho.

Sombra… Sombra de árvores. Ideal para estacionar carro. Melhor lugar para tomar água.

Um bom lugar para ver melhor a vida.

Politica? Politicagem? Politicalha?… Prefiro as previsões dos serviços…

A flor mais bela é aquela que suportar a força do sol durante meses, a inconsequência dos homens… Acima de tudo permanece lá impávida e forte.

Imagem:  Andrew Gook via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Meu dia no abismo

Meu dia no abismo

À beira do abismo tudo fica mais perto. Quando falo “tudo” me refiro à memória. As nossas lembranças sempre nos acompanham nessa parte final da vida.

E era isso que acontecia comigo, enquanto olhava para o fim daquele desfiladeiro: lembranças.  Não me faltava coragem para pular, é que naquele instante me vinham passagens boas que vivi.

Andei por minutos, talvez horas. Lembrei-me de minha juventude, dos meus amores, das minhas glórias… No final fui vencido por meu câncer. E foi quando estipulei o futuro que tomei fôlego e pulei.

E durante a queda via o quanto o futuro era ruim. Observava que um rochedo mais à frente me causava mais espanto do que o último.

E o suor que escorria cada vez mais; minha saliva que se esvaia e a cada instante a vida acabava.

Foi assim meu dia no abismo.

Imagem: Juan Davila via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Brasil: país de pudores

Brasil: país de pudores

O Brasil é um país cheio de pudores.

Falar sobre sexo no Brasil é um problema.

Tabuísmo é sinônimo de brasilidade. Ousado seja aquele que nomear vagina e pênis de forma que fira os bons costumes. Supondo-se que vai escrever sobre isso, adianto que será censurado.

Censurar é mais a cara do Brasil.

População ingênua + censura = jovens grávidas, propagação de DST.

Sim a população brasileira é ingênua, não com sua função de sinceridade, mas pela sua denotação de inocência. E entenda inocência por seu caráter de ignorância.

Ignorar é mais a cara do Brasil.

O brasileiro tem medo de se entregar ao sexo. Falar de sexo é feio.

Masturbação feminina é pecado, já a masculina é normal. A USP provou isso: 40% das mulheres pesquisadas admitiram que nunca se tocaram.

Não se tocar é mais a cara do Brasil.

Brasil é tão cheio de pudores que cega os brasileiros.

Brasileiros… Existe isso no Brasil?

Imagem: Samuel Zeller via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

O surto

O surto

O surto nesse texto surge apenas como manutenção dos pensamentos. Não entendam como casualidade, ou causalidade.

Surtei. Não foi simplesmente um grito. Gritei e corri desesperado na rua. Falei coisas sobre liberdade, injustiça, honra, etc. Lembro quando o carro do manicômio chegou e aqueles brutamontes me amarraram a uma camisa de força. Cobriram minha nudez sem ao menos perguntar se queria.

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Política para mim sempre foi assunto discutível. A premissa que diz “política, religião e futebol não se discutem”, era totalmente avessa as minhas ideias. Claro que podemos discutir. Isso é platônico: existe uma verdade original. A antítese desses temas confunde muitos. Existem sim ótimos líderes; religião é a explicação mais cômoda para fatos e fenômenos; e o time campeão é sempre o melhor.

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Solidão é uma coisa boa. Ficar sozinho é melhor do que estar mal acompanhado, esse ditado é o melhor de todos. Não acredito que o vazio e o medo correspondam a solidão. No fim a gente morre só. E tudo que se foda.

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Não sei o é que lepra. Não sei o que é câncer. Na realidade não sei o que é nenhuma porra de doença. Foda-se a morte.

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Alegria é para tolos. Ela não existe. Existe apenas mentira. Mentira é a coisa mais lógica que existe. A lógica é a coisa mais insuportável que existe. E mais insuportável que a lógica é a métrica. E a métrica não serve pra nada.

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Meus remédios tinham acabado. Fui diagnosticado com síndrome do pânico. Era impossível sobreviver a mais um surto. Uma recaída só me trazia pensamentos sombrios. Já tinha quebrado todos os móveis da casa, quando achei a última capsula. Instantes me levariam ao revolver, e por sua vez, ao fim.

Imagem:  Andy Beales via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

O medo de morrer é foda

O medo de morrer é foda

Ele demorou alguns segundos para entender o que acontecia. Sentia a força de mãos pesadas apertando seu pescoço. O assassino iria mata-lo estrangulado, não teria como reagir. Mas, o medo da morte disparou sua memória e o lembrou do punhal escondido embaixo do travesseiro do lado em que sua falecida esposa dormia. E foi esse mesmo estímulo que lhe deu destreza para cravar a lâmina na jugular das mãos da morte.

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Gerusa não tinha medo de defuntos. O que lhe dava ânsia era o cheiro das rosas vermelhas. Completamente enjoada nem se aproximava do caixão. Da única vez que chegou perto, passou tão mal que caiu em cima do defunto. Transtorno que rendeu mais lágrimas e risos. A paranoia foi tanta que contratou advogados para elaborarem documentos comprometendo seus parentes de não usar, em seu velório, nenhum tipo de flor.

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Um resfriado mal curado teve consequências piores: pneumonia. Passei duas semanas em estado grave no hospital. Depois de boa recuperação retomei minhas atividades normais. Fiquei com uma espécie de asma. Por isso comecei a fazer natação. Na realidade fiz outros exercícios e também dietas. O medo de morrer é foda.

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Nunca reagi a nenhum tipo de assalto. Fui assaltado trinta vezes. Algumas dessas vi arma (branca ou de fogo). Outras só o “isso é um assalto” já era suficiente para tirar relógio, entregar carteira e celular. Somando acho que já tive um prejuízo acima dos cinco mil reais. O fato de estar vivo me consola.

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Morrer é fato consumado diriam alguns. Mas porque pensar na morte? Não faz sentido. Morrer é coisa do mal. Falar de morte só atrai coisa ruim. Penso somente que minha vida vai ser longa… E pronto! Nada de morrer agora.

Imagem:  Mathew MacQuarrie via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

O que é privatizar?

O que é privatizar?

Não faço a mínima ideia do que a porra dessa palavra quer dizer: privatização. Deve ser negócio de político, se for é falcatrua.

Papai dizia que quando não soubesse o significado de uma palavra o caminho é procurar o “pai dos burros”. Imagine se isso é apelido descente que se coloque no dicionário? Acho um absurdo. Vou tentar encontrar essa palavra.

Achei! Privatização: substantivo feminino. 1 – ato ou efeito de privatizar; 2 – transferência do que é estatal para o domínio da iniciativa privada; desestatização. Sabia! Só podia ser um negócio desses, de tirar do estado e enfraquecer o povo.

Na TV é o dia todo: Privatização! Privatização! Privatização! A pressão foi tanta que comprei uma revista especializada no assunto. Não entendi quase nada do que estava escrito. Mas, economista explicou por “A mais B” que os prejuízos provocados pela tal estatal aos cofre públicos eram enormes. Afora que os políticos usam seus arranjos para controlar a danada da empresa. Sabia! É coisa de político esse troço.

Fiquei numa dúvida maior ainda. Não sei que lado escolher nesse troço de privatização. Papai sempre me dizia também que números não mentem. Mas, será que se for um político falando esses números será mentira? Porra de palavra difícil essa: privatização!

Imagem: Dmitry Ratushny via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira