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Retalhos

Retalhos

Meu pensamento vagueia. Junto palavras aleatórias, que no fim não querem dizer coisa nenhuma. Uma saída para fraca mente imaginativa. Apenas retalhos de quem não tem o que pensar.

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Meus pés doíam e nem quando dormia a dor sumia. Sentia certo alivio quando estava deitado, mas a dor permanecia. Procurei ajuda médica. Os vários especialistas receitaram tratamentos, remédios, tudo paliativo. Certamente a dor já era coisa da cabeça. Estava neurótico e depois de tantos comprimidos, também hipocondríaco.

Assistia o seriado de TV Dr. House, ficava aflito quando me deparava na mesma situação de dependência, no caso dele o vicodin. Isso ultrapassava a fisiologia, usar aquela substância levava este personagem a conflitos na esfera psico-espiritual, eu apenas sentia dores nos pés.

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Gostaria de ser racional a ponto de poder criar teses, conceituar coisas novas. Mas, nunca fui tão fiel ao estudo, pesquisa, livros… Resta para mim, ser um normal, distante dos gênios. Não que seja a pior coisa do mundo, acredito que ser um igual tem vantagens consideráveis. O fato de acordar todos os dias e não precisar fazer nenhum questionamento mais profundo sobre as coisas que nos rodeiam, já minimiza o peso de viver.

Imagem:  Edu Lauton via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Coisas mais ótimas

Coisas mais ótimas

Eu achava que a palavra otimismo nascia de ótimo. Talvez tivesse razão e fosse verdade. Etimologia, ortografia, gramática nunca foi meu forte. Eu gostava de ler, mas não tinha boa memória. E isso me levava ao péssimoPessimismo tinha certeza que se originava de péssimo. Os conceitos de palavras ruins eram mais fáceis para assimilar.

Já era a terceira noite que não dormia. Sempre gostei da palavra talvez. Verbete dúbio. Trunfo dos indecisos. Dependo apenas da feição do rosto quando se fala, por exemplo, “talvez seja o excesso de café que não tenha me deixado dormir” (fazia cara de despreocupado). Não ligava para o cansaço. Já não precisava dirigir. Meu motorista me levava a todos os lugares que precisasse. Ter motorista particular foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos. Não tinha paciência de olhar nos retrovisores, gostava só de olhar para frente, e isto só me causou transtornos. Terminava sendo um pouco de soberba e preguiça.

O certo é que queria coisas mais ótimas para minha vida. Não sabia nem por onde começar. Pensei em comprar roupas novas. O visual novo deve ajudar. Liguei para meus filhos, que já não via há quase dois anos. Moravam fora do país. Sei que nunca fui tão presente, motivo pelo qual pagavam na mesma moeda. Mas, resolvi ceder e corre atrás. Talvez esse fosse um bom caminho: retratar, reparar…

Era melhor ter continuado com as questões vocabulares das palavras ótimopéssimo e talvez. A conversa com meus filhos não foi muito produtiva, no máximo só promessa de visitas tanto minha quanto deles.

A meu pedido o motorista entrou numa rodovia interestadual. Não sabia qual estado seria o destino. Pedi somente que dirigisse até o próximo posto de gasolina. Meia hora depois, bebíamos energético numa loja de conveniência. Olhávamos os carros cruzando a estrada, e fazíamos comentários sobre modelos e potência dos motores.  Perguntei se ele conhecia algum lugar na região para almoçarmos, e logo indicou um restaurante na cidade dez quilômetros à frente, onde fizemos nossa refeição e minutos depois continuamos nossa viagem sem destino.

À noite já numa pequena pousada na beira da estrada, assistíamos a um jogo de futebol de times locais. Não nos interessava a partida em si, pois passamos mais tempo rememorando lances dos craques do passado. Depois disso descemos e fomos tomar uma cerveja no bar ao lado. Garotas de programa nos cercaram e findamos promovendo uma pequena festa no quarto da pousada.

No retorno para casa não me sentia ótimo, mas também não estava péssimo. Talvez me sentisse feliz, ou talvez estivesse melancólico demais para saber o que sentia de verdade. Meu celular tocou, um de meus filhos ligando, falamos por minutos. Certamente essa ligação se encaixava nas coisas mais ótimas, mas não era o suficiente para me deixar feliz.

Planejei mentalmente uma viagem mais longa de carro. A ideia era vagar para rever e conhecer novos lugares. Andar sem muito compromisso, sem pensar muito na vida, somente rodar sobre e estradas. Ótimo, péssimo e talvez seriam reflexões para outra oportunidade.

Imagem: Esther Tuttle via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Interjeições

Interjeições

– Tchau!

– Até logo!

– Não pode simplesmente me dar um “tchau”?

– Qual a diferença entre um “tchau” e um “até logo”?

– Formalidade demais… O “tchau” é mais jovial… Mais gentil… Você é uma grossa!

– E você é um crianção!

– Não existe a palavra “crianção”.

– Puta que pariu! É claro que eu sei disso… Só quis tentar ser mais informal… Ah! Vai-te foder!

– Obscena!

– Oh! Meu deus! O coitadinho não pode escutar um palavrão… Nossa, falando o exemplo do puritanismo… Deixa melhorar a frase: vai tomar no cu… Seu puto!

– Não precisa disso. Tão bonita, mas tão desorientada.

– Isso tudo por causa de uma porra de “tchau”… Ok Marcone! Tchau! Vai à merda! Não quero mais te ver… Você é um idiota!

– A maior idiotice é ter passado tanto tempo com você. Tanta vulgaridade…

Marcone não esperava que ela tivesse tanta força. Em casa em frente ao espelho via o estrago do soco que Ismênia tinha lhe dado. Acertou bem o olho esquerdo. Parecia uma pugilista profissional, conseguiu inclusive atingir o supercílio, e um hifema formou-se.

Imagem: Alvin Mahmudov via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

De olho no escanteio

De olho no escanteio

Tio Getúlio sempre dizia “escanteio fica de olho no cotovelo”. E nunca vacilava. O ponteiro posicionou a bola para cruzar na área, segurei o braço do zagueiro. O cara era enorme, mas não ia foder com minha cara nem a pau. Ficamos naquele embate, o juiz até chamou nossa atenção. Após o silvo do apito, o ponteiro lançou a bola na área. Gostaria de ver tudo em slow motion: o zagueiro armando aquele osso pontiagudo na direção do meu rosto, e eu me defendendo com um pisão filho da puta no pé dele. Consegui me livrar da pancada. Já o cartão amarelo era inevitável. Saiu barato.

Dali para frente não foi fácil para mim. Além do zagueiro, o time todo me caçava. Mas, era meu auge, voava em campo e me livrava das pancadas. E aos vinte minutos do segundo tempo, recebi a bola na lateral esquerda e disparei em direção ao gol. Driblei três, com o goleiro quatro, estufei a rede. Corri para arquibancada e dava para ler os lábios de alguns torcedores “Golaço! Golaço!”.

O jogo não aliviou. O time contrário era bom, altos salários, jogadores importados… Dez minutos depois empataram. Banho de água fria. O técnico perguntou com estava fisicamente, falei que aguentava até o fim.

O tempo passava e nada. Até que veio novo escanteio. O zagueiro já veio esquentar a minha orelha, me enchendo de palavrões. De novo o juiz mandou a gente jogar bola. Sabia que era quase fim do jogo. Tio Getúlio ia ter que me perdoar, o jogo nos levava para final e conhecia uma forma de provocar o desempate: aceitar o cotovelo.

Sentando no carro-maca, recebendo os cuidados médicos por causa do supercílio aberto, vi nosso centroavante bater um lindo pênalti, deslocou o goleiro e a bola morreu do lado contrário. A torcida em êxtase. Quando explicasse a Tio Getúlio ele me perdoaria.

Imagem: Abigail Keenan

Texto: Tarcísio Oliveira

Saneamento Básico

Saneamento Básico

Quando era criança existia um tema muito vinculado nos meios de comunicação da época: saneamento básico. Também, nas propostas políticas dos candidatos em campanha esse tal saneamento funcionava como carro-chefe. Até hoje nunca entendi bem o significado dessa palavra, mas, na minha cabeça infantil, ficava imaginando o que seria. Claro que tudo remetia a algum tipo de obra, desde grandes canais até fabricação de produtos químicos que ajudariam a limpar o ar. Pelo pouco que aprendi e fui observando com o tempo, não estava tão errado.

Quando vi uma manilha de esgoto pela primeira vez, fiquei encantado. O fascínio não tinha nada a ver com o saneamento básico, e sim, porque aqueles tubos de concreto espalhados numa área desabitada formavam um labirinto, no qual eu e meus amigos de infância fantasiamos inúmeras aventuras. Foram fins de tardes maravilhosos que acabaram semanas depois, quando homens da prefeitura começaram a escavar partes das ruas próximas, e embutiram partes do “nosso labirinto” no chão. Não cheguei a ver como ficou a obra no final, pois me mudei um mês depois para outra cidade, que as ruas de terra batida já tinham dado lugar ao asfalto.

Na adolescência algumas coisas já eram claras para mim: o saneamento básico estava ligado a limpeza urbana, que se tratava de direito da população e obrigação do estado. Como as pessoas não tinham referência do modelo ideal de cidade saneada, se contentavam/contentam com o pouco que o estado oferece. Entendi que o saneamento básico tinha a intenção de deixar o ambiente mais saudável; e após muitas mudanças (entendam obras) nos lugares (cidades brasileiras) que frequentei, não enxergava nenhum ambiente tão habitável assim.

Engraçado que minha curiosidade sobre o assunto se deu na fase do desabrochar de minhas ideias, pensamentos inocentes, tão puros não alcançavam a complexidade do tema. Talvez fosse encantado apenas pela palavra “saneamento”, o conceito dela pouco importava, como até hoje não importa para quase ninguém.

Texto: Tarcísio Oliveira

Divagações ao universo próximo

Divagações ao universo próximo

Uma gripe me deixou na cama por três dias. Muita febre e dor de cabeça me tiraram forças até para andar. Esse período de ócio foi o suficiente para decorar quase toda programação da TV. Já começava a me identificar com algumas personagens de novelas. As novelas têm uma função pertinente na formação da população brasileira, ditam costumes, jargões, moda… Realmente formidável. No meu caso, que teria de abandona-las no fim da “breve folga”, faria uma falta tremenda. No trabalho o máximo que tinha direito era o som do meu rádio AM/FM, que em virtude de não está numa área muito agraciada só as ondas AM tinham bom sinal.

Alguém falou que o ócio pode ser criativo. Merece o Nobel quem pensou isso. Deitado na cama via muitos detalhes do meu quarto que nunca imaginei:

*Minha cama fazia um som diferente a cada vez que me virava de lado. Lado esquerdo mais grave, direito agudo;

*No canto superior do teto havia uma pequena teia de aranhas. Não entendia muito desse aracnídeo, mas imaginava que era um casal, na realidade nem sei se existe aranha macho e fêmea, nem mesmo se eram duas aranhas, ou três… Talvez nenhuma… O certo é que sempre aparecia uma lagartixa;

*As ranhuras do acabamento na parede lembravam imagens do piso lunar;

*Passei horas olhando os poros da minha pele. Quão complexa imagem. O mais louco é refletir sobre o bulbo dos pelos. Que criações miraculosas do corpo!

Nessa condição física não há nada tão ruim quanto o banho frio. Quase uma crucificação, mas a indicação do médico dizia que se a febre aumentasse, água fria ajudaria controlar a temperatura do corpo. À noite mamãe me visitava levando uma sopa, o que era ótimo, pois o dia todo de solidão acabava quando ela chegava. Falava de coisas que acontecerá na sua loja de artigos esportivos; discutíamos um pouco sobre futebol e no fim recomendações para ficar melhor. De novo sozinho me entregava às descobertas das coisas ao meu redor.

*Gatos só miavam à noite? E só miam no cio?

*O som de um relógio poder ser “tac e tic”, não “tic e tac”.

Das inúmeras coisas que pensei noventa por cento foram delírios, só agora que me dou conta. E assim não consigo fazer um relato fiel das minhas criações filosóficas.

Pode ser mórbido, porém, sinto falta dos meus períodos de febre terçã. Porque sou carregado a confrontar o óbvio, que por sua vez me ensina a ver o mundo de outra forma. Sou levado a conhecer meu universo próximo, sem medo do que possa encontrar.

Imagem: Ricky Kharawala

Texto: Tarcísio Oliveira