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Polêmica

Polêmica

Não existe nada melhor do que polemizar. É fato.

É só abrir o jornal, ou melhor, é só abri uma aba num site de notícias, vão estar lá cabeçalhos apocalípticos. Não quer dizer que a notícia é sobre o fim do mundo, mas isso é apenas um detalhe.

Comentários polêmicos também são formidáveis. Eles assumiram de vez o lugar da verdade. Não importa o que fale, o comentário do público vai ser mais criativo e inteligente, e seu texto, por exemplo, fica em segundo plano.

Outro dia vi um cara chamar de fascistas e nazistas, artistas que recorrem a fundos do governo para montar filmes e peças de teatros. (Um pouco exagerado, ficaria melhor chamá-los de aproveitadores, ou algo próximo). E claro o mesmo cidadão finalizava com “quero a volta da ditadura”. Pura polêmica, baseada no complexo de inferioridade. Ele precisa concentrar atenção em suas ideias impactantes. O mais legal é que o rapaz tem uns vinte anos, e certamente nunca passou fome, o que lhe dá toda nutrição necessária para posição tão conservadora.

Mas, na verdade a polêmica nada mais é controvérsia. E sua extensão de significado nos leva ao debate. Os dicionários precisarão adicionar mais um significado: boato mais alto.

Hoje acordamos com a notícia de um senador (explicitamente corrupto) recebendo a liberdade pelos seus iguais. Isso não é mais polêmico.

Antes de ontem, parlamentares votaram na surdina a liberação de bancarem sua própria campanha, favorecendo os que tiverem mais grana. Desde quando isso é polêmico?

O aplicativo mais popular do país oferece a localização de seu amigo, ele não poderá mais te enganar dizendo “tou quase chegando”. Um mapa te mostrará exatamente onde ele está. Absurdo isso, eu mesmo não gostei. Isso sim é polêmico.

Imagem: Photo by Lin Zhizhao on Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Sabe o que é censura?

Sabe o que é censura?

Poucos brasileiros se dão conta que são restringidos diariamente, e menor ainda são aqueles que foram diretamente censurados.

Posso falar “explicitamente” sobre censura. Fui rigorosamente proibido de relatar passagem de um livro, que nem nacional é. Com pretexto que feria a política de conteúdos, blá, blá, blá… Ora, ora… A mesma política que libera dados cadastrais ao mundo inteiro?

O censor é foda. Ele muda de face. Ele tem cara de amigo, de vizinho, de jornal, de revista, de ideias… Porra são tantas caras que a gente termina concordando com ele. E de repente estamos falando “Isso tá errado! É imoral! Que pouca vergonha!”.

O Ultraje a Rigor cantou sabiamente que “indecente é você ter que ficar despido de cultura… Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral. A barriga pelada é que a vergonha nacional…”.

Como é fácil esquecer tantos problemas, e concentrar esforços em pautas tão ridículas. Na verdade, a censura é foda, ela nos engana. Ludibria. Somos agentes da censura. Somos armas sem mira, e atiramos em tudo que nos faça pensar.

Tive pesadelos quando fui censurado. É como se alguém chegasse para você e dissesse: “Ei! Diga isso não! Está com algum problema? Tem algum retardo mental? Refaça isso seu merda! Nesse espaço livre, só entra o que eu quero trouxa! E se me arretar, boto você para fora, e se reclamar, mando lhe prender!”.

Não estou sabendo me expressar direito. As palavras são bem mais pesadas do que essas, mas já dá para ter uma noção.

Àqueles que não sabem o que censura, e aplaudem tão rude palavra aos ouvidos de uma minoria. Continuem assim é o melhor caminho para permanecer na ignorância.

Imagem:  Kristina Flour via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Corrupção brasileira

Corrupção brasileira

É tão bom saber que mesmo o Brasil tendo mais de 500 anos, só recentemente que se surgiu a corrupção. Durante mais de quatro séculos fomos íntegros e descentes em todas as atividades administrativas e sociais. É por esse fato que acredito que iremos apagar logo os eventos ultrajantes que acontecem atualmente.

Não podemos admitir que um grupo político manche nossa história idônea, repleta de bons exemplos. É um absurdo! Ainda bem que eles sumirão, e as próximas notícias serão as já conhecidas por nós: futebol europeu, como ser migrante nos USA, o charme e bom gosto das capitais europeias, a fome na África.

Antigamente não se falava em corrupção brasileira. Nosso glorioso período militar nunca permitiria coisas como essas que assistimos nos noticiários. É um absurdo!

Felizmente os primeiro passos a volta da democracia foram dados. Reformas como a da política mostram a pura vontade do povo, sempre quisemos saber quem são os 71 parlamentares mais votados, para câmara dos deputados. E o que falar das brandas alterações na previdência: sonho. O futuro nunca foi tão promissor para o país.

*Informamos que a ideia expressa no texto é responsabilidade da fraca criatividade do autor. O site não se responsabiliza pelo que foi dito. Mesmo por que não conseguimos encontrar em nenhuma pesquisa o tal país mencionado pelo autor. Logo se trata de uma obra de ficção.

Imagem: Scott Webb via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Sistema eleitoral: chato demais

Sistema eleitoral: chato demais

Imagine um pesquisador batendo em sua porta, lhe convida para preencher um questionário de opiniões. Ele explica o assunto, e você com paciência e disposição aceitar responder. Mas, já na primeira pergunta acha complicadíssimo, e pensa logo em desisti. O cara lança um “O (A) Senhor (a) conhece o sistema eleitoral adotado no Brasil?”. É quase absoluta a certeza que a resposta seria “Não”. Emendaria com um “não consigo explicar ao certo” ou “não me interesso pelo assunto”. O entrevistador para não gerar impaciência no entrevistado trata logo de pular a pergunta, e vai direto a intenção de voto.

Improvável que um item deste conste em alguma pesquisa de opinião. Mas, bem que seria pertinente ao cenário tão plural de ideias sobre o momento do país. É um pergunta até evasiva, considerando o quase nenhum envolvimento da sociedade. Só apenas votamos, porém, não entendemos a extensão desse ato, nem ao menos sabemos o valor de sua serventia, pois antes é preciso conhecer o tal sistema.

O ato de votar é bem popular, é parte mais divertida do processo democrático, também é a mais criticada, mas a cada quatro anos, estamos lá. Seu desdobramento também tem ganhado notoriedade de estrela, ele se materializa na figura de nossos representantes. Sim REPRESENTANTES, eles nada mais são do que nossos IGUAIS, pessoas comuns que escolhemos para ATESTAR nossas ideias. Toda ação deles, negativas ou não, são concebidas por nós. Se ao menos soubéssemos o que é um sistema eleitoral entenderíamos melhor essa IGUALDADE com políticos salafrários. Mas esse negócio de fórmula eleitoral, distritos eleitorais, quociente eleitoral, quociente partidário, eleições… Só de falar dá ânsia…

Em vez desse papo chato é mais viável:

– intervenção de outra entidade, ou país;

– um novo político messiânico, livre de problemas de conduta e com ideias reacionárias, já que os democráticos são corruptos demais;

– exterminar todos que estão ai e rezar para chegada do juízo final.

O mais atrativo talvez seja menos cansativo, não quer dizer que tenha o efeito preterido.

Alguém deve pensar que “já tenho problemas demais, pago muitos impostos”. É ousado pedir para pessoas assim mais engajamento, mas é interessante lembra-las que os “muitos impostos” foram criadas e permanecem por causa delas.

Por fim, não será expresso o conceito de sistema eleitoral, é longo demais e tem muitos nuances… Chato demais.

Imagem: Arnaud Jaegers via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

A Fila

A Fila

Fila no Brasil deixou de ser um grupo de pessoas uma atrás da outra. É um mosaico de diversidades. É um fenômeno social. Não deve se limitar a piadas, ou coisas do tipo. É necessária elaboração de estudos nos centros de pesquisas, tornando possível avaliação científica.

Importante lembrar que o estudo da Fila não se limitaria a uma ciência. Sua análise é multidisciplinar, é termo plural, seria investigada pela Sociologia, Filosofia, Antropologia, Linguística. E se engana aquele que não considerar o olhar das Ciências Naturais, pois como deixar de fora o olhar do físico, do geômetra, do matemático?

Porém, uma das visões mais aguarda seria a da Ciência Política. É improvável deixar de construir a premissa de que “uma fila é extensão da organização, ou não, de um Estado”. Refutar isto é tolice. É quase uma obviedade que a fila se trata do reflexo do poder político.

Insistamos no caso Brasil.

A fila no Brasil já nasce assimétrica. Somente o indivíduo que esta prestes a ser atendido faz questão de se manter na marca pintada no chão, que foi criada justamente para marcar um espaço harmônico entre os fileiros (nomeamos assim aqueles que habitualmente são integrantes de filas). Os demais que estão atrás daquele que pisa no “Aguarde”, se apresentam de maneira até folclórica: braços cruzados; pernas cruzadas para equilíbrio; encostados na paredes; encostador em qualquer coisa; sentados no chão; sentados numa cadeira a metros de distância, pois conseguira liberação do seu anterior e seu posterior para se afastar até a sua vez chegar. O resultado de tantas variantes é a desarrumação, ao ponto de provocar num recém-chegado efeitos de miragem: quando ele pensa que só tem três na fila, é tocado no ombro por alguém que lhe diz “a fila começa lá trás moço”.

O mesmo “moço” que decepcionado segue ao final da fila confirma que aquilo ali é culpa do Estado. “Só num país atrasado como este mesmo!”, “País de corruptos!”, “País sem educação!”, “É por isso que não anda!” são apenas alguns dos argumentos prontos para explicar sua impaciência quanto ao fato que será o último até outro revoltado aparecer. Claro que não se contenta e inicia uma série de analogias com países distintos, avança inclusive para o campo teórico criando cenários e legislações que nem existe no planeta, mas, quem ouve aceita, fica tímido, com vergonha de desmentir o agora “penúltimo”.

A transferência de culpados leva por fim aos atendentes. “Lerdos!”, “Preguiçosos!”, “Burros”, são tantos os adjetivos que dá criar um dicionário informal. Mas, eles se vingam: inesperadamente quando vão ao banheiro, bebem água, se demoram mais numa anotação ou na contagem de cédulas. Ao perceberem a tal ação retardante os fileiros, num prelúdio de coro, dizem “é agora que só saio amanhã”.

Caso as ciências não enveredem no estudo, por motivo de acharem tal assunto fugaz, as expressões artísticas podem sem dúvida desenvolver um movimento cultural. A dança deve fazer uso da técnica corpórea de um fileiro, é uma flexibilidade surreal às vezes. O teatro teria tantos e tantos diálogos para encenar. Quantos versos seriam inspirados? Quantos contos? Um romance talvez? A literatura perde ao não explorar a famigerada formação de pessoas. A TV deveria promover séries e novelas!

Claro que o tema me ocorre depois de enfrentar uma hora e quarenta e sete minutos numa fila. Meu atendimento durou um minuto aproximadamente, tempo apenas do caixa digitar alguns números e a tecla “Enter”. Aliviado prometo a mim mesmo nunca mais me sujeitar a isso, e mais que urgente utilizar os meios digitais. Talvez sinta falta da fila, mas por enquanto prefiro observar de longe o desabafo do “último”: “Só nesse país mesmo!”.

 

Imagem: Petar Petkovski via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

A cadeira que vence montanhas

A cadeira que vence montanhas

A historiografia conta que um dos primeiros lugares a pensar na mobilidade de pessoas com limitações físicas foi à Casa Branca. Não foi meramente uma atitude altruísta, interesses intrínsecos levaram a reformulação de alguns ambientes internos desta que é, talvez, a maior representação de poder no mundo. A verdade é que foi para atender o presidente Franklin Roosevelt, afetado pela horrenda poliomielite. A doença não diminuía sua altivez, mas o deixava com certa fragilidade física, o que culminava um pousio obrigado numa cadeira de rodas, fato um tanto constrangedor, pois pouco se fala no assunto. E assim sua equipe requalificou o espaço para deixar seu líder com mais “liberdade”.

De lá para cá muitos temas que permeiam a “inclusão”, pelo mundo, tomaram conta de muitas políticas públicas e privadas; não se diz mobilidade, mas sim, acessibilidade, termo mais sútil. Utilizar um vocabulário mais apropriado é um ótimo passo; informar ao grande público as reais necessidades de cadeirantes, por exemplo, é talvez o maior desafio. E por que informar é tão importante? Porque ainda coexistimos com indivíduos tão ineptos que a melhor explicação é acreditar na falta de conhecimento deles. Não se encontra racionalidade numa pessoa que estaciona num local reservado para idosos e deficientes, ou que ignora uma rampa de acesso em calçadas. E o que dizer de algumas instituições e suas roletas de segurança nas entradas?

Generalizar é um erro. As ilustrações acima citadas se encaixam mais na realidade brasileira, que claro, não representa todas as pessoas. Casos isolados dão esperança. Um motorista de ônibus certo dia, mostrou sua boa vontade: o ônibus pelo qual é responsável tem um desses elevadores-escadas que facilitam a subida de cadeirantes no coletivo, nesse dia, o tal equipamento estava quebrado, e o cadeirante esperava a mais de quarenta minutos no terminal, pediu ajuda e prontamente foi atendido, o motorista usou de técnicas acrobáticas e ergueu o rapaz com sua cadeira. Certamente a cena deve se repetir pelo país, mas a ação heroica é ignorada pela maioria.

A falta de acessibilidade não é prerrogativa apenas dos cadeirantes, eles são símbolos de pessoas que escalam montanhas diárias para tocar a vida, com o mínimo de dignidade. Viver dignamente é o que todos almejam no fim das contas. Se a conveniência de ser um líder de estado fosse permitida a cada cidadão, quem sabe saciaria um pouco o tal desejo. Imaginar que num dia alguma coisa foi realizada para melhorar seu bem-estar é um excelente cume.

Imagem: Jens Wiecker

Texto: Tarcísio Oliveira