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Anel de noivado

Anel de noivado

O que o amor não faz?

O amor é capaz de tudo realmente. Custei a acreditar nisso. O fato é que jurei não casar na igreja, mas o que não faria por Sônia? Fiz tudo.

Um dia levantei da cama e falei em voz alta “preciso me casar com Sônia”. E me vestindo para trabalhar, fui traçando planos de como faria o pedido, qual era o lugar mais romântico, que roupa usar… Eis que surge a preocupante questão: como comprar um anel de noivado?

No trânsito não parei de cogitar. Era preocupante não entender nada sobre joias. Pior ainda era comprar o anel errado, sabia o quanto as mulheres sonham com isso.

No intervalo do almoço Jonas me deu umas dicas.

– Vai nessa loja. Foi uma tia minha que indicou na época em que casei com Dulce.

– É caro?

– Esquece o valor meu amigo… Tudo para casamento é caro. Esquece esse detalhe… Use apenas o bom senso.

E assim fui, cheio de dúvidas, mas com o cartão de crédito livre.

A vendedora foi muito gentil. Teve a maior paciência. Imaginei que teria uma excelente comissão. Depois de uma hora na loja, escolhi um dos mais caros anéis.

Montei a noite perfeita para fazer o pedido de casamento a Sônia. Confesso que senti orgulho de mim mesmo no dia. A data ficou para dali a um ano.

Hoje é o dia do casamento. Já desmaiei duas vezes. Não era por nervosismo provocado pela timidez. Minhas náuseas eram provocadas pelo atraso de mais de duas horas de Sônia.

Pensei que enfartaria quando ouvi alguém confirmar “ela não vem”. Chorei copiosamente.

No fim do dia, já domesticado por muitas garrafas de vinho, só sentia a tristeza de ter gastado uma pequena fortuna no anel de noivado. E comecei a gargalhar quando lembrei que em meu bolso ainda estavam as alianças do casamento. “Estas eu devolvo! Estas eu devolvo! ”, gritava e chorava.

Imagem:  Zoriana Stakhniv via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Não quero ser mãe!

Não quero ser mãe!

Minhas amigas enchiam o saco com esse negócio de ser mãe. Simplesmente nem todas as mulheres nasceram para maternidade. Faço parte desse grupo.

Criança é bonitinha tal… Mas, nem de boneca gostava de brincar, e num brinquedo de verdade é que não toparia mesmo.

André também não entendia isso. E mesmo apaixonada por ele, decidi que não aceitaria o pedido de casamento que ele me fez ontem. Não queria passar anos ao lado de um cara que iria me aporrinhar para ter filhos.

Já chorava antecipadamente. Não sai do banheiro do escritório durante o dia. Os colegas de trabalho tentavam entender o meu pranto, mas, nem estendia muito na conversa. Apenas dizia que estava “triste”.

***

As férias me ajudaram a chorar menos. A decisão tinha sido minha, então devia encarar melhor o término. Constrangimento foi dividir as coisas, não imaginei que ele fosse tão mesquinho. O cara fez questão por quase tudo, até pelas plantas. Pulei uma enorme fogueira no fim das contas.

***

De volta ao trabalho, logo na primeira reunião, recebo a notícia que serei promovida. Numa reunião com alguns membros da diretoria, sou presenteada com a informação e o motivo: a antiga chefe será mãe, e decidiu dedicar-se inteiramente a maternidade.

Já no fim alguém me pergunta “e você planeja ser mamãe quando?”.  Enchi os pulmões e berrei: “Não quero ser mãe! ”.

Imagem: Oscar Keys via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Mãos úmidas

Mãos úmidas

Erámos tão jovens. Adolescentes. Nunca tinha conhecido menina tão linda. Pena ser tão tímido.

Empatia de cara. Ficamos amigos. Sentia que ela gostava de mim, seus olhos brilhavam quando me viam. Mas, só tenho segurança disso hoje, mais maduro.

Sempre que me aproximava dela, meu coração palpitava. Era paixão, claro. Porém, não sabia como proceder. O medo da negativa era maior que a coragem de beija-la.

Num dia de carnaval, tomados pelo despudor da euforia, ela me deu a mão e pude desbravar a multidão guiando-a. Nossas mãos úmidas, talvez fossem a maior prova de nossos anseios. Foi o mais próximo do corpo dela que pude chegar. Maldita timidez!

A vida e suas armadilhas… Nos prega peças que somente o mais desavisado pode se surpreender. Passados 20 anos reencontro aquela paixão da juventude.

Linda como sempre. O mesmo sorriso.

E mesmo com mais experiência, e muitos amores, não pude conter o nervosismo, tão pouco a gagueira. Um cumprimento adulto: beijos educados na bochecha, “que avanço! ”, pensei.

Nem tudo era perfeito. Uma aliança na mão esquerda lhe distanciava de mim. Ele se aproximou. Tive o desprazer de cumprimenta-lo. A vontade era de quebrar todos os ossos de sua mão.

Tanta tolice. Na verdade, queria era chorar.

Era o homenageado na noite. Após receber o prêmio, e agradecer a todos os cumprimentos, me lancei a goles do bom e velho uísque.

Do lado de fora, olhando para lua, pensei em criar uma máquina do tempo.

“Linda festa”, ela falou.

Expliquei que tudo era fruto do cerimonialista, eu também era um convidado. Rimos.

De repente lembrávamos de tantas coisas, e mencionávamos tantos assuntos atuais, que era como se não existe um tempo nos separando.

Ajudei-a subir as escadas. Sentir suas mãos úmidas. Queria tanto beija-la, pelo menos uma vez…

“Por que nos afastamos? ”, ela perguntou.

“Acho que porque nos amávamos”.

Ruborizada. E com leve tremor nas mãos, ela tocou minha face. Ficamos ali, não sei quanto tempo, olhos nos olhos. Ela me deu um abraço, e nos despedimos. Finalmente chorei.

Imagem: Roman Kraft

Texto: Tarcísio Oliveira

T.O.C.

T.O.C.

T.O.C. Não gosto da nomenclatura. Ter qualquer obsessão é assustador. A palavra obsessão me lembra filmes de terror. “Compulsivo”, talvez seja um pouco. Na verdade, sou organizado. Excêntrico, para alguns.

Suzana surtou quanto entrou em casa e me viu retirando a cobertura da parede. O reboco está mal-acabado, cheio de imperfeições. Decidir refaze-lo. Suzana não aceitou muito bem. Ali foi o marco para nosso divórcio.

Pena que ela não viu minha obra de arte completa. Uma parede lisa, bem-acabada. Depois dela refiz toda a casa. Aos poucos me tornei um expert em construção civil, autodidata.

No trabalho:

– Tony, a equipe tem reclamado de surtos cara… Você precisa de tratamento.

– Maurício você me conhece, sabe que faço o melhor para empresa. Prezo pela organização.

– Mas, você advertiu uma funcionária por causa de um papel amassado!

– Era um documento importante.

– Que porra de documento! Um papel que ia ser jogado no lixo. E tira a porra dos olhos das minhas canetas jogadas na mesa!… A mesa é minha organizo essa porra do meu jeito!

Eles não enxergavam o caos naquilo tudo. O que tinha de errado em ordenar as coisas?

Em casa:

Já não recebia mais ninguém em casa. Na verdade, os amigos não queriam mais vir. Alguns se chateavam do meu rigor na hora de servir um vinho, e degusta-lo. Ou de minhas recomendações à mesa. Enfim, só queria o melhor para todos, pena que eles não enxergavam, só eu.

Refazer o banheiro era necessário. Um fim de semana prolongado era o ideal. Derrubo e já começo a levanta-lo. O que há de mal em ser assim?

Imagem: Florian Klauer via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Pílulas Expressas

Pílulas Expressas

Editor-chefe (estava escrito na porta de vidro).

– Senta ai Pedro!

– Já está com a pauta da semana?

– Na verdade não… Você vai ter que assumir outra coluna.

– Outra coluna?

– Sim. “Saúde e Beleza” mais especificamente.

– O quê! Como assim? Sou um jornalista, mestre em ciência política… Correspondente de guerra! Isso é alguma piada?

– Conheço seu currículo, te contratei lembra? Os tempos são outros Pedro. Tem acompanhado nossos números? Sabe quantos jornais estamos imprimindo por dia?

– Sei das dificuldades, mas não podemos nos render assim. O jornalismo sempre passou por inovações. E sei que temos ganhado bom dinheiro na plataforma digital.

– Pedro… Pedro… Pedro… Você não sabe de nada! Por um acaso já viu como anda a popularidade da seção de política em nosso site? Sabe quantas visualizações tem por semana?

– Sei de alguns números…

– Você não sabe de nada! Aliás isso não é negociável. Para continuar aqui vai ter que assumir a pasta. E outra coisa: sua coluna política se tornará “pílulas”. Cinco vezes na semana vai montar pequenos textos para lançarmos, tanto na versão impressa quanto na virtual.

– Isso é para me forçar pedir demissão?

– De forma alguma… Como te falei, são novos tempos… Aceitei e trabalhe!

Não tive muitas opções. Era o melhor jornal do país. Tinha um bom salário. No primeiro mês minha nova coluna era a mais acessada. Fazia sucesso. Ganhei bônus. As pílulas expressas, também tiveram melhor repercussão. Ele estava certo. Novos tempos.

Imagem: G. Crescoli via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Ressaca

Ressaca

Acordar de ressaca é foda. Mesmo assim Sales conseguiu ficar de pé. No banheiro vomitou, mas, depois conseguiu se equilibrar em baixo do chuveiro. A água fria o ajudou despertar.

Na geladeira tinha um pedaço de queijo, duas latas de cerveja, uma garrafa de vinho pela metade e algumas embalagens vazias de comidas de micro-ondas. Antes da noitada no dia anterior, ele já havia buscado suas roupas na lavanderia; se vestiu, depois esquentou o queijo numa frigideira, comeu acompanhado de uma das cervejas.

Hoje ele não iria de terno ao trabalho. Teve sorte: calor insuportável fazia. Antes de descer para pegar o carro, usou um bafômetro descartável para verificar o nível etílico, marcou 0,35 mg/l, no limite para ficar retido em qualquer blitz, mas teria que pagar a multa, talvez perdesse a carteira, “isso é outro problema”, pensou ele.

Era o penúltimo dia do ano. No escritório todos já se despediam e planejam nova noitada, Sales empolgado, foi no banheiro e cheirou uma carreira de pó, que alinhou na tampa da privada. Energizado voltou à pequena confraternização que acontecia no espaço de vivência da empresa. Como sabia que não lembraria, inventou uma desculpa para se excluir do amigo-secreto. Em pé num dos cantos do espaço e sua cabeças nas nuvens, ele observava e criava perfis dos seus amigos de trabalho. Imagina as impurezas que aquelas pessoa eram capazes de fazer: os senhores de respeitos, potenciais pedófilos; as senhoras íntegras, exalando sonhos sexuais. Para Sales estas horas foram torturas, e também a mistura das drogas contribuiu para um estado paranoico, só melhorando quando cruzou a porta da boate onde a confraternização iria ter seu fim.

Imagem: elizabeth lies via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira