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Estrada para lugar nenhum

Estrada para lugar nenhum

Resolvi andar sem rumo depois de ter visto um filme norte-americano, não lembro o título, mas o enredo trata de uma moça que resolve fazer um caminho famoso naquele país, com o intuito de se redescobrir.

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Não tenho grana para bancar a viagem e seguir os mesmos passos dela, por isto resolvi criar meu próprio caminho de redenção, mas, sem tem ter um ponto final, caminho, portanto, para lugar nenhum. Talvez seja geral demais nomear de lugar nenhum, já que vou andar dentro do meu país, o melhor seria mesmo dizer que vou andar sem data para retornar. O que significa dizer que caminharei sem pressão alguma de voltar, sem justificativa para dar.

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Comecei com algum dinheiro, não era muito. Já gastei um tanto. Só gasto basicamente com alimentos, água e banho.  Tomo banho nos postos de gasolina, não é barato, sendo assim não é diário, a cada três dias para ser mais exato. Não lembro como a moça do filme se virava, mas meu trecho é diferente, uso rotas urbanas, evito entrar no mato. Vez ou outra para fazer necessidades é que pulo uma cerca, detalhe maior que me priva de andar por dentro da vegetação: essas áreas sempre tem dono.

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Mentiria dizendo que todo percurso faço andando. As caronas são muito bem-vindas. Com os estradeiros fico sabendo de estabelecimentos que guarnecem viajantes, momentos que posso sentir o conforto de cama e privada. São pequenas casas que funcionam como pensão, improvisam pequenas suítes, um tanto deterioradas, mas, depois de certo tempo, se tornam suítes presidenciais. Passam despercebidos os insetos, o mofo, os vazamentos ou falta de água… O que importa é poder deitar em algo fofo e fazer as necessidades num vaso, usando papel higiênico em vez de folhas. A ausência destas coisas é que me deixa aflito na minha jornada, e quando tenho a possibilidade de usa-las, me emociono.

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Depois de três meses andando minhas preocupações já não eram as mesmas do inicio. Praticamente não lembrava as angústias que tinha com família e trabalho, duas instituições fundamentais para muitas pessoas, para mim resquícios de lembranças. Não me assustava o desapego, o pouco que aprendia nessa viagem é que a imensidão do mundo extrapola toda nossa compreensão. Hoje meus dilemas giravam em torno de como aliviar a dor dos calos e escoriações que surgiam nos pés e corpo.

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Na estrada ganhava a vida ajudando carreteiros a trocar pneus. Trabalho árduo para homens de meia-idade, fora de forma, mas, a prática fazia deles exímios borracheiros, e quase halterofilistas, visto que, suspender uma roda completa não era nada fácil. Com essa grana ia me virando, fazendo amigos. Num dia de boa arrecadação me dava o luxo de fazer uma boa refeição noturna. E foi numa destas que me vi no noticiário nacional, estampavam minha foto, papai e mamãe falavam que já não tinham notícias minhas a mais de quatro anos. “Quatro anos”, falei para ninguém. Vi meu reflexo no açucareiro. Cabelo grande, barba enorme… Nada parecido com aquele jovem rapaz mostrado na TV. Senti falta do meu filho e Marcela, eles não estavam ao lado dos meus pais. Na certa Marcela havia se casado novamente. Era jovem e linda, não valia a pena esperar por mim, no fundo todos entendiam minha jornada como um surto.

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A placa informava o limite de velocidade. Ao longe enxerguei árvores com copas largas, fariam boa sombra, poderia descansar. Naquele lugar esmo, onde somente uma placa sinalizadora materializava a presença humana, decidi começar meu retorno. Não havia estrada para lugar nenhum. Todos os lugares já eram ocupados pelo homem, não haveria lugar para manifestação de um nirvana, nem em um dos picos do Everest. Voltar para casa seria um desafio maior certamente, lá é provável que me encontre novamente.

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira

Zezé, Cerveja e Sono

Zezé, Cerveja e Sono

Por Aurora Siqueira*

 

Nas tardes de sexta, logo depois do almoço, no Bar do Zezé, onde serve aquela feijoada deliciosa, bate aquele sono!

Fico naquela expectativa pensando que no sábado à tarde vou dormir até cansar!

Mas logo volto a realidade e vejo que ainda tenho que trabalhar até o fim do dia… Para só então, receber a dádiva de um final de semana.

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Já no fim da tarde, me animo! Lembro-me da happy hour, da cervejinha com os amigos, do tira-gosto e da boa leitura!

Sexta-feira grata! Lá para tantas, antes de dormir, vou fuçar as novidades das Tardes de Sexta com Tarcísio!

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E no início do fim de semana (sim, o meu começa na sexta a tardinha), tomarei aquela cerveja bem gelada, colocarei o papo em dia com os amigos e viajarei em silêncio com a leitura de alguma coisa bem escrita.

*Aurora Siqueira:

Cidadã do mundo, coração e alma pernambucanos.

Professora universitária, nas horas vagas amante das letras.

**Crédito imagem: @yucatar

Fui a guerra

Fui a guerra

Tinha dezenove anos quando me alistei. Fui motivo de piadas e tal… Mas, superei. Precisava trabalhar, e fui com um tio meu para os seringais lá no Norte. Quando voltei trouxe um bom dinheiro, e pude tirar meus pais do barraco que moravam. Só que não estava sozinho nessa, muitos caras extrapolara a idade, e piadas bem mais pesadas foram criadas para eles, a chacota não se limitava apenas pelos alistados, mas, também, pelo corpo militar responsável por nossa inscrição.

Na apresentação nada muito diferente: homens testando o limite de sua masculinidade. Tanta bobagem envolvida. Estava ali simplesmente por causa da grana, o país atravessando uma desordem financeira, e um cara como eu, sem estudo, sem nome, deveria me apegar a essas oportunidades e esperar que os ventos melhorassem. E com uma saúde de touro, passei.

Pior de tudo foi pelar o cabelo. Mas, a rotina de acordar cedo e as outras atividades de manutenção predial, digamos assim, já estivesse habituado. Os filhinhos de papai é que sofriam. Choravam, pediam arrego… E no fim desistiam. Os que continuavam se fodiam até virar homem.

Para ver o final do conto, siga para nossa loja:

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Frases sem rumo

Frases sem rumo

Acredito mais nas piadas do que nos pensamentos.

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O lugar mais longe que fui foi o interior da minha mente.

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Acredito em mentiras, pois elas são mais reais que as verdades.

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Quando alguém diz que o importante é somar acredite: dividir ou subtrair é roubo.

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A bússola nos orienta. Somente por isso autoajuda é desnecessário. Leitura de verdade são as bulas médicas, estas sim são prescritas.

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Dor nas costas é uma merda. Nos faz ficar parado, de molho, pensando bobagens e compartilhando-as.

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira