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O Espião (Final)

O Espião (Final)

EXECUTAR

Não lembrava como era chata uma entrevista de emprego. E mesmo nas esferas mais altas era necessário este tipo de conversa prévia. No meu caso conhecer a nova mesa diretora. Ao contrário do que planejamos lá trás, não me empreguei num grupo nacional em crescimento, fui contratado por uma multinacional estrangeira, que entrou no mercado disposta a derrubar toda concorrência. Uma empresa sólida, faturamento enorme, ninguém entendia muito bem como conseguiam, imaginava-se que havia dinheiro escuso, oriundo da máfia.

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O Espião (Parte III)

O Espião (Parte III)

Início

Só tive autorização para começar por em prática o que estava aprendendo depois de um ano. D não queria que cometesse erros. Talvez fosse outra espécie de treino, para conter euforia e tal. Era um aluno aplicado, teria sucesso na missão.

Agora, sozinho em campo, elaborei minha própria estratégia. Fiz um inventário das pessoas que estavam no meu setor (o que terminei fazendo de todos os funcionários durante os anos). Nesses dossiês continham o máximo de informações sobre elas, evidente que os detalhes sórdidos ganhavam mais espaço. A partir daí tracei quais seriam os alvos e quem seriam os aliados.

É possível que toda essa maquinação não fosse necessária, visto que, pessoas são falhas, e hora menos outra alguém tomaria uma decisão errada, e se me mostrasse apto, poderia ser promovido, por méritos. Mas, a prática me mostrou que isso é falho. Um dia o supervisor se esqueceu de acompanhar as mudanças na lei fiscal, a empresa tomou uma tremenda multa, ele foi demitido. Seu sucessor direto radiava de felicidade, imaginando sua promoção, o que não ocorreu. Em vez disso, houve a contratação de dois supervisores. “Uma decisão empresarial ultrapassava todos os sentidos da emoção, não existe justiça”, disse-me uma vez o senhor D. Permaneci fiel ao propósito.

Precisava de visibilidade, só conseguiria mudando de setor. Publicidade ou comercial? Fiz o caminho da publicidade, criar ideias para promover os produtos me dariam experiência para depois vender. Seguiria para o comercial e por fim o caminho das decisões majoritárias, me tornando executivo. Engraçado que nesse mesmo período virei fã da série Mad Men, Don Draper e suas sacadas me inspiravam. Coincidências a parte, no mundo real precisaria de mais que um rosto bonito para me dar bem.

O primeiro aumento salarial foi muito simples. Sempre estava um passo a frente dos meus colegas. Nunca faltava. Nunca me atrasa. Nas reuniões interagia de forma positiva. Não minto que enquanto isso atrapalha um pouco meus colegas. Implantei um fishing nas máquinas deles, e tive acesso a todas as senhas. E-mails particulares, contas bancárias, redes sociais entrava facilmente, confundia-os com mensagens entre eles, desviava e-mails corporativos de relevância.

Assumir a supervisão do setor depois de um ano e meio, mas, com toda a simpatia dos publicitários, pois durante esse tempo, realizei um inusitado intercâmbio com eles. Apresentei uma proposta de redução de custo interno, e eles ajudariam na divulgação entre os funcionários. E quando me tornei supervisor a interação ficou cada vez maior. Ideias promissoras enchiam os olhos e aumentavam os números da empresa. Não foi difícil consegui a transferência. Confesso que todas as minhas ideias surgiam após escutar com minúcia várias reuniões, de todos os setores. Fazia uma compilação do que melhor surgia. Somava a tendências mercadológicas e tinha um excelente prospecto.

Na publicidade conseguir meu ápice. Produzir mais de que todos. Ingressei num mestrado, participei de congressos internacionais, trouxe prêmios para empresa… Era inevitável assumir o posto mais alto na empresa nessa área. E assim aconteceu.

Nos meus encontros com D, que se tornaram mensais, falava que o tempo era muito lento e gostaria de uma força do contratante, porém, D reforçava a satisfação, e que tudo estava dentro do cronograma, era uma missão de longo prazo, teria que ter paciência, blindar meu nome no mercado e sugeriu inclusive um casamento.

“Casar?”

“Sim… Casar. A imagem de um homem que constrói família transmite solidez.”

“Mas, nunca pensei em casar. Nem namorar consigo. Flertei apenas com uma moça nos últimos cinco anos.”

“Eu sei… Você é o soldado ideal sem dúvidas. Entenda que é apenas uma sugestão. Perceba que a partir de agora muitas das decisões não serão mais tomadas em mesas de reunião, mas sim, em mesas com pratos de churrasco.”

“Entendo. Mas, posso hackear e-mails gerenciais…”

“Muitos de seus novos amigos chegaram ao topo não só pelo trabalho. Não são iguais a você, mas, eles também têm habilidades e entre elas a capacidade de desconfiar… ‘Percepção inerente’ é assim que nomeio.”

“Ok. Considerarei o casamento.”

Continua…

Créditos imagem: James Joyner

Texto: Tarcísio Oliveira

O Espião (Parte II)

O Espião (Parte II)

Treinamento

A grande mudança em mim foi deixar de acreditar na palavra mal. D me convencerá que todas as minhas ações seriam a favor de uma coisa maior. Mesmo se tratando de uma empresa privada, o Grupo A era responsável pela vida de muitas pessoas, além de estar envolvido em muitos setores da vida pública.

A minha evolução na empresa era todo meu treinamento, a forma como galgaria isto, seria oriunda de técnicas de espionagem. De segunda a sexta tramava para meu crescimento e nos fins de semana me isolava num sítio com D para aprender efetivamente o que era ser um espião.

“Tudo é percepção… Nossa maior ferramenta… Por meio dela, antevemos e agirmos”, era o que o senhor D vivia repetindo para mim. E foi a parte do treinamento mais extenuante para mim. Nos primeiros meses quando me apresentava na sexta à noite, ficava numa sala escura, preso a uma cadeira de ferro, de olhos vendados, até a noite do domingo, sem comida, apenas água. A ideia era tentar apurar meus sentidos, segundo Sr. D. Uma transformação incrível comecei a sentir presença de isentos, distinguia cheiros com precisão de detalhes… “Dominar o ambiente”, dizia ele.

Suportei todas as transgressões físicas impostar por D. Meu corpo realmente era apto ao serviço. E já seguimos para uma segunda etapa: cooptar informações, tria-las e usa-las a meu favor. Aprendi a montar escutas, tanto em aparelhos fixos e celulares, como também, pequenas escutas móveis que me deixariam ouvir tudo que fosse falado num determinado ambiente. Um novo instrutor foi me apresentado, era um hacker norte-americano, me passou informações para acessar e fazer alterações em qualquer computador sem deixar vestígios, além de outras técnicas. Ainda conheci muitas formas de criptografar, inicialmente seria a forma que transmitiria meus relatórios aos meus verdadeiros contratantes.

Por conta própria me matriculei numa academia, a ideia era aprimorar minha condição física. E depois de dois meses dividia horas entre aparelhos de ginástica, treinos de boxe e caratê. Não escondi por muito tempo do senhor D, quando começamos as atividades de tocaia, ele me mostrou fotos minha durante os treinos.

“Insisto em dizer que é fundamental ter total controle do ambiente… Ser seguido e não perceber é mortal.”

Repliquei dizendo o nome e endereço da pessoa que havia tirado as fotografias. Ele tentou disfarçar a surpresa, mas, notei sua veia jugular acelerada.

Crédito imagem: James Joyner

Texto: Tarcísio Oliveira

O Espião (Parte I)

O Espião (Parte I)

Recrutamento

O trabalho de um espião nunca foi somente pular de veículos em movimento, sobreviver a explosões e namorar pessoas bonitas… Vai além. É um trabalho de bastidores, claro que sempre envolve perigo, em todas as épocas. O cinema procurar pintar boas histórias, porém é certo que se descoberto, um espião sofrerá consequências das mais sombrias. O biótipo de super-herói é que não atende bem as expectativas. Segundo meu mentor, que chamarei de D, ele conviveu durante anos com espiões que facilmente se passariam por pessoas normais, sem grandes habilidades, porém, com uma extrema capacidade de se inserir, mentir e descobrir segredos. D foi adido cultural em várias capitais europeias no período da Guerra Fria, e de maneira sorrateira, promoveu junto com seus parceiros muitas transformações no mundo. Já na década de noventa, com sua aposentadoria garantida, um parlamentar contestou os altos gastos do tal adido, e sem muita serventia para o governo, foi trazido de volta.

Quando completei um ano na empresa A (evitarei nomes), líder no mercado de produtos alimentícios, fui chamado para uma reunião com o chefe de segurança. Não entendi bem, ele me fazia perguntas aleatórias, abusivas, mas, soube me sair de todas elas mostrando autocontrole. Após aquele interrogatório, ele me encaminhou a sala do diretor-presidente, surpreso atendi. Nunca havia chegado aquele nível da fábrica, me limitava ao setor fiscal, do qual fazia parte e conhecia somente as dependências comuns a todos. Não esperei mais de que poucos minutos para ser atendido.

“Bom dia!”

“Por favor, sente-se”.

Ele tinha uma sala grande. Poucos móveis, nenhum equipamento eletrônico, apenas um aparelho telefônico em cima de sua impecável mesa. Num dos cantos havia uma estante repleta de livros, não conseguia ver os títulos. Mas, o que mais chamava atenção era vista… Uma parede de janelas de vidro mostrava uma área verde conservada. Era a parte de trás da fábrica, poucos tinham acesso, não tinha ideia de como era bonita e reconfortante.

“Imagino que toda essa abordagem deve ser estranha para o senhor… Não é isso Ricardo?”

“Sim…”

“Para minimizar não farei rodeios, explicarei toda a situação, lhe farei uma proposta, o senhor terá alguns minutos para pensar e responder… O que for dito aqui, ficará aqui. Entendido?”

“Sim”.

Respondi me sentido num filme de máfia.

“Somos uma empresa secular. Minha família começou a construir nosso patrimônio a mais de cem anos atrás. Dedicamos nossas vidas para chegar ao ponto que estamos hoje. Evidente que só empenho não é suficiente. Muitos empecilhos apareceram no nosso caminho, e sempre estivemos preparados para ultrapassá-los. Hoje conseguimos ver o futuro, ou melhor, fazermos estudos prospectivos que nos ajudam a entender o futuro. E essa perspectiva nos mostra que teremos concorrentes bem astutos. Claro que só são números, mas, não estamos dispostos a pagar para ver. Está me acompanhando?”

“Sim”.

Escutava toda a proposta, sentado com as mãos entrecruzadas, tentando controlar a tensão. E ele um senhor que aparentava mais de sessenta anos, vestido num terno elegante, continuava em pé, revezando olhares para mim e para o céu lá fora. Depois do preâmbulo ele seguiu com mais detalhes no meu papel, caso aceitasse. Faria carreira na empresa, me tornaria um importante executivo, me fariam conhecido no mercado, em um dado momento pediria demissão e me ofereceria à concorrência, escolheria a organização que estivesse em crescimento, interrompê-lo-ia causando a bancarrota.

Explicar o que me levou aceitar a proposta não consigo. Um estado de estupor causado por um mundo desconhecido, inimaginável até. Claro que a contrapartida financeira era ótima. Naquele dia conheci o senhor D. Foi ele quem trouxe o contrato de confidencialidade, e explicou ainda mais o plano, como se tratava de um processo de anos, muita coisa devia ser trabalhada.

Além dos “sim” que falei, consegui perguntar o motivo da minha seleção. Os dois me explicaram uma parte do levantamento que fizeram. Buscaram os mais recônditos de minha vida, a avaliação se completava na observação da conduta durante o trabalho, segundo D, eu tinha uma maneira peculiar de resolver as questões no trabalho e minha vida pessoal quase não existia. Talvez isso tenha pesado no fim das contas: eu era um solitário.

Crédito imagem: James Joyner

Texto: Tarcísio Oliveira

Sorvete

Sorvete

Sem desfaçatez ela me disse que estava sem calcinha. Usava um vestido azul do tipo crochê, o que aguçara ainda mais o desejo intenso de ver. Falou-me enquanto almoçávamos no mesmo restaurante que nos conhecemos meses antes. Ela notou meu rubor e por isso resolveu falar outros pormenores. Já era comum aquela tática. Ela gostava da espécie de adrenalina que a situação promovia, e talvez a constante surpresa, de minha parte, aquecia ainda mais a ousadia dela.

Quando José e Celso chegaram ela economizou nas provocações. Eles eram os únicos que sabiam de nosso relacionamento. Ruth era casada. É pejorativo chama-los de aliciadores, ou qualquer sinônimo, apenas não se prendiam mais a certas estruturas sociais. O fato de eles serem o primeiro casal de homens na cidade a formalizarem sua união, confirmava o rompimento com essas instituições.

Era comum em nossas reuniões a variedade de temas nas conversas. Mas, quando estacionávamos no futebol, José não aceitava mudar de assunto até nos convencer que seu time era o maior de todos, e era capaz de remontar todo o passado glorioso do time. Escutávamos pacientemente, mas seu próprio companheiro interrompia-o lembrando do resultado do dia anterior: goleada sofrida no confronto com o arquirrival. Para desconversar ele pedia nova rodada de vodca.

Já tínhamos nos despedido de nossos amigos, aguardávamos um taxi quando o celular dela tocou: sua filha adolescente. A conversa um tanto áspera atrapalhou nosso planos para um final de tarde tórrido nos lençóis de um motel. Ruth pediu mil desculpas, mas teria que voltar para casa. Dividimos o mesmo táxi durante metade do percurso. Um tanto constrangedor ser monitorado pelos olhares maliciosos do chofer, enquanto trocávamos carícias quentes no banco de trás.

Nem me dei conta do estado em que desci do carro. Garotas sentadas numa calçada cochichavam e riam olhando para mim. O efeito do álcool ajudava na falta de vergonha. Continuei andando até me recompor. Parei numa sorveteria, aliás, Gelataria, novo nome para deixar o lugar com ares de sofisticado, uma tremenda bobagem no final, é tudo açúcar. Fiquei na área externa do lugar, gostava de olhar a rua. Comi rapidamente. Voltei e repeti o pedido. A atendente sorriu simpaticamente. Meu celular toca: Ruth.

– Onde você está Marcos?

– Tomando sorvete?

– Humm… Sorvete?… Pensei em bobagem agora. – risos do outro lado da linha.

– Nem quero imaginar…

– Desculpa… Não queria te dispensar… Blá, Blá, Blá

Não prestei mais atenção no que ela dizia. Só me concentrava no pote de sorvete, vendo-o descongelar, e não podia comê-lo. Ruth não parava de falar. Até que interrompi dizendo que ela não precisava ficar se justificando. Expliquei que os filhos eram mais importantes, e para tentar não prorrogar a conversa, disse que a bateria do meu celular estava no fim, segundos depois desliguei. Naquele momento pouco importava o que ela acharia, o pequeno prazer de lamber os dedos e a casca de biscoito do sorvete era mais importante.

***

Acordei com o barulho do interfone. Ruth.

– Já é tarde Ruth… Estou com uma dor de cabeça…

– O que está acontecendo com você? Consegui vir para passar a noite aqui, e você quer me dá um passa fora!

– Não é nada disso Ruth… Estou com dor de cabeça, acho que é ressaca… Sei lá… Não vi suas mensagens avisando que viria… Desculpa…

– Ai meu deus como sua ingênua… Claro que um cara solteiro como você arrumaria outra logo…

Ela ainda insistiu na conversa. Só parou quando a suspendi nos braços, seguindo para o quarto e jogando-a na cama. Continuava com o vestido azul. Sem nenhuma paciência fiz força até conseguir rasga-lo. Ela retribuiu com tapas e palavrões contestadores. Não dei ouvidos. Ela falava demais, e eu gostava mais da ação.

Imagem: Marcus Spiske

Texto: Tarcísio Oliveira