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Sorvete

Sorvete

Sem desfaçatez ela me disse que estava sem calcinha. Usava um vestido azul do tipo crochê, o que aguçara ainda mais o desejo intenso de ver. Falou-me enquanto almoçávamos no mesmo restaurante que nos conhecemos meses antes. Ela notou meu rubor e por isso resolveu falar outros pormenores. Já era comum aquela tática. Ela gostava da espécie de adrenalina que a situação promovia, e talvez a constante surpresa, de minha parte, aquecia ainda mais a ousadia dela.

Quando José e Celso chegaram ela economizou nas provocações. Eles eram os únicos que sabiam de nosso relacionamento. Ruth era casada. É pejorativo chama-los de aliciadores, ou qualquer sinônimo, apenas não se prendiam mais a certas estruturas sociais. O fato de eles serem o primeiro casal de homens na cidade a formalizarem sua união, confirmava o rompimento com essas instituições.

Era comum em nossas reuniões a variedade de temas nas conversas. Mas, quando estacionávamos no futebol, José não aceitava mudar de assunto até nos convencer que seu time era o maior de todos, e era capaz de remontar todo o passado glorioso do time. Escutávamos pacientemente, mas seu próprio companheiro interrompia-o lembrando do resultado do dia anterior: goleada sofrida no confronto com o arquirrival. Para desconversar ele pedia nova rodada de vodca.

Já tínhamos nos despedido de nossos amigos, aguardávamos um taxi quando o celular dela tocou: sua filha adolescente. A conversa um tanto áspera atrapalhou nosso planos para um final de tarde tórrido nos lençóis de um motel. Ruth pediu mil desculpas, mas teria que voltar para casa. Dividimos o mesmo táxi durante metade do percurso. Um tanto constrangedor ser monitorado pelos olhares maliciosos do chofer, enquanto trocávamos carícias quentes no banco de trás.

Nem me dei conta do estado em que desci do carro. Garotas sentadas numa calçada cochichavam e riam olhando para mim. O efeito do álcool ajudava na falta de vergonha. Continuei andando até me recompor. Parei numa sorveteria, aliás, Gelataria, novo nome para deixar o lugar com ares de sofisticado, uma tremenda bobagem no final, é tudo açúcar. Fiquei na área externa do lugar, gostava de olhar a rua. Comi rapidamente. Voltei e repeti o pedido. A atendente sorriu simpaticamente. Meu celular toca: Ruth.

– Onde você está Marcos?

– Tomando sorvete?

– Humm… Sorvete?… Pensei em bobagem agora. – risos do outro lado da linha.

– Nem quero imaginar…

– Desculpa… Não queria te dispensar… Blá, Blá, Blá

Não prestei mais atenção no que ela dizia. Só me concentrava no pote de sorvete, vendo-o descongelar, e não podia comê-lo. Ruth não parava de falar. Até que interrompi dizendo que ela não precisava ficar se justificando. Expliquei que os filhos eram mais importantes, e para tentar não prorrogar a conversa, disse que a bateria do meu celular estava no fim, segundos depois desliguei. Naquele momento pouco importava o que ela acharia, o pequeno prazer de lamber os dedos e a casca de biscoito do sorvete era mais importante.

***

Acordei com o barulho do interfone. Ruth.

– Já é tarde Ruth… Estou com uma dor de cabeça…

– O que está acontecendo com você? Consegui vir para passar a noite aqui, e você quer me dá um passa fora!

– Não é nada disso Ruth… Estou com dor de cabeça, acho que é ressaca… Sei lá… Não vi suas mensagens avisando que viria… Desculpa…

– Ai meu deus como sua ingênua… Claro que um cara solteiro como você arrumaria outra logo…

Ela ainda insistiu na conversa. Só parou quando a suspendi nos braços, seguindo para o quarto e jogando-a na cama. Continuava com o vestido azul. Sem nenhuma paciência fiz força até conseguir rasga-lo. Ela retribuiu com tapas e palavrões contestadores. Não dei ouvidos. Ela falava demais, e eu gostava mais da ação.

Imagem: Marcus Spiske

Texto: Tarcísio Oliveira

De novo?

De novo?

Guardava a chave reserva da porta do meu apartamento num jarro de planta que ganhei da minha mãe. Ficava enterrada bem perto da borda do jarro, e só minha mãe, Laís e eu sabíamos desse esconderijo. E foi assim que Laís soube como entrar na minha casa. A surpresa maior foi que ela apareceu depois de um ano de ausência, nenhum contato e tão pouco algum esclarecimento do por que tinha ido embora.

– Oi!

– Desculpa a invasão, mas tentei ligar no teu número e atendeu outra pessoa… Imaginei que você trocara de chip…

– Não tem problema… Mas, e ai… Por onde andou?

Tentei ser o mais frio e racional possível, pois sempre foi isso que ela quis para nosso relacionamento. Não era uma coisa tipo carta branca, já que Laís sempre foi extremamente ciumenta e possessiva. Porém, ela achava que não devíamos nutrir tanto futuro num casamento, por exemplo. E nesta confusão de ideais ficamos por dois anos até ela decidir sumir.

– Não quero brigar… Não precisa se justificar…

– Mas, preciso esclarecer algumas coisas… Eu não deixei de te amar…

– Porra! Foi pior que uma atriz de filme B… – e soltei uma longa risada.

Realmente os papéis no século XXI começavam a se inverte, ou no mínimo ficaram mais complexos. Não fazia o tipo sentimental, mas aquela atuação dela me deixou puto.

Mesmo contra minha vontade, ela foi contando os lugares que andou, o que fez. E quando dei por mim, convidei-a para jantar. Escutava tudo aquilo passivamente, rindo das coisas engraçadas, me mostrando atento para os detalhes interessantes, porém, em alguns momentos queria esgana-la.

– Você me acha um idiota não é? – perguntei.

– Não…

– Como não?! Passa um ano desaparecida…

– Não desaparecida!

– Claro que sim… Seus parentes nem se preocupavam em informar seu paradeiro para mim… Sabe do que mais: foda-se – levantei e abordei o garçom exigindo a conta.

Eu era um idiota sim. Esperei por ela fora do restaurante. Ao se aproximar ficou de ponta de pé e me beijou a testa.

– Tu és foda! – agarrei-a pela cintura e nos beijamos.

Que poder sobre mim ela tinha… O restaurante ficava uns três quilômetros do prédio que morava, assim como na ida, a volta fizemos andando. A noite não estava tão fria, mas ela aproveitou e abraçou meu braço. Ficamos em silêncio.

Já na frente de casa ela me chamou para ficarmos um pouco na praça que tinha do outro lado da rua. Sentados na gangorra, revisitamos nossa memória.

– Com quantas mulheres você saiu nesse tempo?

– Duas… Três talvez…

– Bonitas?

– Sim… Bonitas… Por quê? … Faz diferença? …

– Curiosidade apenas…

– E me fala do tal Reginaldo, seu amigo de infância que reencontrou nessas andanças…

– Não é Reginaldo! É Nelson – e foi a vez dela disparar uma longa risada.

– Reginaldo ou Nelson não importa: os dois cantaram o “amor boêmio” – e ela não parava de rir.

Subimos. Fumamos um baseado que ela carregava na bolsa. Bebemos umas doses de whiskey. Essa combinação, talvez, tenha servido de combustível para nossa tara. Imagino que por artimanha, ela usava uma fragrância de perfume que me agradava; beijei seus lábios, seu pescoço, seu colo. Minhas mãos procuraram seus seios, acariciei, lambi, mordi. Ela retribuiu quase como uma cópia minhas caricias. Rodamos pela cama. Puxei seus cabelos. Falamos obscenidades. Nossas línguas sempre se encontrando em beijos longos. Virei-a de bruços. Lambi suas costas, desci até seus glúteos, não me fiz de rogado nessa região do corpo dela. Suspendi seu quadril e a penetrei. Levantei-a buscando sua nuca. Nossos corpos na vertical, aproveitei e repeti palavras impuras em seu ouvido, o que ela respondia em voz alta. Não seguimos uma ordem natural para nossa fome, nem premeditamos um tempo para tudo acontecer. De repente sugávamos nossos sexos, numa posição quase tântrica. Num outro momento ela gemia de dor e luxúria quando a possuía por trás. E foi assim nossa madrugada.

A primeira coisa que pensei quando acordei e não a vi na cama foi “de novo… puta que pariu?”. “Tristeza não tem fim mesmo… Só a porra da felicidade”, falei em voz alta. Porque por mais insano que isso possa soar, estava feliz. Coloquei o travesseiro no rosto para abafar o som do grito que dei, finalizado por um “Laís sua puta!”. E por mais clichê que possa parecer, minha histeria foi interrompida por um “oi… algum problema… surtou de vez?”, ela falou vestida apenas com uma das minhas camisas mais longas, escorada no portal de entrada do quarto.

Imagem: Michael Prewett

Texto: Tarcísio Oliveira

Estrelas brilhantes

Estrelas brilhantes

Já não era mais criança quando a TV mostrou a série “Arquivo X”, mas, aquela produção me remontou cenas traumáticas de minha infância, especificamente a primeira vez que me dei conta da existência de objetos voadores não identificados. Lembro bem do dia, aliás, da noite. Sentado na calçada com vizinhos olhei para o céu tentando adivinhar chuva, um ponto luminoso me prendeu a atenção, o que inicialmente pensei ser uma estrela, se destacava entre as outras estrelas, e de repente fez um movimento num sentido lateral… Não consigo especificar, porém não podia ser uma estrela cadente, como meus amigos queriam me convencer, ela não “caiu”, se deslocou de lado… Até hoje fico eufórico com a recordação.

Insistir tanto no assunto que meus pais me levaram ao psicólogo. E depois de algumas consultas, o médico partiu para tratamento alopático. Aqueles remédios não me faziam bem. Papai e mamãe só se convenceram após uma inflamação no fígado, e o novo médico apontou a causa: os remédios. Tive sorte e tempo para me recuperar. Até o dia do meu contato imediato de quinto grau com um óvni. Sim: fui abduzido.

É difícil narrar o acontecido. Mas, tenho certeza: não foi uma alucinação. Em meu relógio marcava vinte e três horas e doze minutos quando o clarão apareceu na minha janela. Corri ao quintal. Um objeto de luz de forma circular criava um vento ciclônico que arremessava os objetos para longe. Ninguém aparecia. Não conseguia gritar por ajuda. Apaguei.

Acordei na cama. Olhei de novo para o relógio: vinte e três horas e dezoito minutos. Seis minutos passaram. Não conseguia lembrar-me de nenhum segundo se quer e como chegara à cama. Porém, de uma coisa estava certo: não contaria a mais ninguém, o temor de voltar a ficar refém daquelas drogas me perturbava mais.

Tenho sonhos confusos sempre. Vejo seres extraterrenos me analisando com equipamentos que nunca via aqui na Terra, cortam o meu corpo, o que me trás dores lancinantes por todas as áreas do corpo que eles investigam. Acordo suado, tremendo… E sempre me pergunto por que fui escolhido.

Quando fui morar sozinho fiquei mais a vontade de me juntar a um grupo de ufólogos. Fiquei um tanto decepcionado, pois pensei que encontraria apoio para me abrir, contar e procurar entender os episódios presenciados por mim, porém, a maioria deles era cética. Queriam uma experiência coletiva, na qual todos tivessem a oportunidade de assistir a chegada de seres extraterrenos, por exemplo. Continuei minha aflição solitária.

Li muitos relatos. Com o surgimento da internet a coisa melhorou. Conheci pessoas que narravam relatos parecidos com o meu. O ponto em comum era o mesmo: quando ocorreria a próxima abdução. Todos os “escolhidos” ficavam na expectativa da nova viagem. Durante anos compartilhei do mesmo desejo.

Ao me casar deixei um pouco de lado isso. Lígia me deu novo foco para vida. O que se completou com sua gravidez. Fazíamos inúmeros planos para nosso pequeno bebê que nasceria. Ao saber que era um menino, corremos para decorar o quarto. A emoção do parto foi fantástica. Coloca-lo no braço pela primeira vez foi tão reconfortante. Encontra a felicidade.

Todas as noites durante seu primeiro ano de vida ninava Júnior na cadeira de balanço que minha mãe nos presenteara. Cuidadosamente cobria-o no seu berço e seguia para cama. Mas, naquele dia após concluir aquele rito e deitar na cama, vi aquela luz pela janela. A mesma luz que vi na juventude. Tentei de todas as formas acordar Lígia, porém, ela não se movia. Corri para o quintal. De certa forma sempre me mantive pronto para ser levado novamente. Vinte três e doze. A luz ficou tão forte que causa me cegou. O vento ciclônico me empurrou para longe. A luz se apagou. Não desacordei. Vinte três e treze. Desta vez me lembrei de todos os segundos. Fiquei de joelhos no chão sem entender, “será que não tinha sido abduzido?”. Despertei do transe com gritos de Ligia me chamando pela casa. Perguntava onde estava nosso bebê, explicava a ela que tinha colocado no berço. Foi então que compreendi o que havia ocorrido: eles levaram meu filho.

O que se segue em meu relato são apenas flashs. Várias idas a polícia. Entrevistas a imprensa. Manifestações de amigos e parentes. Decidi contar minha versão do fato. Lígia surtou e quis me bater, meus pais intervieram. Contaram a ela sobre minha “fixação”. A partir daí não vivíamos mais como casal. Dormíamos em quartos separados. Um dia nos separamos. Não sofri com isto. A frustração que sentia era a de não ser o escolhido. Após meu divórcio papai e mamãe me encaminharam a uma “casa de repouso” lugar que continuo até hoje, dez anos depois. Os sonhos se tornaram quase confortos. As noites nunca mais me mostraram estrelas com movimentos estranhos, vejo apenas estrelas brilhantes.

Imagem e texto: Tarcísio Oliveira

A tal reforma

A tal reforma

O que é previdência social? Não saberia responder. Em tempos de internet, nem o próprio site desta instituição no Brasil, tem a preocupação de explicar aos seus associados o significado de sua existência. De forma geral muitos acreditam que a previdência social é sinônimo de aposentadoria, mas, é certo que sua atuação se amplia a outra categorias.

Tratar sobre esse assunto é conveniente, vive-se um momento de grandes dúvidas e inquietações no país devido a uma possível “reforma previdenciária”. Talvez o mais polêmico no processo seja a maneira como o governo federal conduz a tal reconstrução. Não podemos afirmar que é arbitrária, pois os legisladores que votarão a emenda foram eleitos pela população, e neles depositamos a confiança de que apoiariam os melhores projetos para a sociedade. Claro que esta afirmativa parte da ideia que o voto dado para essas foi de forma consciente e estudada, e caso não tenha sido assim, é tarde demais. Sobre a legitimidade ou não do poder executivo atual, também, não existe tempo para confrontar, já que não existiu resistência suficiente para retira-lo da administração.

O argumento maior daqueles que propõe a mudança é a questão demográfica e a influência nas contas públicas. Certamente a transformação em nossa pirâmide demográfica tem e terá um peso nas estratégias políticas, e consequentemente, nas decisões da gestão econômica do país. Mas, a proposta é muito drástica, tomada por um imediatismo assustador para uma análise de tempo histórico.

Porém, o que mais assusta é a posição da população brasileira. Toda comoção de manifestações é basicamente de servidores públicos, que algumas categorias não tem vínculos diretos com os planos de previdências do INSS, por exemplo. São associados a outras empresas que agenciam suas aposentadorias junto ao governo, a fora que tem planos especiais para antecipar seus dias de descanso. Os trabalhadores da iniciativa privada que serão os mais afetados, si quer pensam em mobilização, ao contrário, condenam ou apenas se limitam em olhar tudo pela internet. Não se dão conta que a possibilidade de manter-se num emprego privado por mais de vinte anos é privilégio de poucas pessoas no planeta.

O fato é que certamente a reforma será votada e aprovada. As vozes reclamantes não serão suficientes.

Temos um território. Temos uma federação. Temos unidades federativas. Mas, nação e povo ainda continuam num processo embrionário de formação. Nossos interesses divergem.

Imagem e texto: Tarcísio Oliveira

O abadágio mercantil

O abadágio mercantil

– É obrigatório pagar o valor do abadágio para permanecer no nosso grupo comercial.

– Mas, o que cargas d’água é um abadágio? Além do mais, nunca ouvi falar neste tributo.

– Não gostamos de enveredar para o lado pejorativo. Não entendemos como tributo. Trata-se de uma colaboração para os monges que ficam no mosteiro da colina.

– Então não precisaria ser obrigatório, já que se trata de uma colaboração.

– Gostamos de pensar que é uma situação sine qua non.

– Tudo bem… Sou um forasteiro na cidade e estou disposto a me relacionar da melhor maneira possível com todos… Existe um valor específico, ou a “colaboração” é livre?

– Como o senhor mesmo frisou, a falta de raízes em nossa comunidade incide em uma quantia maior de sua parte.

– Maior quanto?

– Os nossos “associados” contribuem com 5% de suas rendas brutas… Os novatos se comprometem com 7% durante o primeiro ano. Passado este período probatório, se iguala aos demais.

– Então quer dizer que se faturar um milhão terei que doar setenta mil?

– Sim.

– Nunca! Valor enorme para uma ação samaritana.

– É uma norma essencial, limitadora, indisp…

– Que se foda! Não pago! Já me bastarão os impostos que pagarei ao estado, além do mais nem de monge eu gosto… E terei de ser obrigado a ajuda-los?

– Sinto que desta forma não poderemos facilitar sua entrada e consequente permanência em nosso mercado.

– Vou à delegacia de polícia agora! Isso é extorsão!

– O delegado é um dos mais eloquentes a causa.

– Cidade pequena é foda… Não fico mais um minuto.

– Se prefere assim… Passar bem.

Imagem e texto: Tarcísio Oliveira