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A essência do escândalo

A essência do escândalo

Velório

Nomeio de escândalo o desespero de algumas pessoas a beira de um caixão. Todos sabem que a morte é iminente e chorar compulsivamente não trará vida ao falecido (a). Por isso velórios são eventos sociais que deixei de frequentar. Argumento pronto para recusa nunca me faltara, quando não me ocorria nada, me apegava às emoções aflitas (outra variação de escândalo) e não teria condições de prestar condolências pessoalmente.

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Homenagem

Outra forma de escândalo a meu ver são as homenagens. Especificamente nas oratórias. Os oradores abusam de adjetivos aduladores quando pintam os homenageados, e terminam dando um caráter jocoso a solenidade. Nem me refiro às láureas póstumas, porque essas são terríveis, pois o homenageado nem estará presente para reclamar de algo que não goste.

Outro dia fui convidado para palestrar numa cerimônia de premiação de uma estimada amiga. Confesso que preparei um discurso longo. Quando subi ao palco para começar a falar, rasguei o meu roteiro inicial, economizei nas palavras, o que seriam quarenta minutos, se transformaram em dois. Preferia perder a estima a ser um escandaloso.

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Discussão

A forma menos escandalosa de se discutir é a luta corporal, pelos seguintes pontos:

  1. Mais prática;
  2. Os contrários não perdem tempo com palavras absurdas que muitas vezes remetem as suas famílias;
  3. Quase silenciosa: os únicos sons ouvidos são os das pancadas deferidas e os murmúrios de dor;
  4. A possibilidade de se ter vencedor é bem maior.

Bate-boca tem duração quase eterna, escândalo demais.

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A essência do escândalo

Escândalo é algo que vai de encontro ao que é normalmente respeitável. É mutável ao espaço e tempo, cada sociedade escolhe suas instituições que devem ser escandalizadas.

Cura para escândalo não existe. Deve-se entrar num estado de estupor e esquecer os bons costumes às vezes… Não leva a um caminho de salvação, mas, ajuda a não se espantar com ações extravagantes.

Texto: Tarcísio Oliveira

Janela com vista para vida

Janela com vista para vida

Aquele porteiro não ia com minha cara, fato. Seis meses indo ali, pelo menos três vezes na semana, e ele ainda me fazia esperar numa espécie de cubo; só entrava no prédio, após confirmação de Edna via interfone. O pior era escutar “normas de segurança amigo”, ficava puto. A raiva só diminuía quando Edna me recebia. Hoje ela abriu a porta com um robe transparente, e quando tentei reclamar do porteiro, ela me interrompeu com beijos sôfregos.

“Tá meu amor… Esquece isso… Relaxa…” – falou enquanto abria os botões de minha camisa.

Edna era bem mais nova, não entendia porque gostava de mim. Mas, evitava ficar paranoico com isso, vivia o momento. Devagar afastei sua cabeça do meu ombro, ela dormia profundamente, nossa “maratona” surtira efeito. Acendi um cigarro e fui para janela. Seu prédio fica num desses bairros cheios de concreto, pouco verde e muito carro. O ponto positivo é a vista: está no décimo nono andar, de lá os olhos alcançavam boa parte da cidade. Onze horas da noite, quase ninguém se arriscava na rua, a violência mudou muito a rotina. Lembro-me que ali já fora bairro de muita agitação noturna. Hoje os points eram loja de conveniência ou delicatéssen. Meus pensamentos se interromperam com o despertar de Edna.

“Amor, volta para cama… Quero mais”. – apelou.

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Gostava de dar aulas. Está próximo da intelectualidade me satisfazia, apesar de cada vez isto era mais incomum. Muitos amigos se apegaram ao conformismo proporcionado pela agilidade de informação propiciada pela internet, e não ligavam mais de explorar ciência com alunos. A faculdade que leciono é referência nacional em muitos cursos, mas, não quer dizer que ainda consigamos forjar excelentes profissionais. Pelo contrário, o empenho maior era manter o status quo, para isso contávamos com grande apoio parlamentar, que direcionava muitos “esforços” que se transformavam em simpósios, congressos, seminários, bolsas de pesquisas, etc.. Não me agradava essa passividade. Lutei e luto veementemente nas reuniões dos docentes, mas, minha fama de professor estrela (antes da academia fiz novelas, mas, fica para outro momento explicar) não me deixava em posição favorável entre meus colegas. Por isso o caminho mais aceitável era reverter toda minha ação para sala de aula.

Edna fora minha aluna. Atualmente ela fazia mestrado em comunicação que ficava em outro prédio, o que ajudou a minimizar minha outra fama que é a de professor garanhão. O que era uma tremenda injustiça, pois a única aluna que tive e tenho relacionamento é minha linda Edna. Antes tive pequenos flertes com amigas de profissão, e talvez venha daí a tal infâmia.

No fim do expediente me encontrava com Edna num restaurante nos arredores do campus para jantarmos. Era o momento que tínhamos para nossas conversas profissionais. Geralmente ela trazia um tema para discutimos durante o jantar. Hoje ela não trouxe tema. Aparentemente chorara e para essas situações eu era um merda.

“Não me enrola… Conta logo o que está acontecendo.” – falei.

“Não… Não sei se vai gosta…”.

“Agora teremos um problema: tu agora és vidente?”

“Que grosso! Não conto mais nada”.

“Desculpe meu amor… Apenas não gosto do suspense.”

“Estou grávida…”

“Puta que pariu”.

Claro que tive de contorna todo o transtorno que causei no restaurante. Ela se desesperou, chorou demais. No fim nos acertamos.

***

“O senhor tem algum problema comigo?”.

“Não… Não senhor”.

“E porque caralho o senhor tem de me anunciar a minha futura esposa e mãe do meu filho?”.

“Normas de segurança.”.

Ela ainda não tinha nenhuma barriga, e por isso ainda continuava tão sensual naquele robe transparente. Assustava era seu apetite sexual: aumentara. Tentei novamente reclamar do porteiro, mas ela nem deu bola, me jogou no sofá e extravasou sua volúpia.

Não falávamos em casamento formal, porém, ela fazia questão de continuar morando ali. Concluirmos ser a melhor opção. Gostava da ideia de compartilhar com ela e nosso bebê aquela janela, claro que infelizmente teríamos que colocar aquelas teias de proteção. O cigarro será mais fácil abandonar, por enquanto, abuso das tragadas, pensando no próximo apelido que colocarão em mim.

Crédito imagem: Takemaru Hirai

Texto: Tarcísio Oliveira

O Índio, o Pó e as Cinzas

O Índio, o Pó e as Cinzas

Com dezesseis anos ajudei um tio numa construção. Rendeu um bom dinheiro. Tive a ideia de comprar uma dessas bicicletas com dois bagageiros, para pequenas cargas. Não era nova, gastei o restante da grana tentando conserta-la.

Chovia quando Dona Cláudia me pediu para carregar um engradado de cerveja. Tive de usar toda minha habilidade para equilibrar a carga, não tinha nenhum tipo de amarra, daí foi uma mão no guidom e a outra na aba do engradado.

Completara dois meses das minhas atividades como pequeno transportador, quando Índio veio me procurar. Índio era o apelido de José Apoã da Silva o dono da boca de fumo do bairro. A proposta era simples, sem muito perigo: levar um pequeno papelote para um cliente dele; junto entregaria um garrafão de água mineral. Índio usava o comércio de água mineral como fachada para seu negócio ilícito, mas, rentável. Três vezes na semana prestava o tal serviço.

Usar jovens para distribuir drogas não era nada novo, mas, jovens de classe média alta era o passo mais interessante do meu negócio. Índio era muito limitado, discutíamos muito o avanço de nossas fronteiras. Uma hora se tornou inviável mantê-lo como sócio. Tive que despacha-lo. Sozinho explorei melhor minhas ideias.

Diferente de Escobar não queria governar, preferi ter meus próprios parlamentares. Fantoches adorados por uma parte significativa do eleitorado. Sem dúvida meu melhor investimento. Afastei-me quase por completo do tráfico. Era uma espécie de sócio acionista do pequeno cartel criado por mim. Participava agora indicando a melhor forma de lavar o dinheiro, em troca de dez por cento fixos do lucro, que pagavam mensalmente.

Nenhum tipo de sentimento me veio quando fui homenageado por aquela instituição de caridade. Ganhei o prêmio de empresário do ano. O mais irônico é que nunca havia doado nada para eles. Talvez a honraria se desse pela quantidade de doentes que foram parar ali por causa das drogas que vendi. Contudo, aquela farsa me lembrou de Índio. Naquele mesmo dia resolvi ir ao antigo bairro, para vê como andava a família dele. Meu motorista estranhou o endereço quando mencionei. Poucas mudanças. Continuava um lugar feio. A mulher de Índio seguia com o comércio. Poucos minutos ali, lembranças me consumiram, senti até que podia chorar, mas, tudo passou quando vi um garoto conversando com a viúva. Conhecia aquele modus operandi, ela aliciava o pivete… O menino distribuía drogas para ela.

Os telejornais promoviam uma comoção tremenda, noticiavam com fervor o possível incêndio criminoso naquela comunidade carente. Almoçava com empreiteiros parceiros, que há anos mostravam interesse naquele espaço, e enquanto o apresentador esbraveja críticas severas ao poder público, percebia a felicidade no semblante dos filhos da puta. Para coroar a cena um deles pediu um brinde “das cinzas nasce um ótimo negócio”. O que me restava? Brindei… Mas, brindei ao meu sucesso.

Texto: Tarcísio Oliveira

O moderador

O moderador

Todos já estão acomodados num grande círculo, quando o moderador entra na sala. Sua ótima memória para fisionomia e nomes ajudava na verificação do grupo. Quando via que todos estavam presentes sentia um alívio. As faltas eram previamente avisadas, e sempre por um motivo justo. Era seu décimo ano dirigindo seções do A.A., mas, o hábito não lhe tirava o frio na barriga todas as vezes que falava ao público. Mesmo com rostos já tão conhecido para ele. A espécie de fobia foi a grande causa para sua entrega ao vício do álcool. Hoje era sua aliada, não precisava fugir dela, só precisava do velho e bom “boa noite” para que tudo desse certo.

– Boa noite!

– Boa noite! – resposta do grupo.

– Apesar da noite chuvosa, e nossa cidade sempre um caos nesses dias, fico feliz que todos conseguiram vir. Mais feliz ainda em perceber que temos novos amigos para dividir conosco experiências de vida.

Pausa. Ele está em pé de frente a uma carteira. Tenta fazer a leitura dos dois novatos. Sabia que não podia força-los a falar, afinal ali era um lugar de espontaneidade. Mas, ele também entendia que o alcoólatra precisaria botar suas emoções para fora, se sentir seguro entre aqueles desconhecidos, a vergonha é fatal. Voltar para casa sem pelo menos se apresentar, muitas vezes podia levar a uma recaída.

– Vou quebrar um pouco o protocolo hoje. Começarei com uma história minha, claro se concordarem.

Não houve nenhuma negativa. Os dois novatos, uma mulher e um homem, se mostraram menos tensos.

– Então, noites de chuva para mim eram problemáticas. Não pelos trovões e raios, mas sim, pela fome. Logo após o meu divorcio, fui morar sozinho num pequeno apartamento. Quase não tinha móveis, apenas uma geladeira velha e um fogão de duas bocas. Dormia num sofá-cama. A TV deixará de ser um passatempo, mal sabia o que acontecia ao meu redor. Tinha um rádio relógio que ficava sempre ligado… Saía e entrava e ele continuava lá, na mesma frequência. Completavam o cenário: garrafas cheias ou vazias, latas amassadas e pontas de cigarros… Os dias chuvosos que não tinham bebida na casa eram assustadores… Ficar sóbrio naquela situação era horripilante, pois os comércios próximos fechavam, e com a geladeira vazia, o terror de confrontar a verdade aumentava. Saber que nossa vida desandou é dar o braço a torcer a todos aqueles que tentam nos aconselhar. E como todo bom alcoólico dava meu jeito de beber. Não tinha bar aberto… Apelava a farmácia… Comprava desodorante a base de álcool e bebia. Sabor nem importava. A fome passava.

Pausa. Gole d’água. Surpreendentemente a novata pediu a vez. O moderador não titubeou e enquanto fechava a garrafa de água mineral, apontou o indicador para ela abrindo caminho para seu relato.

– Me chamo Nair!

– Boa noite Nair! – o coro.

– Não tenho recordação da primeira vez que bebi, nem tão pouco o dia que me entreguei de vez a ela. Mas, lembro que foi num dia chuvoso que perdi meu filho.

Ela respirou forte para tentar conter as lágrimas e continuar a falar.

– Aconteceu há quinze dias… Não me lembro das últimas palavras dele, mas, sei que discutimos. Ele morava com meu ex-marido, em outra cidade, duas vezes na semana me visitava. Todas as visitas começavam com ele me tirando de algum bar, ou, festa na casa de “amigos”. Ele sempre me criticava daí nunca dava atenção. Horas antes de morrer, mandou mensagem para o pai dizendo que não aguentava mais, estava muito cansado… Tive oportunidade de ler ontem. Pouco depois que me deixou dormindo, a poucos quilômetros da minha casa, perdeu o controle do carro… Chovia muito naquele dia. Foi fatal.

Pausa. Lágrimas escorriam. Ouvintes atentos. Ela continuou já entre soluços.

– Só percebi o meu problema quando fui enterra-lo. Na escolha do calçado… Não sabia qual número ele vestia… Como uma mãe pode não saber detalhes assim do filho, aquele mesmo que fora seu bebê? Quanto tempo se passara?

Mais soluços e lágrimas.

– Vi que há muito deixara de ser mãe… Trocara meu filho pelo álcool.

Nova pausa. Respirou fundo.

– Pela memória dele estou aqui… Meu nome é Nair, estou há vinte horas sem beber.

Ela foi acolhida por aplausos. Os amigos com histórias parecidas assumiram dali. O moderador se sentiu satisfeito, o frio na barriga já não era problema.

Imagem e Texto: Tarcísio Oliveira