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Surpresa!

Surpresa!

Na ponta dos pés

Pé ante pé subir as escadas para não fazer barulho. Rosário não sabia que chegaria de viagem hoje. Quando abrir a porta do quarto ela roncava como um glutão depois de se fartar.

Com a mesma delicadeza nos passos, desci as escadas e resolvi me dá mais uns dias de viagem.

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Surpresa

Ninguém gosta de surpresa. É algo que escapa as mãos, não saber nem controlar o que vem pela frente, assusta.

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Trinta mil!

Espanto. Nada mais claro para exprimir o que senti quando vi aquela cifra na minha conta: trinta mil! Nunca se quer cheguei a ver mil, imagine trinta. Por isso fiquei assombrado. Era um golpe, só podia ser… Alguém queria me prejudicar. Ainda conferi em outros caixas eletrônicos, mas, o valor continuava lá: trinta mil! Decidi que tinha de sacar o dinheiro, mesmo se fosse alguma espécie de estelionato, arriscaria.

Enfrentei uma fila enorme. Quando chegou a minha vez o caixa informou que o saque para tal quantia teria que ser previamente comunicado a gerência; mencionou outras formalidades. “Fodeu! Vou ser preso”, pensei enquanto me dirigia a gerência. O gerente não chamou a policia, ao contrário, me vendeu um titulo de capitalização de cinco mil e agendou o saque do restante para dia seguinte.

Pasmo fiquei contando aquele tanto de dinheiro em cima da minha cama e que ninguém reclamou.

Abalado como os trinta mil foram embora tão fácil.

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Festa surpresa

Festa surpresa depois de ser demitido, namorada deu o fora e o carro quebrar na volta para casa é no mínimo desconfortável. E quando abri a porta de casa e o “surpresa!” surgiu, confesso que se tivesse armado tinha levado uns cinco para outra vida. Para sorte deles carregava apenas minha pasta e meu paletó. Restava-me comer aquele bolo horrível que compraram já pronto numa dessas delicatéssen e rezar para tia Betânia ter acertado no tamanho certo das cuecas esse ano.

Imagem: Kelley Bozarth

Texto: Tarcísio Oliveira

Liberdade condicional

Liberdade condicional

O dia da libertação.

Seria um dolo pensar que alguém teria um privilégio desses: liberdade.

Liberdade incide diretamente em decisão, que nos remete a livre-arbítrio, e essa capacidade por sua vez, faz parte apenas dos argumentos religiosos.

Desconfio até que nos momentos que falamos com nós mesmos, é um evento forçado pelo meio, para quem sabe termos ideias que nos leve a algum tipo de avanço.

A abolição da escravatura, em alguns países, considero apenas uma espécie de agregação de mão-de-obra ao modelo de produção majoritário.

Vivemos no máximo numa liberdade condicional. Temos horários, regras, dias para lazer, etiquetas, moral, vestimentas adequadas, línguas, gramáticas, leis, nomes.

O pensamento é coordenado por parâmetros anteriores, herança coletiva. Respirar é uma capacidade fisiológica previamente estabelecida.

O dia da libertação talvez seja o dia do descanso, o dia de morrer. Não se pode nem afirmar tal premissa, pois é possível que a outra dimensão exista, e nela tenhamos menos possibilidades de agir, outras obrigações.

O dia da libertação.

Imagem: Ashim D’Silva

Texto: Tarcísio Oliveira

O tempo é relativo

O tempo é relativo

Sempre ouvi meus amigos mais cultos falarem “o tempo é relativo”. Para não me mostrar ignorante, concordava. Mas, confesso que nunca soube ao certo o significado real disso, porque são coisas pouco alcançáveis para mim: tempo e relativismo. Hoje me ocorreu um insight sobre o assunto.

Costumeiramente em dias de chuva fico na varanda, deitado na rede, quebrando a cabeça com enigmas das minhas revistas de palavras cruzadas. Dizia um amigo meu que era coisa de velho, discordo totalmente, todos devem exercitar a mente com esse divertido passatempo. Ali bem acomodado, observava a angústia de meu filho adolescente: praticamente a cada minuto falava com a namorada virtualmente pelo celular. Eram mensagens de vídeo, pouco entendia do conteúdo, somente que ela queria a presença dele no evento que aconteceria a noite. Por outro lado, ele tentava argumentar que chovia muito, e não conseguiria comprar o que ela pedia. “Porque o dia não tem vinte oito horas?”, por fim o rapaz apaixonado desabafou.

– Há vinte anos quando comecei a namorar sua mãe, mal podíamos usar o telefone fixo, além de nem todos terem uma linha, custava muito uma ligação. Contentávamos com nossa palavra: se marquei às oito horas, chegarei às oito horas. Em dias de chuva assim, corria feito louco, pulando poças de lama, chegava todo molhado na porta dela… Os poucos minutos que podia ficar, pareciam horas.

– O que isso significa pai?

– Não sei ao certo. Apenas quero dizer que o relógio não mudou, o dia continua tendo vinte quatro horas, a hora sessenta minutos… Antes aguentava um dia inteiro para poder escutar a voz de sua mãe, hoje você consegue vê sua namorada a qualquer hora. O tempo corria mais lentamente.

– Ainda não entendo.

– Você não acha que esse contato incessante lhe sufoca? Fica tão apreensivo que perde a noção real do tempo, e termina não aproveitando nada?

– Ah pai! O tempo é relativo.

– É o tempo é relativo, mas nós somos absolutos, comandamos nossas ações, definimos nossas prioridades.

Gostei do desfecho que dei a conversa. Um tanto filosofal. Meu filho não desgrudou do celular, passou mais algumas horas até estiar. Continuei no balançar da rede quebrando a cabeça no meu passatempo.

Imagem: Ales Krivec

Texto: Adelmo Fleury

Drummond?????

Drummond?????

– Que porra é essa Drummond, tão usando tuas poesias como papel de carta?

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– Reage Drummond! Não fica ai calado! Tão fodendo tua obra! Virou arquivo de power point para dar bom dia, tu vais deixar?

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– No teu Enleio não ensina nada dessa porra, eu li!

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– E agora Drummond: a gente faz o que, vai para onde? Me diz cacete!

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– Fico puto quando falam teu nome em vão. Nem depois de umas doses ouso recitar tuas pedras no caminho.

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É foda Drummond, o mundo de hoje não tá preparado para ti.

Texto: Tarcísio Oliveira

Dedo de seta

Dedo de seta

Um salve a Bezerra da Silva

Garotos preservam um código de honra quase inquebrável, suportam torturas das mais severas antes de se corromperem e entregar o outro; não se engane: somente com tortura física será capaz de promover um delator, é necessário especular grandes tormentos psicológicos para que surja um alcaguete. É claro que falo de meninos dignos, que ainda acreditam na amizade, preservam a qualidade de serem honestos entre eles.

Não quer dizer que o tal código de honra não acompanhe a idade, que não existam homens honrados. O que diremos de Bezerra da Silva, mestre da música popular, interprete de canções que execram o alcaguete. Um defensor total da camaradagem entre os seus, “dedo de seta” não tem vez, porque “cagueta aqui, no céu, ou em qualquer lugar”, ou seja, não devemos confiar num “fio desencapado”.

O que pensaria o ilustre Bezerra dos políticos delatores? Não sei bem, mas certamente mandaria não tirar os olhos da nossa carteira, e depois que os “canalhas” terminassem suas “entregas” deveriam ser grampeados pelos “hômi” e o couro comer num camburão. Sem algum desses “corujões” muita coisa não viria à tona, sem dúvida, porém, é questionável a premiação para o alcaguete. Um “Mané” que entrega de bandeja outro não é para ter perdão, esquecer que ele é do time da “entregação” acarretará no próximo golpe.

Imagem e Texto: Tarcísio Oliveira