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Surpresa!

Surpresa!

Na ponta dos pés

Pé ante pé subir as escadas para não fazer barulho. Rosário não sabia que chegaria de viagem hoje. Quando abrir a porta do quarto ela roncava como um glutão depois de se fartar.

Com a mesma delicadeza nos passos, desci as escadas e resolvi me dá mais uns dias de viagem.

***

Surpresa

Ninguém gosta de surpresa. É algo que escapa as mãos, não saber nem controlar o que vem pela frente, assusta.

***

Trinta mil!

Espanto. Nada mais claro para exprimir o que senti quando vi aquela cifra na minha conta: trinta mil! Nunca se quer cheguei a ver mil, imagine trinta. Por isso fiquei assombrado. Era um golpe, só podia ser… Alguém queria me prejudicar. Ainda conferi em outros caixas eletrônicos, mas, o valor continuava lá: trinta mil! Decidi que tinha de sacar o dinheiro, mesmo se fosse alguma espécie de estelionato, arriscaria.

Enfrentei uma fila enorme. Quando chegou a minha vez o caixa informou que o saque para tal quantia teria que ser previamente comunicado a gerência; mencionou outras formalidades. “Fodeu! Vou ser preso”, pensei enquanto me dirigia a gerência. O gerente não chamou a policia, ao contrário, me vendeu um titulo de capitalização de cinco mil e agendou o saque do restante para dia seguinte.

Pasmo fiquei contando aquele tanto de dinheiro em cima da minha cama e que ninguém reclamou.

Abalado como os trinta mil foram embora tão fácil.

***

Festa surpresa

Festa surpresa depois de ser demitido, namorada deu o fora e o carro quebrar na volta para casa é no mínimo desconfortável. E quando abri a porta de casa e o “surpresa!” surgiu, confesso que se tivesse armado tinha levado uns cinco para outra vida. Para sorte deles carregava apenas minha pasta e meu paletó. Restava-me comer aquele bolo horrível que compraram já pronto numa dessas delicatéssen e rezar para tia Betânia ter acertado no tamanho certo das cuecas esse ano.

Imagem: Kelley Bozarth

Texto: Tarcísio Oliveira

O assassino do lago (final)

O assassino do lago (final)

Milhares de veículos com aquelas iniciais. Demoraria séculos relacionando os proprietários. E aquela pilha de papéis na mesa me tirava do sério. Sai sufocado da delegacia, fui respirar e tomar um café.

O bar de Dionísio já não era esses botecos chinfrins; depois de grandes modificações tornou-se uma espécie de pub, investimento pesado, mas segundo ele, valera cada centavo. Apesar de tanta sofisticação, ele guardava para mim uma garrafa térmica de café. Nos fundos do bar sentava-me numa banqueta e bebericava o líquido preto num copo descartável. Mais lúcido refleti: o desaparecimento da professora e das “moças” pode está relacionado? É possível, não existia um perfil claro do raptor, qualquer trilha podia ajudar. Resolvi não retornar a delegacia, peguei meu carro e fui ao shopping onde ocorreu o sumiço da professora.

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O assassino do lago (I)

O assassino do lago (I)

Simone lia atentamente uma notícia no jornal, um tanto estranho para adolescentes. Geralmente não desgrudavam os olhos dos celulares. Senti orgulho vendo a cena.

“Pai quando será que vocês irão encontrar essa moça desaparecida?”

A pergunta me embrulhou o estômago. Ela se referia à professora que sumira no estacionamento de um dos shoppings da cidade. E minha unidade é responsável pela investigação.

“Estamos fazendo de tudo filha.”

A realidade é que não fazíamos de tudo. A rotina policial é limitada por uma série de eventos burocráticos inimagináveis. Sem contar com a falta de pessoal, somente nesse ano quinze agentes conhecidos meus mudaram para outras instituições, passaram em outros concursos, e a lacuna não se preenchia fácil. No meu caso, acumulo função de detetive e escrivão, passo mais tempo escrevendo boletins de ocorrência que na própria tarefa de investigador.

“O que é fazer tudo pai? Passou um mês e vocês ainda não tem pistas nenhuma?”

“Minha filha, não quero começar um discussão agora pela manhã. Tome seu café.”

“É bem o feitio de vocês policiais.”

Só tínhamos dois fins de semana no mês, mas sempre nos desentediamos. O preço que tinha de pagar por ter sido completamente ausente durante sua infância. Ver a morte me mostrou como agia errado, por isso fui a busca da guarda parcial, não houve resistência da parte de minha ex-esposa, porém, tivemos desgastantes audiências na vara de família para formalizar a situação.

Seguimos em silêncio no carro até a porta da escola. Ela desceu do carro, bateu a porta; antes de chegar ao portão voltou, desci o vidro:

“Te amo…”

“Também te amo…”

Chorei no caminho para delegacia. Aquilo foi lindo demais. No horizonte se abria um novo mundo para mim.

***

Meu turno já estava acabando, mais um dia que não pude sair em diligência. Teríamos uma espécie de auditoria, e fiquei responsável de realizar os backups das máquinas, pois meus colegas viam os computadores como dragões, sentiam-se incapazes de digladiar contra eles.

Uma moça morena cruzou a porta. Carlos que já havia trabalhado na costumes conheceu de pronto. Comentou que ela fazia ponto numa avenida “movimentada” da cidade.

“Quero prestar uma queixa desaparecimento”

Chamei-a ao meu bureau. Começou seu relato. Sua amiga Milena – não sabia me dizer o nome verdadeiro – já fazia três semanas que não aparecia. Fui ríspido, afinal, moças com vida tão itinerante tinham pouca credibilidade.

“É um erro está aqui, não sei onde estava com a cabeça!”

“Calma. Preciso de coisas mais sólidas para começar uma investigação. Sua amiga já é adulta, quem garante que ela não viajou, ou algo do tipo?”

“Se fosse outra professorinha o lance era diferente!”

“Não é isso…”

“Como não? Já é terceira de nós que some assim. Outras amigas vieram reclamar o sumiço das outras duas, e vocês não fizeram nada!”

“Três?”

“Sim. Três! Da mesma forma… Até descrição do carro demos… Desculpe senhor policial, vou dá o fora daqui…”

Alcancei-a na calçada. Pedi desculpas. Tentei leva-la para dentro da delegacia. Ela se negou disse que estava atrasada, um cliente a esperava. Antes de ir insistir sobre o carro. Não sabiam o modelo do carro, anotaram as duas primeiras letras. Seria o suficiente talvez. “Chegou a hora de ser policial outra vez”, pensei.

Continua…

Imagem: Evan Dennis

Texto: Tarcísio Oliveira

Corpos no lago

Corpos no lago

Não conheço ninguém que ainda use rádio relógio como despertador. Dizem que o celular substitui. Mesmo assim, preservo o meu no criado mudo, a cor vermelha do visor ajuda a identificar logo a hora. Três e dois. Madrugada. Coloco os pés no chão frio, recuo como se fora um choque. Tomo coragem e sigo sem os chinelos, não lembro onde ficaram e no escuro seria difícil encontra-los. Gosto de andar no escuro, me lembra de quando era criança e de como era divertido driblar os obstáculos da casa. Alcancei a geladeira, me servi de água. Andei em direção a sala, mas poucos depois do portal divisório, meus pés topam em algo no chão, tateio até encontrar o interruptor, quando a luz se acende, derrubo o copo: o corpo de uma mulher estirada no chão. Desmaio.

Aos pouco meus olhos se abrem. Percebo logo que não é um sonho, meu corpo dolorido acusa. Respiro fundo e vou me erguendo aos poucos. Tenho cuidado com os cacos de vidro, me afasto e uso o sofá de alavanca para me suspender. Consigo me aproximar da mulher. Está nua, de olhos abertos, marcas no pescoço… Morta. Desesperado corro até meu quarto para pegar minha arma. Empunhando minha pistola, verifico todas as entradas da casa, todas intactas. Fico mais confuso cogitando como ela chegara até aqui, minha propriedade estava a mais de trinta quilômetros afastada da cidade, cercada pelo que restava da floresta.

Averiguei mais de cinco vezes pulso e respiração, ela estava morta sem dúvida. Sentado no sofá, olhando o corpo, na mão esquerda a pistola, na direita o telefone para ligar da polícia… Permaneci assim durante dez minutos. Encontrei a bolsa dela, descobri seu nome, idade, endereço.

Ainda estava escuro quando fui ao banheiro. Tomei um analgésico. Lavei o rosto. Aquele olhar no espelho. Quem era esse no espelho? Sorriu de forma perversa… Era eu.

***

Milena cobrava mais caro para atender em casa, e pelo deslocamento, me acrescentou uma taxa extra, pois não conseguiria voltar a tempo para outros clientes. No carro me pediu adiantamento da metade do programa. Não teve medo quando entramos na pequena estrada de piçarra, coberta por árvores, falou que já atendeu outros clientes na região. Fiquei pensando como uma moça tão linda se prostituía, quis perguntar, mas, me contive.

Ela não quis álcool, aceitou água. Não queria conversar, profissional demais, queria ir logo ao serviço. Paguei taxa extra por beijos. Sem resistência de suas roupas, com poucos segundos se despiu e partiu para fazer o mesmo comigo.

Estalo.

Ele me trouxe nova presa. Obediente. Mais linda que as outras duas. Agora é comigo.

Não adianta gritar. Que pescoço maravilhoso. Não adianta resistir.

O ápice é escutar meus dedos esmagando as cartilagens do pescoço. Orgasmo.

***

Joga-las no lago é tarefa minha. Ele me deixa com a parte final. Gosta de me fazer sofrer. Ensaco-as numa lona preta, envoltas com cordas e peso já preparados para isso.

Tento por meio de um banho gelado me limpar de tanta crueldade. Devo me entregar à polícia, até já tentei, mas, na frente da delegacia, ele me fez desistir.

Na internet apenas uma pequena notícia sobre duas prostitutas desaparecidas. A polícia não se manifestava claramente sobre o caso.

Da varanda olhava para o lago. Os intervalos intervalo devem diminuir ele me diz. Os desafios devem aumentar, não quero mais prostitutas. E numa ignóbil servidão sai a caça.

Imagem: Tarcísio Oliveira

Texto: Adelmo Fleury

Liberdade condicional

Liberdade condicional

O dia da libertação.

Seria um dolo pensar que alguém teria um privilégio desses: liberdade.

Liberdade incide diretamente em decisão, que nos remete a livre-arbítrio, e essa capacidade por sua vez, faz parte apenas dos argumentos religiosos.

Desconfio até que nos momentos que falamos com nós mesmos, é um evento forçado pelo meio, para quem sabe termos ideias que nos leve a algum tipo de avanço.

A abolição da escravatura, em alguns países, considero apenas uma espécie de agregação de mão-de-obra ao modelo de produção majoritário.

Vivemos no máximo numa liberdade condicional. Temos horários, regras, dias para lazer, etiquetas, moral, vestimentas adequadas, línguas, gramáticas, leis, nomes.

O pensamento é coordenado por parâmetros anteriores, herança coletiva. Respirar é uma capacidade fisiológica previamente estabelecida.

O dia da libertação talvez seja o dia do descanso, o dia de morrer. Não se pode nem afirmar tal premissa, pois é possível que a outra dimensão exista, e nela tenhamos menos possibilidades de agir, outras obrigações.

O dia da libertação.

Imagem: Ashim D’Silva

Texto: Tarcísio Oliveira