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A cadeira que vence montanhas

A cadeira que vence montanhas

A historiografia conta que um dos primeiros lugares a pensar na mobilidade de pessoas com limitações físicas foi à Casa Branca. Não foi meramente uma atitude altruísta, interesses intrínsecos levaram a reformulação de alguns ambientes internos desta que é, talvez, a maior representação de poder no mundo. A verdade é que foi para atender o presidente Franklin Roosevelt, afetado pela horrenda poliomielite. A doença não diminuía sua altivez, mas o deixava com certa fragilidade física, o que culminava um pousio obrigado numa cadeira de rodas, fato um tanto constrangedor, pois pouco se fala no assunto. E assim sua equipe requalificou o espaço para deixar seu líder com mais “liberdade”.

De lá para cá muitos temas que permeiam a “inclusão”, pelo mundo, tomaram conta de muitas políticas públicas e privadas; não se diz mobilidade, mas sim, acessibilidade, termo mais sútil. Utilizar um vocabulário mais apropriado é um ótimo passo; informar ao grande público as reais necessidades de cadeirantes, por exemplo, é talvez o maior desafio. E por que informar é tão importante? Porque ainda coexistimos com indivíduos tão ineptos que a melhor explicação é acreditar na falta de conhecimento deles. Não se encontra racionalidade numa pessoa que estaciona num local reservado para idosos e deficientes, ou que ignora uma rampa de acesso em calçadas. E o que dizer de algumas instituições e suas roletas de segurança nas entradas?

Generalizar é um erro. As ilustrações acima citadas se encaixam mais na realidade brasileira, que claro, não representa todas as pessoas. Casos isolados dão esperança. Um motorista de ônibus certo dia, mostrou sua boa vontade: o ônibus pelo qual é responsável tem um desses elevadores-escadas que facilitam a subida de cadeirantes no coletivo, nesse dia, o tal equipamento estava quebrado, e o cadeirante esperava a mais de quarenta minutos no terminal, pediu ajuda e prontamente foi atendido, o motorista usou de técnicas acrobáticas e ergueu o rapaz com sua cadeira. Certamente a cena deve se repetir pelo país, mas a ação heroica é ignorada pela maioria.

A falta de acessibilidade não é prerrogativa apenas dos cadeirantes, eles são símbolos de pessoas que escalam montanhas diárias para tocar a vida, com o mínimo de dignidade. Viver dignamente é o que todos almejam no fim das contas. Se a conveniência de ser um líder de estado fosse permitida a cada cidadão, quem sabe saciaria um pouco o tal desejo. Imaginar que num dia alguma coisa foi realizada para melhorar seu bem-estar é um excelente cume.

Imagem: Jens Wiecker

Texto: Tarcísio Oliveira

Salinas lágrimas

Salinas lágrimas

Não sei por que choro.

 

Talvez aconteça uma reação química em meu globo ocular que produzam lágrimas.

 

É possível também que tenha sofrido um trauma em meu tecido muscular, causando uma dor insuportável.

 

Reflito… Quero entender de onde surgem tantas lágrimas…

 

Suspiro…

 

A natureza das lágrimas vem da desilusão, do dessabor, da falta.

 

A desilusão, pois não me é permitido mais sonhar.

 

O dessabor, pois não posso mais sentir seus lábios nos meus.

 

A falta, pois não tenho seus olhos para fitá-los.

 

É… Assim permito que as lágrimas salinas corram meu rosto… Agora as entendo…

 

É a soma de uma atividade fisiológica com o castigo de se amar…

 

O que me corrói é: quando essas lágrimas acabarem o que serei?

 

Imagem: Volkan Olmez

Texto: Tarcísio Oliveira

A enfermeira e o fanho

A enfermeira e o fanho

O plantão na enfermaria pediátrica foi pesado. Duas noites que não dormia direito. Cochilei no volante várias vezes no caminho ao posto de saúde que trabalhava pela manhã. Imprudente, eu sei, mas ser enfermeira no Brasil exige alguns sacrifícios, entre eles, ser vítima fácil do sono. Mas, nada que um banho frio e um café forte não resolvam. Tinha vinte minutos antes de assumir o turno, gastei cinco deles debaixo do chuveiro, em nosso pequeno vestiário no posto de saúde. Infelizmente a água não estava fria: o seletor do chuveiro elétrico estava quebrado no “inverno”. O banho morno ajudou a aumentar o sono, porém, apegada a uma caneca de café, bati o ponto e comecei mais uma jornada.

Talvez pela prévia do feriado, o número de faltas era grande, o que nos deixava ainda mais sobrecarregado. Mas, a costumeira falta de material para trabalho é o que me tira do sério.

Perto de largar eis que me aparece uma figura: Graciliano.

Fonfora, fou frefinzando firar fos fontos fa farringa

– Como?

Ele insistia explicar, mas angustiada buscava ajuda para entender. Ninguém aparecia. Pedi que ele me acompanhasse até a triagem. E como menos barulho poderia decifrar sua linguagem fanhosa. Minha falta de tato para situação quase levou a cura para Graciliano, mas, ele foi mais esperto e me mostrou a cirurgia na barriga que precisava da retirada dos pontos. É claro que tive vontade de rir, mas suprimi a garfe e tratei logo de realizar o tratamento.

No caminho para casa já não sentia mais sono. Um pouco constrangida talvez. Lido com situações pitorescas diariamente, não deviam me surpreender. Mas, ali engarrafada pelo trânsito, me senti realizada, de alma lavada, porque cumpro meu dever da forma mais digna. Rir dessas situações é normal, anormal era esquecê-las. O que me fez lembrar aquele dia com a estrábica… Depois conto sobre a estrábica… Agora o sinal abriu.

Imagem: Alice Nardes

Texto: Tarcísio Oliveira

Saneamento Básico

Saneamento Básico

Quando era criança existia um tema muito vinculado nos meios de comunicação da época: saneamento básico. Também, nas propostas políticas dos candidatos em campanha esse tal saneamento funcionava como carro-chefe. Até hoje nunca entendi bem o significado dessa palavra, mas, na minha cabeça infantil, ficava imaginando o que seria. Claro que tudo remetia a algum tipo de obra, desde grandes canais até fabricação de produtos químicos que ajudariam a limpar o ar. Pelo pouco que aprendi e fui observando com o tempo, não estava tão errado.

Quando vi uma manilha de esgoto pela primeira vez, fiquei encantado. O fascínio não tinha nada a ver com o saneamento básico, e sim, porque aqueles tubos de concreto espalhados numa área desabitada formavam um labirinto, no qual eu e meus amigos de infância fantasiamos inúmeras aventuras. Foram fins de tardes maravilhosos que acabaram semanas depois, quando homens da prefeitura começaram a escavar partes das ruas próximas, e embutiram partes do “nosso labirinto” no chão. Não cheguei a ver como ficou a obra no final, pois me mudei um mês depois para outra cidade, que as ruas de terra batida já tinham dado lugar ao asfalto.

Na adolescência algumas coisas já eram claras para mim: o saneamento básico estava ligado a limpeza urbana, que se tratava de direito da população e obrigação do estado. Como as pessoas não tinham referência do modelo ideal de cidade saneada, se contentavam/contentam com o pouco que o estado oferece. Entendi que o saneamento básico tinha a intenção de deixar o ambiente mais saudável; e após muitas mudanças (entendam obras) nos lugares (cidades brasileiras) que frequentei, não enxergava nenhum ambiente tão habitável assim.

Engraçado que minha curiosidade sobre o assunto se deu na fase do desabrochar de minhas ideias, pensamentos inocentes, tão puros não alcançavam a complexidade do tema. Talvez fosse encantado apenas pela palavra “saneamento”, o conceito dela pouco importava, como até hoje não importa para quase ninguém.

Texto: Tarcísio Oliveira

Sábado é o sétimo dia

Sábado é o sétimo dia

Sábado é o sétimo dia.

Alguns dizem que sete é cabalístico.

Mas, sete é sete.

Cardinal ou ordinário será sempre um número parecido com o 1.

O fato de o Deus ocidental ter descansado no sétimo dia o torna abençoado.

Por isso o sete não é o número da Besta, isto sobrou para o 6.

Vinicius poetizou o sábado, por conseguinte o sete.

Para ele tudo acontecia “porque hoje é sábado.”

Sábado é o sétimo dia.

Dia de sorriso e de sonos.

Dia que acordar às sete horas não é mais tão necessário.

Sete são as vidas dos gatos.

Sete são as cores de Xangô.

Sete é o número do sábado,

E sábado é o sétimo dia.

Texto: Tarcísio Oliveira