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Me deixaste “livre”

Me deixaste “livre”

Te busquei nas profundezas de teu íntimo

Face a face nos encontramos

Quando achavas que já estavas submergindo, te suguei com meus lábios e metamorfoseei o teu ser transmutando a tua energia.

Te trazendo a superfície,

Com meus seios ainda nus,

Me deixaste “livre”.

Texto: Rachel Sette

2114

2114

Meu sorriso me acusava: estava feliz. Não sei bem ao certo. Apenas sorria gratuitamente.  Talvez tenha haver o reencontro com amigos de infância. Relembramos de nossas travessuras. Oramos por aqueles que não estavam presentes por falecimento. Realmente foi acalentador. Fizemos um belo banquete. No fim trocamos e-mails, fones, profiles de nossas redes sociais… E a promessa de nova reunião.

Nesse mesmo dia recebi a notícia que minha filha passara no vestibular e ingressaria numa das melhores universidades do país. Para coroar: acertei os números da loteria. Só coisas boas aconteciam era esse o motivo de tanta felicidade.

Tudo isso foi muito rápido. Agora me via sentado numa cadeira de rodas. Estava velho. Sentia dores. Outras memórias boas me vinham como um flashback. Fiquei histérico. Estava num asilo. Gritei por socorro, me desesperei. Um enfermeiro me explicou o que acontecia. Sofria uma doença degenerativa no cérebro. Há cinco anos meus filhos me internaram aqui, me visitavam uma vez na semana. A última pergunta que conseguir balbucia foi “em que ano estamos?”, “2114” foi a resposta.

Entre lágrimas rezei para Deus. Queria novamente lembrar o passado. E esquecer esse presente-futuro que não me pertencia. Após ingerir uma pílula entregue pelo funcionário do asilo, fiquei mais calmo. Aos poucos fui adormecendo. Quando acordei estava de mãos dadas com meus pais caminhando pelo parque, feliz porque naquele dia aprendera andar de bicicleta. Feliz porque aquele instante ficaria para sempre na memória e ninguém tiraria de mim.

Imagem:  Collin Armstrong via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Versículo da Bíblia

Versículo da Bíblia

Lisos.

Negros.

Diadema.

Como estava linda.

Mesmo com meteoros explodindo.

Seus lábios cantavam.

A música não sabia.

Nossas mãos se tocaram.

Dançamos.

Não lembro a canção,

Talvez fosse a música que ela cantou.

Beijo.

Quente e longo.

Meteoros que caíam

E fodam-se.

O bom era o agora com ela.

Apocalipse.

Não sei.

Talvez fosse algum versículo da Bíblia.

Imagem: Austin Schmid via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Olhos e voz…

Olhos e voz…

Foram os olhos de Sofia que me fizeram entender o amor à primeira vista. Tudo bem que só tinha dezesseis anos, e que muita coisa na minha vida iria acontecer, mas sem dúvida naquele momento queria ela como minha esposa. Não sei classificar o olhar, porém, era tão impactante quanto o “olhar de ressaca” machadiano. Seus olhos eram claros, sufocavam-me quando tentava encara-los.

Para conquista-la tentei de tudo. O que funcionou foi uma serenata. Não sabia tocar muito bem violão, a sorte que minha irmã era hábil com as cordas, e me ajudou nesse plano audacioso. Desafinado, mas, confiante cantei:

A gente passa a entender melhor a vida / Quando encontra o verdadeiro amor / Cada escolha uma renúncia isso é a vida… Então deixa eu te beijar / Até você sentir vontade de tirar a roupa / Deixa acompanhar esse instinto de aventura / De menina solta / Deixa a minha estrela orbitar / E brilhar no céu da sua boca / Deixa eu te mostrar / Que a vida pode ser melhor / Mesmo sendo tão louca / De qualquer jeito o seu sorriso / Vai ser meu raio de sol…

Uma música da banda Charlie Brown Júnior. Nem gostava muito, mas quando se está apaixonado, todas as músicas parecem que foi feita para você e seu par, e naquele momento tinha a tudo a ver com o que queria falar. Claro que essas palavras ultrapassavam o limite da admiração, e já aspirava um contato físico mais complexo.

Sofia inteligentíssima. Estudava para ser advogada. No seu quarto havia uma estante repleta de livros. Passávamos a tarde folheando alguns desses; algumas revistas também. Nunca falei para ela que o melhor das tardes se dava quando nos beijávamos ardentemente, nos desnudávamos e fazíamos amor com toda angustia que dois corpos jovens podem sentir.

O amor não era recíproco. Sofia não me amava. Ela gostava de mim, mas não para casar. Então depois de seis meses, nós acabamos. Sofri. Não apenas sofri, também não tinha mais vontade de viver. Meu peito doía constantemente. Quase não voltava para escola. Sem chão e sem cara voltei ao convívio dos amigos. Sofia já não fazia parte do grupo, foi morar em outro estado, para tentar vestibular numas das grandes universidades do país. Não morri.

E num belo dia de sol.

– Ah meu Deus! Mil perdões… – falei após esbarrar em Regina.

– Não se preocupe… Tudo bem… – sorrindo e apanhando coisas que havia caído de sacolas de supermercado, respondia ela.

Regina um pouco mais alta e mais velha três anos, tinha uma voz linda, que funcionou como canto de sereia. Ela já estava na faculdade, cursava medicina. Com ela aprendi que não precisava sofreguidão para o amor, e sim paciência. Paciência de conhecer. Para ela dediquei a mesma música, dessa vez não em uma serenata, apenas num cartão com buquê de flores, o que surtira o mesmo efeito. Nosso relacionamento foi um pouco mais longo, porém com fim menos traumático para mim.

Faz uma semana que acabei com Regina. Com pouca inspiração para amar alguém no momento. Torcendo para que não seja encantado por outro sentido, o olfato talvez.

Imagem: Sweet Ice Cream Photography via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

O menino Guarani (Final)

O menino Guarani (Final)

Saímos da sala de cinema de mãos dadas. Sensação incomum, mas legal. Estávamos dentro de um shopping, muitas pessoas circulando, porém, uma nos olhava com bastante interesse: Dário. Como não sou afeito a coincidências improvisei:

– Antes de sairmos, preciso ir num caixa eletrônico. – falei para Cibele, e segurando sua mão nos movi driblando as pessoas pela frente.

– Nossa! Por que tanta pressa?

– Quero chegar logo no motel.

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Imagem: Jason Yu via Unsplash

Texto:Tarcísio Oliveira