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T.O.C.

T.O.C.

T.O.C. Não gosto da nomenclatura. Ter qualquer obsessão é assustador. A palavra obsessão me lembra filmes de terror. “Compulsivo”, talvez seja um pouco. Na verdade, sou organizado. Excêntrico, para alguns.

Suzana surtou quanto entrou em casa e me viu retirando a cobertura da parede. O reboco está mal-acabado, cheio de imperfeições. Decidir refaze-lo. Suzana não aceitou muito bem. Ali foi o marco para nosso divórcio.

Pena que ela não viu minha obra de arte completa. Uma parede lisa, bem-acabada. Depois dela refiz toda a casa. Aos poucos me tornei um expert em construção civil, autodidata.

No trabalho:

– Tony, a equipe tem reclamado de surtos cara… Você precisa de tratamento.

– Maurício você me conhece, sabe que faço o melhor para empresa. Prezo pela organização.

– Mas, você advertiu uma funcionária por causa de um papel amassado!

– Era um documento importante.

– Que porra de documento! Um papel que ia ser jogado no lixo. E tira a porra dos olhos das minhas canetas jogadas na mesa!… A mesa é minha organizo essa porra do meu jeito!

Eles não enxergavam o caos naquilo tudo. O que tinha de errado em ordenar as coisas?

Em casa:

Já não recebia mais ninguém em casa. Na verdade, os amigos não queriam mais vir. Alguns se chateavam do meu rigor na hora de servir um vinho, e degusta-lo. Ou de minhas recomendações à mesa. Enfim, só queria o melhor para todos, pena que eles não enxergavam, só eu.

Refazer o banheiro era necessário. Um fim de semana prolongado era o ideal. Derrubo e já começo a levanta-lo. O que há de mal em ser assim?

Imagem: Florian Klauer via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Pílulas Expressas

Pílulas Expressas

Editor-chefe (estava escrito na porta de vidro).

– Senta ai Pedro!

– Já está com a pauta da semana?

– Na verdade não… Você vai ter que assumir outra coluna.

– Outra coluna?

– Sim. “Saúde e Beleza” mais especificamente.

– O quê! Como assim? Sou um jornalista, mestre em ciência política… Correspondente de guerra! Isso é alguma piada?

– Conheço seu currículo, te contratei lembra? Os tempos são outros Pedro. Tem acompanhado nossos números? Sabe quantos jornais estamos imprimindo por dia?

– Sei das dificuldades, mas não podemos nos render assim. O jornalismo sempre passou por inovações. E sei que temos ganhado bom dinheiro na plataforma digital.

– Pedro… Pedro… Pedro… Você não sabe de nada! Por um acaso já viu como anda a popularidade da seção de política em nosso site? Sabe quantas visualizações tem por semana?

– Sei de alguns números…

– Você não sabe de nada! Aliás isso não é negociável. Para continuar aqui vai ter que assumir a pasta. E outra coisa: sua coluna política se tornará “pílulas”. Cinco vezes na semana vai montar pequenos textos para lançarmos, tanto na versão impressa quanto na virtual.

– Isso é para me forçar pedir demissão?

– De forma alguma… Como te falei, são novos tempos… Aceitei e trabalhe!

Não tive muitas opções. Era o melhor jornal do país. Tinha um bom salário. No primeiro mês minha nova coluna era a mais acessada. Fazia sucesso. Ganhei bônus. As pílulas expressas, também tiveram melhor repercussão. Ele estava certo. Novos tempos.

Imagem: G. Crescoli via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Brasil: país de pudores

Brasil: país de pudores

O Brasil é um país cheio de pudores.

Falar sobre sexo no Brasil é um problema.

Tabuísmo é sinônimo de brasilidade. Ousado seja aquele que nomear vagina e pênis de forma que fira os bons costumes. Supondo-se que vai escrever sobre isso, adianto que será censurado.

Censurar é mais a cara do Brasil.

População ingênua + censura = jovens grávidas, propagação de DST.

Sim a população brasileira é ingênua, não com sua função de sinceridade, mas pela sua denotação de inocência. E entenda inocência por seu caráter de ignorância.

Ignorar é mais a cara do Brasil.

O brasileiro tem medo de se entregar ao sexo. Falar de sexo é feio.

Masturbação feminina é pecado, já a masculina é normal. A USP provou isso: 40% das mulheres pesquisadas admitiram que nunca se tocaram.

Não se tocar é mais a cara do Brasil.

Brasil é tão cheio de pudores que cega os brasileiros.

Brasileiros… Existe isso no Brasil?

Imagem: Samuel Zeller via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Ressaca

Ressaca

Acordar de ressaca é foda. Mesmo assim Sales conseguiu ficar de pé. No banheiro vomitou, mas, depois conseguiu se equilibrar em baixo do chuveiro. A água fria o ajudou despertar.

Na geladeira tinha um pedaço de queijo, duas latas de cerveja, uma garrafa de vinho pela metade e algumas embalagens vazias de comidas de micro-ondas. Antes da noitada no dia anterior, ele já havia buscado suas roupas na lavanderia; se vestiu, depois esquentou o queijo numa frigideira, comeu acompanhado de uma das cervejas.

Hoje ele não iria de terno ao trabalho. Teve sorte: calor insuportável fazia. Antes de descer para pegar o carro, usou um bafômetro descartável para verificar o nível etílico, marcou 0,35 mg/l, no limite para ficar retido em qualquer blitz, mas teria que pagar a multa, talvez perdesse a carteira, “isso é outro problema”, pensou ele.

Era o penúltimo dia do ano. No escritório todos já se despediam e planejam nova noitada, Sales empolgado, foi no banheiro e cheirou uma carreira de pó, que alinhou na tampa da privada. Energizado voltou à pequena confraternização que acontecia no espaço de vivência da empresa. Como sabia que não lembraria, inventou uma desculpa para se excluir do amigo-secreto. Em pé num dos cantos do espaço e sua cabeças nas nuvens, ele observava e criava perfis dos seus amigos de trabalho. Imagina as impurezas que aquelas pessoa eram capazes de fazer: os senhores de respeitos, potenciais pedófilos; as senhoras íntegras, exalando sonhos sexuais. Para Sales estas horas foram torturas, e também a mistura das drogas contribuiu para um estado paranoico, só melhorando quando cruzou a porta da boate onde a confraternização iria ter seu fim.

Imagem: elizabeth lies via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

As voltas do coração

As voltas do coração

Nair tinha sido uma paixonite minha no colégio. Quantas noites em claro passei divagando beijos e abraços? Mas ela nunca me deu uma chance. Era um menino tolo, inseguro pela falta de experiência. A escola acabou e com ela se foram os sonhos com Nair.

Avancei a vida adulta. Sucesso na vida profissional. A balança nas relações amorosas pendeu para meu lado. Tudo corria bem até aquele dia. Acabara de bater a porta do carro, no estacionamento do prédio onde havia alugado uma nova sala comercial.

– César?

– Oi… – Levei muitos segundo para processar quem era – Oi, Nair?

Ela se aproximou, nos cumprimentamos. Seguimos conversando. No elevador continuamos o papo.

– Que tal almoçarmos? – falei.

– Não poderei. Estou repleta de trabalhos.

Meu sossego acabara. Passei o dia pensando nela. Certamente era o fantasma de não ter conseguido conquista-la na juventude, que alimentava a angústia. Reacender a paixão, por uma mulher que após receber um convite para almoçar, rebate logo com um “não”. Ela podia estar casada, ter filhos… Mas, só erámos colegas de escola. Em nenhum momento de nossa curta conversa fui desrespeitoso. Mal sabia que era o primeiro de muitos foras.

E durante um longo e, às vezes, humilhante ano tentei de todas as formas seduzi-la. Porém, seu conjunto de desculpas era interminável. Agiam impulsionando aquela insegurança de adolescente, me sentia um paspalho.

Nunca saberei explicar o motivo que depois de tantas investidas, hoje, ela cedeu e aceitou meu convite para almoçar. A surpresa foi tão grande que fiquei ruborizado, gaguejei, suei e tremi… Não sei em que ordem. E durante quatro horas não sabia o que fazer, nem o que pensar. Os olhos ficaram vidrados no relógio.

Quando cruzamos a porta do restaurante foi como passar a linha imaginária entre oceanos, tudo mudou. Acabou o nervosismo. Na verdade nem sentia adrenalina. Sentados a mesa frente a frente, percebi o quanto ela ficara feia. A nicotina deixara seus dentes amarelados, pele enrugada. Não conseguia falar sem ser do seu trabalho. E aquela minha atração se tornou repulsa. Mas, permaneci gentil, e mantive sempre o sorriso. Durante a conversa ela insinuou algo como “lugar mais reservado”, mas fui salvo pelo toque do celular, e adiantei o pedido da conta. Ao final, retornamos ao prédio, falando coisas do tempo de escola.

Ela tocou minha no elevador, foi quase como um choque elétrico. Enfim no meu andar.

“Não vejo a hora do próximo encontro!”, mensagem de Nadir para mim. Ainda bem que tive um ano de aprendizado, conheço as melhores desculpas.

Imagem:  ANDRIK ↟ LANGFIELD ↟ PETRIDES via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira