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Polêmica

Polêmica

Não existe nada melhor do que polemizar. É fato.

É só abrir o jornal, ou melhor, é só abri uma aba num site de notícias, vão estar lá cabeçalhos apocalípticos. Não quer dizer que a notícia é sobre o fim do mundo, mas isso é apenas um detalhe.

Comentários polêmicos também são formidáveis. Eles assumiram de vez o lugar da verdade. Não importa o que fale, o comentário do público vai ser mais criativo e inteligente, e seu texto, por exemplo, fica em segundo plano.

Outro dia vi um cara chamar de fascistas e nazistas, artistas que recorrem a fundos do governo para montar filmes e peças de teatros. (Um pouco exagerado, ficaria melhor chamá-los de aproveitadores, ou algo próximo). E claro o mesmo cidadão finalizava com “quero a volta da ditadura”. Pura polêmica, baseada no complexo de inferioridade. Ele precisa concentrar atenção em suas ideias impactantes. O mais legal é que o rapaz tem uns vinte anos, e certamente nunca passou fome, o que lhe dá toda nutrição necessária para posição tão conservadora.

Mas, na verdade a polêmica nada mais é controvérsia. E sua extensão de significado nos leva ao debate. Os dicionários precisarão adicionar mais um significado: boato mais alto.

Hoje acordamos com a notícia de um senador (explicitamente corrupto) recebendo a liberdade pelos seus iguais. Isso não é mais polêmico.

Antes de ontem, parlamentares votaram na surdina a liberação de bancarem sua própria campanha, favorecendo os que tiverem mais grana. Desde quando isso é polêmico?

O aplicativo mais popular do país oferece a localização de seu amigo, ele não poderá mais te enganar dizendo “tou quase chegando”. Um mapa te mostrará exatamente onde ele está. Absurdo isso, eu mesmo não gostei. Isso sim é polêmico.

Imagem: Photo by Lin Zhizhao on Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Anel de noivado

Anel de noivado

O que o amor não faz?

O amor é capaz de tudo realmente. Custei a acreditar nisso. O fato é que jurei não casar na igreja, mas o que não faria por Sônia? Fiz tudo.

Um dia levantei da cama e falei em voz alta “preciso me casar com Sônia”. E me vestindo para trabalhar, fui traçando planos de como faria o pedido, qual era o lugar mais romântico, que roupa usar… Eis que surge a preocupante questão: como comprar um anel de noivado?

No trânsito não parei de cogitar. Era preocupante não entender nada sobre joias. Pior ainda era comprar o anel errado, sabia o quanto as mulheres sonham com isso.

No intervalo do almoço Jonas me deu umas dicas.

– Vai nessa loja. Foi uma tia minha que indicou na época em que casei com Dulce.

– É caro?

– Esquece o valor meu amigo… Tudo para casamento é caro. Esquece esse detalhe… Use apenas o bom senso.

E assim fui, cheio de dúvidas, mas com o cartão de crédito livre.

A vendedora foi muito gentil. Teve a maior paciência. Imaginei que teria uma excelente comissão. Depois de uma hora na loja, escolhi um dos mais caros anéis.

Montei a noite perfeita para fazer o pedido de casamento a Sônia. Confesso que senti orgulho de mim mesmo no dia. A data ficou para dali a um ano.

Hoje é o dia do casamento. Já desmaiei duas vezes. Não era por nervosismo provocado pela timidez. Minhas náuseas eram provocadas pelo atraso de mais de duas horas de Sônia.

Pensei que enfartaria quando ouvi alguém confirmar “ela não vem”. Chorei copiosamente.

No fim do dia, já domesticado por muitas garrafas de vinho, só sentia a tristeza de ter gastado uma pequena fortuna no anel de noivado. E comecei a gargalhar quando lembrei que em meu bolso ainda estavam as alianças do casamento. “Estas eu devolvo! Estas eu devolvo! ”, gritava e chorava.

Imagem:  Zoriana Stakhniv via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Andando pelas ruas

Andando pelas ruas

Nada melhor do que uma esquina para entender trigonometria. Quadrante, raios, Pi… tudo começa a fazer sentindo nesses espaços urbanos…

As vezes virar o pescoço para os lados direito ou esquerdo faz muita diferença. Pequenos detalhes transformam por completo a opinião sobre um lugar, por exemplo. Esquecer da matemática e lembrar de botânica e história são consequências razoáveis.

Vegetação e história andam juntas sem dúvida. Devem ajudar também os urbanistas.

Acredito que poetas e contistas se utilizam dessas “ferramentas”.

Passado, presente e futuro não deviam estar ligados, se deturpam, se anulam, se destroem, se confundem.

Não existem pontos de vistas. O que existe é colocação espacial diferente. Quando damos dois passos para frente, conseguimos ver a janela do vizinho.

Sombra… Sombra de árvores. Ideal para estacionar carro. Melhor lugar para tomar água.

Um bom lugar para ver melhor a vida.

Politica? Politicagem? Politicalha?… Prefiro as previsões dos serviços…

A flor mais bela é aquela que suportar a força do sol durante meses, a inconsequência dos homens… Acima de tudo permanece lá impávida e forte.

Imagem:  Andrew Gook via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Sabe o que é censura?

Sabe o que é censura?

Poucos brasileiros se dão conta que são restringidos diariamente, e menor ainda são aqueles que foram diretamente censurados.

Posso falar “explicitamente” sobre censura. Fui rigorosamente proibido de relatar passagem de um livro, que nem nacional é. Com pretexto que feria a política de conteúdos, blá, blá, blá… Ora, ora… A mesma política que libera dados cadastrais ao mundo inteiro?

O censor é foda. Ele muda de face. Ele tem cara de amigo, de vizinho, de jornal, de revista, de ideias… Porra são tantas caras que a gente termina concordando com ele. E de repente estamos falando “Isso tá errado! É imoral! Que pouca vergonha!”.

O Ultraje a Rigor cantou sabiamente que “indecente é você ter que ficar despido de cultura… Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral. A barriga pelada é que a vergonha nacional…”.

Como é fácil esquecer tantos problemas, e concentrar esforços em pautas tão ridículas. Na verdade, a censura é foda, ela nos engana. Ludibria. Somos agentes da censura. Somos armas sem mira, e atiramos em tudo que nos faça pensar.

Tive pesadelos quando fui censurado. É como se alguém chegasse para você e dissesse: “Ei! Diga isso não! Está com algum problema? Tem algum retardo mental? Refaça isso seu merda! Nesse espaço livre, só entra o que eu quero trouxa! E se me arretar, boto você para fora, e se reclamar, mando lhe prender!”.

Não estou sabendo me expressar direito. As palavras são bem mais pesadas do que essas, mas já dá para ter uma noção.

Àqueles que não sabem o que censura, e aplaudem tão rude palavra aos ouvidos de uma minoria. Continuem assim é o melhor caminho para permanecer na ignorância.

Imagem:  Kristina Flour via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Não quero ser mãe!

Não quero ser mãe!

Minhas amigas enchiam o saco com esse negócio de ser mãe. Simplesmente nem todas as mulheres nasceram para maternidade. Faço parte desse grupo.

Criança é bonitinha tal… Mas, nem de boneca gostava de brincar, e num brinquedo de verdade é que não toparia mesmo.

André também não entendia isso. E mesmo apaixonada por ele, decidi que não aceitaria o pedido de casamento que ele me fez ontem. Não queria passar anos ao lado de um cara que iria me aporrinhar para ter filhos.

Já chorava antecipadamente. Não sai do banheiro do escritório durante o dia. Os colegas de trabalho tentavam entender o meu pranto, mas, nem estendia muito na conversa. Apenas dizia que estava “triste”.

***

As férias me ajudaram a chorar menos. A decisão tinha sido minha, então devia encarar melhor o término. Constrangimento foi dividir as coisas, não imaginei que ele fosse tão mesquinho. O cara fez questão por quase tudo, até pelas plantas. Pulei uma enorme fogueira no fim das contas.

***

De volta ao trabalho, logo na primeira reunião, recebo a notícia que serei promovida. Numa reunião com alguns membros da diretoria, sou presenteada com a informação e o motivo: a antiga chefe será mãe, e decidiu dedicar-se inteiramente a maternidade.

Já no fim alguém me pergunta “e você planeja ser mamãe quando?”.  Enchi os pulmões e berrei: “Não quero ser mãe! ”.

Imagem: Oscar Keys via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira