Escolha uma Página
Humor

Humor

Fazer as pessoas sorrirem é difícil. Principalmente nos dias de hoje, todo mundo sabe de tudo, conhece todas as piadas.

Não me arrisco a contar piadas. Tenho medo de esquecer o texto. Deixei de fazer teatro por esse motivo: memória fraca.

O improviso no meu caso era regra. Atrapalhava meus colegas de cena. Dia desses me convidaram para uma peça, o papel era pequeno, pouca fala. Topei.

Era uma comédia. Texto legal, me diverti mais lendo, do que assistindo os atores principais. Eles não sabiam fazer humor. Só estavam ali porque pagaram. E enquanto estávamos num barzinho comemorando a primeira noite de espetáculos, do nada, comecei a gargalhar. Claro que estava bêbado. Era outra coisa que não sabia fazer: beber.

Quando me perguntam o que é humor, sempre respondo que é algo ligado ao estado de espírito. Ninguém nunca gosta da resposta. Todos querem algo um tanto teórico, que aponte referências da comédia, filmes clássicos.

Realmente ser ator de humor ou comédia (tanto faz para mim) tem que estudar. Buscar referências. Não gosto de estudar, por isso não sei fazer rir.

Novamente me chamaram para encenar outro papel. Esses caras acham que tenho talento. Não estou nem aí para isso. Mas, eles não entendem. Resolvi tentar mais uma vez.

A primeira noite do espetáculo, a casa lotada. Críticos dos principais jornais e revistas. Esqueci boa parte do texto, mas no final tivemos aplausos. Insatisfeito fui para casa.

Dia seguinte pego o jornal e está lá: “o retorno do excelente ator”, “memorável atuação”, “espetacular”. “É isso sim é uma grande piada”, pensei.

Imagem: Jad Limcaco via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Ai! O amor…

Ai! O amor…

É tão lindo amar. Andar bobamente pelas ruas. Ai! Topada da porra!

Não desisto de caçar borboletas em formato de coraçõezinhos. Ai! Ferroada filha da mãe que essa abelha me deu!

Andar na chuva, gritando para todos ouvir “eu te amo!” … Pular poças d’água e desli… Ai! Puta que pariu! Que tombo horrível, escorreguei na calçada.

Porque não sou abraçado pelo glamour do amor poético? Porque tenho que sofrer por amor, e me machucar por amor?

E no fim ela ir embora para balada e me deixar aqui, cheio de hematomas e curativos. Amor? Amor é o cacete!

Imagem:  Cooper Smith on Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Polêmica

Polêmica

Não existe nada melhor do que polemizar. É fato.

É só abrir o jornal, ou melhor, é só abri uma aba num site de notícias, vão estar lá cabeçalhos apocalípticos. Não quer dizer que a notícia é sobre o fim do mundo, mas isso é apenas um detalhe.

Comentários polêmicos também são formidáveis. Eles assumiram de vez o lugar da verdade. Não importa o que fale, o comentário do público vai ser mais criativo e inteligente, e seu texto, por exemplo, fica em segundo plano.

Outro dia vi um cara chamar de fascistas e nazistas, artistas que recorrem a fundos do governo para montar filmes e peças de teatros. (Um pouco exagerado, ficaria melhor chamá-los de aproveitadores, ou algo próximo). E claro o mesmo cidadão finalizava com “quero a volta da ditadura”. Pura polêmica, baseada no complexo de inferioridade. Ele precisa concentrar atenção em suas ideias impactantes. O mais legal é que o rapaz tem uns vinte anos, e certamente nunca passou fome, o que lhe dá toda nutrição necessária para posição tão conservadora.

Mas, na verdade a polêmica nada mais é controvérsia. E sua extensão de significado nos leva ao debate. Os dicionários precisarão adicionar mais um significado: boato mais alto.

Hoje acordamos com a notícia de um senador (explicitamente corrupto) recebendo a liberdade pelos seus iguais. Isso não é mais polêmico.

Antes de ontem, parlamentares votaram na surdina a liberação de bancarem sua própria campanha, favorecendo os que tiverem mais grana. Desde quando isso é polêmico?

O aplicativo mais popular do país oferece a localização de seu amigo, ele não poderá mais te enganar dizendo “tou quase chegando”. Um mapa te mostrará exatamente onde ele está. Absurdo isso, eu mesmo não gostei. Isso sim é polêmico.

Imagem: Photo by Lin Zhizhao on Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Anel de noivado

Anel de noivado

O que o amor não faz?

O amor é capaz de tudo realmente. Custei a acreditar nisso. O fato é que jurei não casar na igreja, mas o que não faria por Sônia? Fiz tudo.

Um dia levantei da cama e falei em voz alta “preciso me casar com Sônia”. E me vestindo para trabalhar, fui traçando planos de como faria o pedido, qual era o lugar mais romântico, que roupa usar… Eis que surge a preocupante questão: como comprar um anel de noivado?

No trânsito não parei de cogitar. Era preocupante não entender nada sobre joias. Pior ainda era comprar o anel errado, sabia o quanto as mulheres sonham com isso.

No intervalo do almoço Jonas me deu umas dicas.

– Vai nessa loja. Foi uma tia minha que indicou na época em que casei com Dulce.

– É caro?

– Esquece o valor meu amigo… Tudo para casamento é caro. Esquece esse detalhe… Use apenas o bom senso.

E assim fui, cheio de dúvidas, mas com o cartão de crédito livre.

A vendedora foi muito gentil. Teve a maior paciência. Imaginei que teria uma excelente comissão. Depois de uma hora na loja, escolhi um dos mais caros anéis.

Montei a noite perfeita para fazer o pedido de casamento a Sônia. Confesso que senti orgulho de mim mesmo no dia. A data ficou para dali a um ano.

Hoje é o dia do casamento. Já desmaiei duas vezes. Não era por nervosismo provocado pela timidez. Minhas náuseas eram provocadas pelo atraso de mais de duas horas de Sônia.

Pensei que enfartaria quando ouvi alguém confirmar “ela não vem”. Chorei copiosamente.

No fim do dia, já domesticado por muitas garrafas de vinho, só sentia a tristeza de ter gastado uma pequena fortuna no anel de noivado. E comecei a gargalhar quando lembrei que em meu bolso ainda estavam as alianças do casamento. “Estas eu devolvo! Estas eu devolvo! ”, gritava e chorava.

Imagem:  Zoriana Stakhniv via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Andando pelas ruas

Andando pelas ruas

Nada melhor do que uma esquina para entender trigonometria. Quadrante, raios, Pi… tudo começa a fazer sentindo nesses espaços urbanos…

As vezes virar o pescoço para os lados direito ou esquerdo faz muita diferença. Pequenos detalhes transformam por completo a opinião sobre um lugar, por exemplo. Esquecer da matemática e lembrar de botânica e história são consequências razoáveis.

Vegetação e história andam juntas sem dúvida. Devem ajudar também os urbanistas.

Acredito que poetas e contistas se utilizam dessas “ferramentas”.

Passado, presente e futuro não deviam estar ligados, se deturpam, se anulam, se destroem, se confundem.

Não existem pontos de vistas. O que existe é colocação espacial diferente. Quando damos dois passos para frente, conseguimos ver a janela do vizinho.

Sombra… Sombra de árvores. Ideal para estacionar carro. Melhor lugar para tomar água.

Um bom lugar para ver melhor a vida.

Politica? Politicagem? Politicalha?… Prefiro as previsões dos serviços…

A flor mais bela é aquela que suportar a força do sol durante meses, a inconsequência dos homens… Acima de tudo permanece lá impávida e forte.

Imagem:  Andrew Gook via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira