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– Tenho medo de falar em público. Por que será?

– Acho que deve ter algum trauma de infância.

– É… Bem provável… O que acha que devo fazer?

– Voltar ao trabalho, antes que o chefe nos demita.

Nunca tinha respostas para certos assuntos, mas as pessoas insistiam em conversar comigo. Pensavam que era uma espécie de intelectual, só porque estava sempre com uma revista na mão. Nem se davam ao trabalho de ver o assunto das revistas que lia. Eram na maior parte publicações que falavam de casa e construção. Mas, imagino que ler revistas, livros ou qualquer coisa palpável esteja tão em desuso, que termino recebendo título de intelectual.

– As próximas eleições o cara é Jardel. Ele tem uma plataforma política das melhores que já vi. O que você acha?

– Eu não voto. Meu título foi cancelado. Devo uma multa alta a Justiça Eleitoral.

– Você é louco cara? Não sabe o mal que te faz? Ainda por cima pessoas omissas como você prejudicam o futuro do país!

– Foda-se.

Não tinha problema em ser considerado uma pessoa estúpida, ou desqualificada. Viver com um salário-mínimo me qualificava em ser um desqualificado. Também sou um mentiroso, é claro que tinha título de eleitor válido. Queria me livrar do chato que sempre vinha com esse papinho de merda.

Era difícil encontrar uma pessoa que quisesse conversar sobre casa e construção. Que se interessasse em novas tendências de ambientes decorativos, ou até mesmo qualidade de conexões hidráulicas. Por isso, passava meus domingos visitando os homes centers na cidade. Fazia questão de ler as embalagens dos produtos e vê as novidades do segmento. Alguns vendedores já me conheciam, e nem vinham mais em minha direção. Momentos de paz.

– Já te falei que tenho fobia de falar em público?

– Não.

– Pois é… Não sei o que me dá… Acho que deve ser algum trauma…

– É bem provável.

– Você não dá a mínima, não é?

– Exatamente.

Imagem:  Jon Tyson via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

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