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Minha relação com Marina é de pura sinergia. Gosto de usar essa palavra. Ela emprega o significado certo para nosso namoro. Nos encaixamos bem, e durante algum tempo definia nosso chamego com pura simetria. Um vício antigo meu: usar adjetivos impactantes, ou diferentes.

Marina não gostava muito da minha retórica, na verdade, ela nem foi muito com minha cara na primeira vez que nos vimos. Ela me achou chato. Como conquistei ela? Não sei, as coisas foram acontecendo. Fazíamos parte de um grupo que ajudava pessoas carentes. Ela participava por opção. Já no meu caso, tratava-se de uma pena alternativa por um crime de trânsito que cometi. Não vale estragar a história com esses detalhes.

Sempre chegávamos cedo no prédio da ONG. E enquanto aguardávamos os outros chegarem, íamos conversando. Um dia descobrimos que gostávamos da mesma banda. No outro, partilhávamos de ideias políticas. No fim, estávamos viciados em conversar.

De repente compúnhamos uma dupla dedicada em ajudar os necessitados. Sempre apresentávamos novas ideias para tornar o serviço legal, o que logo despertou o interesse de outras bases da ONG. Nas estradas desse imenso país, saímos oferecendo boas práticas. Nem sempre conseguíamos boas acomodações. Nosso primeiro beijo, estávamos deitados em sacos de dormir, num chão frio. Nossa conversa fluía… Nem conseguia me concentrar no assunto, apenas no sibilar das palavras e da respiração que produzia.

Foram beijos longos naquela noite. E os que vieram nos dias seguintes, foram bem mais intensos. Acho que veementes soa melhor. Beijos sôfregos, como se o mundo fosse acabar. O lance todo era tão surpreendente, que demoramos um bocado até a primeira transa. Nada nos impedia, mas acho que aquela novidade era tão autossuficiente, que nem pensávamos no sexo.

Porém, existe algo muito mais eficiente que o pensamento no sexo: a fisiologia do corpo. E assim, como a falta de planejamento do primeiro beijo, foi nossa primeira transa. Lembro de todos os detalhes. Havíamos acabado de chegar num restaurante para almoçar. Falamos coisas bobas sobre o tempo, comida, etc… E numa sintonia (simetria e sinergia) pedimos a conta quase em coro. Pegamos um taxi para meu apartamento. Subimos desesperados as escadas. Segundos inquietantes para fechar a porta.

Evidente que a cama estaria muito longe para alcançarmos, o sofá e o chão seriam mais apropriados para tamanha inquietação. Engraçado como não consigo esquecer a estampa da calcinha que ela usava, mesmo depois de tantos anos.

Hoje ela falou em casamento. Tudo bem que lá se vão 5 anos, porém, não sei… O receio do fim dessa simetria/sinergia me assombra. E brigamos feio dessa vez. Sobraram palavras como “covarde”, “medroso”, “estúpida”, “cala a boca”. Talvez ela esteja certa e devamos bagunçar um pouco as coisas. Essa coisa de adjetivos complexos, não funcionarão a vida toda. Uma hora a sinergia precisa dá lugar a discrepância da vida a dois.

Imagem: Wolfgang Hasselmann via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

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