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Eventos sociais passaram a ser constrangedores. Na verdade, sempre foram, mas hoje como as pessoas vivem numa dimensão digital, a superficialidade está difícil de ser combatida. Sempre vou porque adoro comer, beber e ser constrangido.

– Oi! Há quanto tempo! O que estais fazendo da vida?

Antes era comum o “estais bem!”, esta forma de cumprimentar afirmativa foi substituída pelo questionamento de “qual sua ocupação atual”. Não culpo a nova etiqueta, pois é até mais fácil começar um diálogo a partir do tema “trabalho”. Confesso que esse momento frívolo da sociedade me inspira tanto, que começo a inventar coisas, já que sei que o interlocutor não consegue mais raciocinar. Sendo assim, sempre invento uma nova profissão para mim.

Já fui bombeiro, gerente de riscos, adestrador de cães, cambista, comissário de bordo, advogado, ator e tantos outros. Não tinha vergonha de me apresentar como lobista, pelo contrário, mesmo tão malfada a categoria, assim como eu, milhares de profissionais honestos conseguem fazer o meio de campo governo x interesses privados. Minha intenção era apenas antropológica, digamos assim.

– Ah! Estou bem… Trabalhando bastante… – preciso forçar a perguntar clara do receptor.

– Ah! Eu também… E você trabalha com o que atualmente?

– Eu sou escritor.

Vocês precisavam ver a cara do cidadão… Mentiria se dissesse que me segurei para não gargalhar. Aquela surpresa misturada com constrangimento, provocou uma tensão nos músculos do rosto de meu colega, que nenhum cubista conseguiria retratar.

– Oh! Que legal! E você escreve o quê?

Não estava preparado para esticar a conversa. Mas, pensei rápido.

– Literatura erótica.

– Hum! Tipo daquele filme?

– Não… Mais específico.

– Específico como?

– Escrevo para uma editora que publica livros e revistas hedonistas.

Não sei de onde tirei essa, mas o cara se interessou. Torci para um garçom nos interromper, porém, nenhum apareceu. Mais de dois minutos de conversa era demais para mim.

– Hedonismo é tipo aquilo de chicote e couro?

– Isso é mais algumas coisas… – claro que era esperado a troca de sadomasoquismo por hedonismo.

– Deve ser legal…

– Nem tanto… Não tenho mais saco de ficar frequentando casas de swing e mansões de orgia e outros lugares loucos… A revista que trabalho me obriga a frequentar esses ambientes. Mas, me diz você: trabalha com o quê?

Vou ficar devendo a vocês a ocupação de meu parceiro de conversa. Quando ele disparou seu texto pronto, meu cérebro entrou em stand-by… Só retomei ao diálogo quando surgiram as palavras “… mas deve ser chato para você ambientes assim, já que está arrodeado de tanta animação…”.

De repente o cara me tomou como consultor sexual, e entre outras perguntas ridículas veio essa: “é verdade que existe tratamento para o pau crescer?”.

Não sou um cínico, nem tão pouco consigo controlar meus sentimentos por tanto tempo… É claro que o gole da espumante que acabará de sorver, espirrou da minha boca. Parar de rir foi difícil. Felizmente me livrei da companhia. Ele podia ter aguardado um pouquinho, que passaria o número do meu urologista.

No fim, realizei minha parte de constranger alguém. Meu sócio me chamou, queria me apresentar a possíveis novos clientes. Voltei a minha posição séria de negócios, e aquele momento foi mais agradável. Enquanto conversamos sobre o futuro, fiquei pensando no complexo de inferioridade do colega, e na sua ingenuidade de não perceber que expressava coisas tão pessoais a um estranho.

Moral da história: tenha cuidado no que fala, pois, seus segredos podem parar no blog de um lobista.

Imagem:  Charles Deluvio 🇵🇭🇨🇦 via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

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