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A Fila

A Fila

Fila no Brasil deixou de ser um grupo de pessoas uma atrás da outra. É um mosaico de diversidades. É um fenômeno social. Não deve se limitar a piadas, ou coisas do tipo. É necessária elaboração de estudos nos centros de pesquisas, tornando possível avaliação científica.

Importante lembrar que o estudo da Fila não se limitaria a uma ciência. Sua análise é multidisciplinar, é termo plural, seria investigada pela Sociologia, Filosofia, Antropologia, Linguística. E se engana aquele que não considerar o olhar das Ciências Naturais, pois como deixar de fora o olhar do físico, do geômetra, do matemático?

Porém, uma das visões mais aguarda seria a da Ciência Política. É improvável deixar de construir a premissa de que “uma fila é extensão da organização, ou não, de um Estado”. Refutar isto é tolice. É quase uma obviedade que a fila se trata do reflexo do poder político.

Insistamos no caso Brasil.

A fila no Brasil já nasce assimétrica. Somente o indivíduo que esta prestes a ser atendido faz questão de se manter na marca pintada no chão, que foi criada justamente para marcar um espaço harmônico entre os fileiros (nomeamos assim aqueles que habitualmente são integrantes de filas). Os demais que estão atrás daquele que pisa no “Aguarde”, se apresentam de maneira até folclórica: braços cruzados; pernas cruzadas para equilíbrio; encostados na paredes; encostador em qualquer coisa; sentados no chão; sentados numa cadeira a metros de distância, pois conseguira liberação do seu anterior e seu posterior para se afastar até a sua vez chegar. O resultado de tantas variantes é a desarrumação, ao ponto de provocar num recém-chegado efeitos de miragem: quando ele pensa que só tem três na fila, é tocado no ombro por alguém que lhe diz “a fila começa lá trás moço”.

O mesmo “moço” que decepcionado segue ao final da fila confirma que aquilo ali é culpa do Estado. “Só num país atrasado como este mesmo!”, “País de corruptos!”, “País sem educação!”, “É por isso que não anda!” são apenas alguns dos argumentos prontos para explicar sua impaciência quanto ao fato que será o último até outro revoltado aparecer. Claro que não se contenta e inicia uma série de analogias com países distintos, avança inclusive para o campo teórico criando cenários e legislações que nem existe no planeta, mas, quem ouve aceita, fica tímido, com vergonha de desmentir o agora “penúltimo”.

A transferência de culpados leva por fim aos atendentes. “Lerdos!”, “Preguiçosos!”, “Burros”, são tantos os adjetivos que dá criar um dicionário informal. Mas, eles se vingam: inesperadamente quando vão ao banheiro, bebem água, se demoram mais numa anotação ou na contagem de cédulas. Ao perceberem a tal ação retardante os fileiros, num prelúdio de coro, dizem “é agora que só saio amanhã”.

Caso as ciências não enveredem no estudo, por motivo de acharem tal assunto fugaz, as expressões artísticas podem sem dúvida desenvolver um movimento cultural. A dança deve fazer uso da técnica corpórea de um fileiro, é uma flexibilidade surreal às vezes. O teatro teria tantos e tantos diálogos para encenar. Quantos versos seriam inspirados? Quantos contos? Um romance talvez? A literatura perde ao não explorar a famigerada formação de pessoas. A TV deveria promover séries e novelas!

Claro que o tema me ocorre depois de enfrentar uma hora e quarenta e sete minutos numa fila. Meu atendimento durou um minuto aproximadamente, tempo apenas do caixa digitar alguns números e a tecla “Enter”. Aliviado prometo a mim mesmo nunca mais me sujeitar a isso, e mais que urgente utilizar os meios digitais. Talvez sinta falta da fila, mas por enquanto prefiro observar de longe o desabafo do “último”: “Só nesse país mesmo!”.

 

Imagem: Petar Petkovski via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

A tal reforma

A tal reforma

O que é previdência social? Não saberia responder. Em tempos de internet, nem o próprio site desta instituição no Brasil, tem a preocupação de explicar aos seus associados o significado de sua existência. De forma geral muitos acreditam que a previdência social é sinônimo de aposentadoria, mas, é certo que sua atuação se amplia a outra categorias.

Tratar sobre esse assunto é conveniente, vive-se um momento de grandes dúvidas e inquietações no país devido a uma possível “reforma previdenciária”. Talvez o mais polêmico no processo seja a maneira como o governo federal conduz a tal reconstrução. Não podemos afirmar que é arbitrária, pois os legisladores que votarão a emenda foram eleitos pela população, e neles depositamos a confiança de que apoiariam os melhores projetos para a sociedade. Claro que esta afirmativa parte da ideia que o voto dado para essas foi de forma consciente e estudada, e caso não tenha sido assim, é tarde demais. Sobre a legitimidade ou não do poder executivo atual, também, não existe tempo para confrontar, já que não existiu resistência suficiente para retira-lo da administração.

O argumento maior daqueles que propõe a mudança é a questão demográfica e a influência nas contas públicas. Certamente a transformação em nossa pirâmide demográfica tem e terá um peso nas estratégias políticas, e consequentemente, nas decisões da gestão econômica do país. Mas, a proposta é muito drástica, tomada por um imediatismo assustador para uma análise de tempo histórico.

Porém, o que mais assusta é a posição da população brasileira. Toda comoção de manifestações é basicamente de servidores públicos, que algumas categorias não tem vínculos diretos com os planos de previdências do INSS, por exemplo. São associados a outras empresas que agenciam suas aposentadorias junto ao governo, a fora que tem planos especiais para antecipar seus dias de descanso. Os trabalhadores da iniciativa privada que serão os mais afetados, si quer pensam em mobilização, ao contrário, condenam ou apenas se limitam em olhar tudo pela internet. Não se dão conta que a possibilidade de manter-se num emprego privado por mais de vinte anos é privilégio de poucas pessoas no planeta.

O fato é que certamente a reforma será votada e aprovada. As vozes reclamantes não serão suficientes.

Temos um território. Temos uma federação. Temos unidades federativas. Mas, nação e povo ainda continuam num processo embrionário de formação. Nossos interesses divergem.

Imagem e texto: Tarcísio Oliveira