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2114

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Meu sorriso me acusava: estava feliz. Não sei bem ao certo. Apenas sorria gratuitamente.  Talvez tenha haver o reencontro com amigos de infância. Relembramos de nossas travessuras. Oramos por aqueles que não estavam presentes por falecimento. Realmente foi acalentador. Fizemos um belo banquete. No fim trocamos e-mails, fones, profiles de nossas redes sociais… E a promessa de nova reunião.

Nesse mesmo dia recebi a notícia que minha filha passara no vestibular e ingressaria numa das melhores universidades do país. Para coroar: acertei os números da loteria. Só coisas boas aconteciam era esse o motivo de tanta felicidade.

Tudo isso foi muito rápido. Agora me via sentado numa cadeira de rodas. Estava velho. Sentia dores. Outras memórias boas me vinham como um flashback. Fiquei histérico. Estava num asilo. Gritei por socorro, me desesperei. Um enfermeiro me explicou o que acontecia. Sofria uma doença degenerativa no cérebro. Há cinco anos meus filhos me internaram aqui, me visitavam uma vez na semana. A última pergunta que conseguir balbucia foi “em que ano estamos?”, “2114” foi a resposta.

Entre lágrimas rezei para Deus. Queria novamente lembrar o passado. E esquecer esse presente-futuro que não me pertencia. Após ingerir uma pílula entregue pelo funcionário do asilo, fiquei mais calmo. Aos poucos fui adormecendo. Quando acordei estava de mãos dadas com meus pais caminhando pelo parque, feliz porque naquele dia aprendera andar de bicicleta. Feliz porque aquele instante ficaria para sempre na memória e ninguém tiraria de mim.

Imagem:  Collin Armstrong via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira