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O tempo é relativo

O tempo é relativo

Sempre ouvi meus amigos mais cultos falarem “o tempo é relativo”. Para não me mostrar ignorante, concordava. Mas, confesso que nunca soube ao certo o significado real disso, porque são coisas pouco alcançáveis para mim: tempo e relativismo. Hoje me ocorreu um insight sobre o assunto.

Costumeiramente em dias de chuva fico na varanda, deitado na rede, quebrando a cabeça com enigmas das minhas revistas de palavras cruzadas. Dizia um amigo meu que era coisa de velho, discordo totalmente, todos devem exercitar a mente com esse divertido passatempo. Ali bem acomodado, observava a angústia de meu filho adolescente: praticamente a cada minuto falava com a namorada virtualmente pelo celular. Eram mensagens de vídeo, pouco entendia do conteúdo, somente que ela queria a presença dele no evento que aconteceria a noite. Por outro lado, ele tentava argumentar que chovia muito, e não conseguiria comprar o que ela pedia. “Porque o dia não tem vinte oito horas?”, por fim o rapaz apaixonado desabafou.

– Há vinte anos quando comecei a namorar sua mãe, mal podíamos usar o telefone fixo, além de nem todos terem uma linha, custava muito uma ligação. Contentávamos com nossa palavra: se marquei às oito horas, chegarei às oito horas. Em dias de chuva assim, corria feito louco, pulando poças de lama, chegava todo molhado na porta dela… Os poucos minutos que podia ficar, pareciam horas.

– O que isso significa pai?

– Não sei ao certo. Apenas quero dizer que o relógio não mudou, o dia continua tendo vinte quatro horas, a hora sessenta minutos… Antes aguentava um dia inteiro para poder escutar a voz de sua mãe, hoje você consegue vê sua namorada a qualquer hora. O tempo corria mais lentamente.

– Ainda não entendo.

– Você não acha que esse contato incessante lhe sufoca? Fica tão apreensivo que perde a noção real do tempo, e termina não aproveitando nada?

– Ah pai! O tempo é relativo.

– É o tempo é relativo, mas nós somos absolutos, comandamos nossas ações, definimos nossas prioridades.

Gostei do desfecho que dei a conversa. Um tanto filosofal. Meu filho não desgrudou do celular, passou mais algumas horas até estiar. Continuei no balançar da rede quebrando a cabeça no meu passatempo.

Imagem: Ales Krivec

Texto: Adelmo Fleury

O moderador

O moderador

Todos já estão acomodados num grande círculo, quando o moderador entra na sala. Sua ótima memória para fisionomia e nomes ajudava na verificação do grupo. Quando via que todos estavam presentes sentia um alívio. As faltas eram previamente avisadas, e sempre por um motivo justo. Era seu décimo ano dirigindo seções do A.A., mas, o hábito não lhe tirava o frio na barriga todas as vezes que falava ao público. Mesmo com rostos já tão conhecido para ele. A espécie de fobia foi a grande causa para sua entrega ao vício do álcool. Hoje era sua aliada, não precisava fugir dela, só precisava do velho e bom “boa noite” para que tudo desse certo.

– Boa noite!

– Boa noite! – resposta do grupo.

– Apesar da noite chuvosa, e nossa cidade sempre um caos nesses dias, fico feliz que todos conseguiram vir. Mais feliz ainda em perceber que temos novos amigos para dividir conosco experiências de vida.

Pausa. Ele está em pé de frente a uma carteira. Tenta fazer a leitura dos dois novatos. Sabia que não podia força-los a falar, afinal ali era um lugar de espontaneidade. Mas, ele também entendia que o alcoólatra precisaria botar suas emoções para fora, se sentir seguro entre aqueles desconhecidos, a vergonha é fatal. Voltar para casa sem pelo menos se apresentar, muitas vezes podia levar a uma recaída.

– Vou quebrar um pouco o protocolo hoje. Começarei com uma história minha, claro se concordarem.

Não houve nenhuma negativa. Os dois novatos, uma mulher e um homem, se mostraram menos tensos.

– Então, noites de chuva para mim eram problemáticas. Não pelos trovões e raios, mas sim, pela fome. Logo após o meu divorcio, fui morar sozinho num pequeno apartamento. Quase não tinha móveis, apenas uma geladeira velha e um fogão de duas bocas. Dormia num sofá-cama. A TV deixará de ser um passatempo, mal sabia o que acontecia ao meu redor. Tinha um rádio relógio que ficava sempre ligado… Saía e entrava e ele continuava lá, na mesma frequência. Completavam o cenário: garrafas cheias ou vazias, latas amassadas e pontas de cigarros… Os dias chuvosos que não tinham bebida na casa eram assustadores… Ficar sóbrio naquela situação era horripilante, pois os comércios próximos fechavam, e com a geladeira vazia, o terror de confrontar a verdade aumentava. Saber que nossa vida desandou é dar o braço a torcer a todos aqueles que tentam nos aconselhar. E como todo bom alcoólico dava meu jeito de beber. Não tinha bar aberto… Apelava a farmácia… Comprava desodorante a base de álcool e bebia. Sabor nem importava. A fome passava.

Pausa. Gole d’água. Surpreendentemente a novata pediu a vez. O moderador não titubeou e enquanto fechava a garrafa de água mineral, apontou o indicador para ela abrindo caminho para seu relato.

– Me chamo Nair!

– Boa noite Nair! – o coro.

– Não tenho recordação da primeira vez que bebi, nem tão pouco o dia que me entreguei de vez a ela. Mas, lembro que foi num dia chuvoso que perdi meu filho.

Ela respirou forte para tentar conter as lágrimas e continuar a falar.

– Aconteceu há quinze dias… Não me lembro das últimas palavras dele, mas, sei que discutimos. Ele morava com meu ex-marido, em outra cidade, duas vezes na semana me visitava. Todas as visitas começavam com ele me tirando de algum bar, ou, festa na casa de “amigos”. Ele sempre me criticava daí nunca dava atenção. Horas antes de morrer, mandou mensagem para o pai dizendo que não aguentava mais, estava muito cansado… Tive oportunidade de ler ontem. Pouco depois que me deixou dormindo, a poucos quilômetros da minha casa, perdeu o controle do carro… Chovia muito naquele dia. Foi fatal.

Pausa. Lágrimas escorriam. Ouvintes atentos. Ela continuou já entre soluços.

– Só percebi o meu problema quando fui enterra-lo. Na escolha do calçado… Não sabia qual número ele vestia… Como uma mãe pode não saber detalhes assim do filho, aquele mesmo que fora seu bebê? Quanto tempo se passara?

Mais soluços e lágrimas.

– Vi que há muito deixara de ser mãe… Trocara meu filho pelo álcool.

Nova pausa. Respirou fundo.

– Pela memória dele estou aqui… Meu nome é Nair, estou há vinte horas sem beber.

Ela foi acolhida por aplausos. Os amigos com histórias parecidas assumiram dali. O moderador se sentiu satisfeito, o frio na barriga já não era problema.

Imagem e Texto: Tarcísio Oliveira