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A causa dos animais

A causa dos animais

Ativista de sofá

Todas às vezes que assisto filmes com animais choro. Pode ser qualquer animal, até aqueles documentários que fazem na savana africana. Acho que é inerente a nós humanos sentir pena. É na verdade deve ser isso: pena. Não é sensibilidade. Mas, gosto de pensar que sou diferente e me sinto um apoiador das causas dos animais, mesmo que seja do sofá.

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Carroça

O povo que crítica minha carroça é porque não sabe o que é passar fome, se soubesse queria ver se iam me criticar. Acordo cedo e selo a égua. Passo areia nos arranhões das patas dela… Aprendi que assim cicatrizava mais rápido. Evito dar chicotadas, mas, às vezes perco a paciência. Outro dia um corno na rua quase que me bate. Disse que eu devia ter vergonha de fazer isso, eu perguntei “fazer o que… sobreviver?”. Ele gritou dizendo que eu podia comprar uma dessas motos de baixa cilindrada, para puxar minha carroça. Eu mandei ele se foder. Tinha que usar a égua até o fim, se não teria prejuízo.

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Deus e o chicote

“Por que Deus não manda um raio agora e arranca o chicote das mãos desse infeliz!”, pensei e falei dentro do carro. Acendi o alerta, parei na via e fui falar com o cara. Tentei convence-lo de que a forma que ele tratava o animal era errada, e ele poderia continuar o trabalho dele de forma mais eficaz se investisse numa motocicleta. Mas, não teve jeito, além de quase levar uma chicotada dele, tive de ouvi impropérios. De volta ao meu carro, ainda escutei piadas dos outros motoristas. “Às vezes penso que Deus não existe”.

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Gaiola

Quando vejo uma gaiola penso o quanto o ser humano é sádico, na extensão de crueldade. É difícil alcança o prazer que sente uma pessoa ao enclausurar uma ave. Animal de asas, feito para voo, mas, para atender a perversão de outrem limita seu voo a pequenas linhas de arame.

Um dia sair cedo para o trabalho e vi uma gaiola pendurada numa parede. Vi de longe que o dono andava com outra gaiola. Em instantes tomei a decisão, ninguém observava e o cara estava de costas. Fui rápido e preciso. Soltei o pássaro. Quando cruzei com o malfeitor, tive vontade de gargalhar, porém, me comedi… Minha intenção era libertar os outros.

Tornou-se minha especialidade soltar aquelas pobres aves. Inventei vários métodos para invadir casas. Contudo, descobri que as aves por serem cativas, não iam longe. Terminavam caindo em novas gaiolas-armadilhas. Fiquei triste e por pouco não abandonava a causa.

Percebi que não existiria melhor liberdade aos enjaulados senão a morte. Comprei uma espingarda de ar comprimido. E durante as noites, enquanto todos dormiam, ensinava novamente aos bichinhos a maneira certa de voar.

Texto: Tarcísio Oliveira

O Vermículo

O Vermículo

O razoável é acreditar que, de fato, tudo está interligado, tudo faz parte de um grande todo. A ideia de que o conhecimento, de alguma maneira, nos torna meio que desconexo de tudo, nos faz enxergar como um ser a parte, ainda que consciente do grande mecanismo no qual somos uma pequena peça sem quase importância alguma. Quanto mais uma mentalidade é evoluída mais ela tende a procurar não seguir esse indistinto conjunto, a se individualizar, a ser uma peça meio fora do contexto. Seria essa a razão da qual Deus tenha proibido o homem a não tocar na árvore do conhecimento? Seria como se fosse aquilo ali um arquivo infectado?

Todo o mecanismo do universo e de tudo que não esteja arraigado no raciocínio segue uma regrinha muito simples e implacável. Mesmo se considerarmos a entropia. Seria possível conceber que a nossa capacidade de pensar fosse como um defeito desse mesmo mecanismo. Algo exatamente criado para ir de encontro à saudável lógica de tudo. Algo que eu já teria tentado abordar, de que quanto mais uma coisa progride, mais ela tende a não ser aquilo. A evolução tende a um fim, ao nada. Ou o perder-se no todo. Seria como a ideia de um fruto que vai evoluindo, que amadurece, mas que nesse amadurecer vai possibilitar que lhe surja algo que, aparentemente seria mais evoluído, lhe determinará o fim: o vermículo. A nossa consciência seria o vermículo, a gênese do fim daquilo que progrediu o bastante e requer, é chegada a hora, a sentença final.

Mas isso seria apenas de nós mesmos, de nossa consciência. E todo o resto, que é tudo, continue.*

*Texto extraído do livro “46 Escritos”

Crédito imagem: Jeremy Thomas

Texto: Aleksandro F. de Paula, escritor pernambucano. É autor dos livros “O mecanismo das horas”, “46 Escritos” e “Nada mais e outros poemas”, publicados pela Editora Multifoco.

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IG: @ferreiraaleksandro