Escolha uma Página
Coisas mais ótimas

Coisas mais ótimas

Eu achava que a palavra otimismo nascia de ótimo. Talvez tivesse razão e fosse verdade. Etimologia, ortografia, gramática nunca foi meu forte. Eu gostava de ler, mas não tinha boa memória. E isso me levava ao péssimoPessimismo tinha certeza que se originava de péssimo. Os conceitos de palavras ruins eram mais fáceis para assimilar.

Já era a terceira noite que não dormia. Sempre gostei da palavra talvez. Verbete dúbio. Trunfo dos indecisos. Dependo apenas da feição do rosto quando se fala, por exemplo, “talvez seja o excesso de café que não tenha me deixado dormir” (fazia cara de despreocupado). Não ligava para o cansaço. Já não precisava dirigir. Meu motorista me levava a todos os lugares que precisasse. Ter motorista particular foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos. Não tinha paciência de olhar nos retrovisores, gostava só de olhar para frente, e isto só me causou transtornos. Terminava sendo um pouco de soberba e preguiça.

O certo é que queria coisas mais ótimas para minha vida. Não sabia nem por onde começar. Pensei em comprar roupas novas. O visual novo deve ajudar. Liguei para meus filhos, que já não via há quase dois anos. Moravam fora do país. Sei que nunca fui tão presente, motivo pelo qual pagavam na mesma moeda. Mas, resolvi ceder e corre atrás. Talvez esse fosse um bom caminho: retratar, reparar…

Era melhor ter continuado com as questões vocabulares das palavras ótimopéssimo e talvez. A conversa com meus filhos não foi muito produtiva, no máximo só promessa de visitas tanto minha quanto deles.

A meu pedido o motorista entrou numa rodovia interestadual. Não sabia qual estado seria o destino. Pedi somente que dirigisse até o próximo posto de gasolina. Meia hora depois, bebíamos energético numa loja de conveniência. Olhávamos os carros cruzando a estrada, e fazíamos comentários sobre modelos e potência dos motores.  Perguntei se ele conhecia algum lugar na região para almoçarmos, e logo indicou um restaurante na cidade dez quilômetros à frente, onde fizemos nossa refeição e minutos depois continuamos nossa viagem sem destino.

À noite já numa pequena pousada na beira da estrada, assistíamos a um jogo de futebol de times locais. Não nos interessava a partida em si, pois passamos mais tempo rememorando lances dos craques do passado. Depois disso descemos e fomos tomar uma cerveja no bar ao lado. Garotas de programa nos cercaram e findamos promovendo uma pequena festa no quarto da pousada.

No retorno para casa não me sentia ótimo, mas também não estava péssimo. Talvez me sentisse feliz, ou talvez estivesse melancólico demais para saber o que sentia de verdade. Meu celular tocou, um de meus filhos ligando, falamos por minutos. Certamente essa ligação se encaixava nas coisas mais ótimas, mas não era o suficiente para me deixar feliz.

Planejei mentalmente uma viagem mais longa de carro. A ideia era vagar para rever e conhecer novos lugares. Andar sem muito compromisso, sem pensar muito na vida, somente rodar sobre e estradas. Ótimo, péssimo e talvez seriam reflexões para outra oportunidade.

Imagem: Esther Tuttle via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Estrada para lugar nenhum

Estrada para lugar nenhum

Resolvi andar sem rumo depois de ter visto um filme norte-americano, não lembro o título, mas o enredo trata de uma moça que resolve fazer um caminho famoso naquele país, com o intuito de se redescobrir.

***

Não tenho grana para bancar a viagem e seguir os mesmos passos dela, por isto resolvi criar meu próprio caminho de redenção, mas, sem tem ter um ponto final, caminho, portanto, para lugar nenhum. Talvez seja geral demais nomear de lugar nenhum, já que vou andar dentro do meu país, o melhor seria mesmo dizer que vou andar sem data para retornar. O que significa dizer que caminharei sem pressão alguma de voltar, sem justificativa para dar.

***

Comecei com algum dinheiro, não era muito. Já gastei um tanto. Só gasto basicamente com alimentos, água e banho.  Tomo banho nos postos de gasolina, não é barato, sendo assim não é diário, a cada três dias para ser mais exato. Não lembro como a moça do filme se virava, mas meu trecho é diferente, uso rotas urbanas, evito entrar no mato. Vez ou outra para fazer necessidades é que pulo uma cerca, detalhe maior que me priva de andar por dentro da vegetação: essas áreas sempre tem dono.

***

Mentiria dizendo que todo percurso faço andando. As caronas são muito bem-vindas. Com os estradeiros fico sabendo de estabelecimentos que guarnecem viajantes, momentos que posso sentir o conforto de cama e privada. São pequenas casas que funcionam como pensão, improvisam pequenas suítes, um tanto deterioradas, mas, depois de certo tempo, se tornam suítes presidenciais. Passam despercebidos os insetos, o mofo, os vazamentos ou falta de água… O que importa é poder deitar em algo fofo e fazer as necessidades num vaso, usando papel higiênico em vez de folhas. A ausência destas coisas é que me deixa aflito na minha jornada, e quando tenho a possibilidade de usa-las, me emociono.

***

Depois de três meses andando minhas preocupações já não eram as mesmas do inicio. Praticamente não lembrava as angústias que tinha com família e trabalho, duas instituições fundamentais para muitas pessoas, para mim resquícios de lembranças. Não me assustava o desapego, o pouco que aprendia nessa viagem é que a imensidão do mundo extrapola toda nossa compreensão. Hoje meus dilemas giravam em torno de como aliviar a dor dos calos e escoriações que surgiam nos pés e corpo.

***

Na estrada ganhava a vida ajudando carreteiros a trocar pneus. Trabalho árduo para homens de meia-idade, fora de forma, mas, a prática fazia deles exímios borracheiros, e quase halterofilistas, visto que, suspender uma roda completa não era nada fácil. Com essa grana ia me virando, fazendo amigos. Num dia de boa arrecadação me dava o luxo de fazer uma boa refeição noturna. E foi numa destas que me vi no noticiário nacional, estampavam minha foto, papai e mamãe falavam que já não tinham notícias minhas a mais de quatro anos. “Quatro anos”, falei para ninguém. Vi meu reflexo no açucareiro. Cabelo grande, barba enorme… Nada parecido com aquele jovem rapaz mostrado na TV. Senti falta do meu filho e Marcela, eles não estavam ao lado dos meus pais. Na certa Marcela havia se casado novamente. Era jovem e linda, não valia a pena esperar por mim, no fundo todos entendiam minha jornada como um surto.

***

A placa informava o limite de velocidade. Ao longe enxerguei árvores com copas largas, fariam boa sombra, poderia descansar. Naquele lugar esmo, onde somente uma placa sinalizadora materializava a presença humana, decidi começar meu retorno. Não havia estrada para lugar nenhum. Todos os lugares já eram ocupados pelo homem, não haveria lugar para manifestação de um nirvana, nem em um dos picos do Everest. Voltar para casa seria um desafio maior certamente, lá é provável que me encontre novamente.

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira