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Mãos úmidas

Mãos úmidas

Erámos tão jovens. Adolescentes. Nunca tinha conhecido menina tão linda. Pena ser tão tímido.

Empatia de cara. Ficamos amigos. Sentia que ela gostava de mim, seus olhos brilhavam quando me viam. Mas, só tenho segurança disso hoje, mais maduro.

Sempre que me aproximava dela, meu coração palpitava. Era paixão, claro. Porém, não sabia como proceder. O medo da negativa era maior que a coragem de beija-la.

Num dia de carnaval, tomados pelo despudor da euforia, ela me deu a mão e pude desbravar a multidão guiando-a. Nossas mãos úmidas, talvez fossem a maior prova de nossos anseios. Foi o mais próximo do corpo dela que pude chegar. Maldita timidez!

A vida e suas armadilhas… Nos prega peças que somente o mais desavisado pode se surpreender. Passados 20 anos reencontro aquela paixão da juventude.

Linda como sempre. O mesmo sorriso.

E mesmo com mais experiência, e muitos amores, não pude conter o nervosismo, tão pouco a gagueira. Um cumprimento adulto: beijos educados na bochecha, “que avanço! ”, pensei.

Nem tudo era perfeito. Uma aliança na mão esquerda lhe distanciava de mim. Ele se aproximou. Tive o desprazer de cumprimenta-lo. A vontade era de quebrar todos os ossos de sua mão.

Tanta tolice. Na verdade, queria era chorar.

Era o homenageado na noite. Após receber o prêmio, e agradecer a todos os cumprimentos, me lancei a goles do bom e velho uísque.

Do lado de fora, olhando para lua, pensei em criar uma máquina do tempo.

“Linda festa”, ela falou.

Expliquei que tudo era fruto do cerimonialista, eu também era um convidado. Rimos.

De repente lembrávamos de tantas coisas, e mencionávamos tantos assuntos atuais, que era como se não existe um tempo nos separando.

Ajudei-a subir as escadas. Sentir suas mãos úmidas. Queria tanto beija-la, pelo menos uma vez…

“Por que nos afastamos? ”, ela perguntou.

“Acho que porque nos amávamos”.

Ruborizada. E com leve tremor nas mãos, ela tocou minha face. Ficamos ali, não sei quanto tempo, olhos nos olhos. Ela me deu um abraço, e nos despedimos. Finalmente chorei.

Imagem: Roman Kraft

Texto: Tarcísio Oliveira

Alicio o filantropo

Alicio o filantropo

Gosto de festas. E um evento deste com tanta pompa, deixava tudo mais agradável. Pena que estava ali a trabalho. Gonçalves e seus serviços mirabolantes. Devia ser uma espécie de fetiche para ele; ficava num de seus escritórios luxuosos espalhados pelo país, sentado em cadeiras sofisticadíssimas, fumando charutos cubanos maturados. Enquanto eu era “bolinado” por um leão de chácara na entrada da festa.

“O cidadão tem que morrer do coração… Simples assim.”

“Do coração? Não posso forjar um assalto, daí ele morre de infarto?”

“Alicio, não me interessa como você vai fazer. Mas, tem que ser infarto.”

Levantei a ficha médica do fulano. Nem um indício de problemas cardíacos, tão pouco histórico na família.

“Gonçalves, a dificuldade será maior, dobrarei o valor.”

“Alicio, sem negociações!”

“Então não farei… Por esse valor uso técnicas mais práticas.”

“Ligo em uma hora.”

A verdade é que não ia me expor tanto. O cara era dono da maior empresa de segurança do Recife. Segurança quase psicótica lhe acompanhava.

“Alicio, envenena o cara. Qualquer veneno.”

“Porra esses teus amigos são pior do que você.”

***

Tirei Roberto das ruas. Fugiu de casa aos sete anos. Diariamente espancado pela mãe, e comumente estuprado pelo padrasto. Um dia andava pela Visconde de Suassuna e fui surpreendido por um moleque, que surgiu por detrás de uma árvore, apontava para mim um espeto de madeira. Visivelmente entorpecido por cola de sapateiro. Rendi-o facilmente. Tomado por uma filantropia resolvi ajuda-lo, compulsoriamente claro.

Passado anos Roberto se transformou num homem, que nem de longe lembra sua infância assustadora. Além de ser um possível amigo, Roberto tornara-se um químico dos mais brilhantes. Trabalhava numa multinacional, e pouco podia encontra-lo no Recife, somente em casos especiais, dos quais me aproveitava de seu talento. Da sua parte não havia questionamento tão pouco censura. A gratidão é uma qualidade foda, tenho medo dela às vezes.

“Que tal curare?”

“É um tanto primitivo, não?”

“Eficiente na medida certa. Tenho um aplicador discreto. Uma espécie minúscula de zarabatana.”

“Explique mais…”

***

O detector de metais na entrada acusou celular e o isqueiro que Roberto me deu de presente. As senhas foram cortesia do escritório de Gonçalves. Regina (em outro momento contarei mais sobre ela) estava eufórica e linda. Não iria estragar a noite dela, preferi omitir que estávamos ali a trabalho. Ficamos na mesa de associados da empresa de Gonçalves. A solenidade era para premiar os melhores do ano, ou coisa do tipo, minha concentração estava voltada apenas ao meu alvo.

“Vamos dançar!”

“Você sabe que não danço.”

“Alicio, levanta agora!”

Dançar era uma habilidade, um disfarce. Não gostava de usar disfarces com Regina. Rodamos pelo salão. Acompanhando os ritmos tocados pela orquestra. Parávamos para goles de champanhe. Ajudou o tempo passar, e a ebriedade tomar conta dos convidados.

Os vigias do futuro pacote davam uma trégua justamente quando ele dançava com a esposa.

“Vamos dançar?”

“Quem é você? Onde está Alicio?”

“Vem logo!”

Precisão. Precisão. Precisão.

“Primitivo, mas eficiente”, palavras de Roberto. Nunca me decepcionava aquele garoto. Agi quase como um mágico na hora do truque. Acionei o isqueiro falso, e mirei no pescoço. Preciso. O dardo era uma imitação de um ferrão de abelhas, material tipo polímero. Roberto tentou explicar, porém, não dei muita atenção, a melhor parte é que era absorvido pela pele quando o infeliz passasse a mão.

Minutos se passaram e o baile foi tomado pelo desespero. Gritos da esposa foram suprimidos pela rápida ação dos seguranças.

“Desvia desconfiar da sua inesperada vontade de se socializar.”

“Não tive nada com isso. Só vim para me divertir.”

“Ah! Claro, claro… Quero ir para casa.”

“Ok.”

“A minha casa… Não a sua!”

Nem tudo dá certo para mim.

Texto: Tarcísio Oliveira

Que se inicie o carnaval

Que se inicie o carnaval

O Houaiss diz “período anual de festas profanas, originadas na Antiguidade e recuperadas pelo cristianismo, e que começava no dia de Reis (Epifania) e acabava na Quarta-Feira de Cinzas, às vésperas da Quaresma [Festejos populares provenientes de ritos e costumes pagãos, caracterizavam-se pela liberdade de expressão e movimento.]”. Também diz que a etimologia da palavra vem do latim medieval, carnelevare ou carnilearia, palavras ligadas as vésperas dos dias de abstinência da carne (Quaresma).

Um mestre das ciências humanas me disse certa vez que “não há festa mais religiosa do que o carnaval”, surpreso o questionei, que de pronto me respondeu, “como atender os pecados da carne, sem festividades dessa natureza? Extrapolar para depois buscar a redenção”.

A partir dessa base argumentativa, não posso me fazer incrédulo e deixar de lado o perfil espiritual da festa. Devo entregar meu corpo e no fim, redimir minha alma.

***

É certo que em algumas cidades o carnaval não começa mais no dia de Reis e tão pouco perde a força na Quarta-feira de Cinzas. Mas, procuro cumprir o rito da maneira mais fiel. Porém, é na madrugada do domingo que não me permito ser mais racional. As palavras consequências e exageros somem do meu vocabulário. Na verdade nenhuma palavra faz mais sentido para mim. Entro num transe, que poderia ser considerado uma espécie de nirvana.

***

Na Terça-feira Gorda todos os meus limites já foram testados, mas, não o suficiente para saciar minha ânsia de prazeres carnais. E ao som de percussões variadas, metais e cordas assanhados, danço freneticamente, bebendo e flertando sem culpa.

***

Nas Cinzas, como prometido, me entrego a introspecção, e dou inicio a purificação.

 

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira