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O assassino do lago (I)

O assassino do lago (I)

Simone lia atentamente uma notícia no jornal, um tanto estranho para adolescentes. Geralmente não desgrudavam os olhos dos celulares. Senti orgulho vendo a cena.

“Pai quando será que vocês irão encontrar essa moça desaparecida?”

A pergunta me embrulhou o estômago. Ela se referia à professora que sumira no estacionamento de um dos shoppings da cidade. E minha unidade é responsável pela investigação.

“Estamos fazendo de tudo filha.”

A realidade é que não fazíamos de tudo. A rotina policial é limitada por uma série de eventos burocráticos inimagináveis. Sem contar com a falta de pessoal, somente nesse ano quinze agentes conhecidos meus mudaram para outras instituições, passaram em outros concursos, e a lacuna não se preenchia fácil. No meu caso, acumulo função de detetive e escrivão, passo mais tempo escrevendo boletins de ocorrência que na própria tarefa de investigador.

“O que é fazer tudo pai? Passou um mês e vocês ainda não tem pistas nenhuma?”

“Minha filha, não quero começar um discussão agora pela manhã. Tome seu café.”

“É bem o feitio de vocês policiais.”

Só tínhamos dois fins de semana no mês, mas sempre nos desentediamos. O preço que tinha de pagar por ter sido completamente ausente durante sua infância. Ver a morte me mostrou como agia errado, por isso fui a busca da guarda parcial, não houve resistência da parte de minha ex-esposa, porém, tivemos desgastantes audiências na vara de família para formalizar a situação.

Seguimos em silêncio no carro até a porta da escola. Ela desceu do carro, bateu a porta; antes de chegar ao portão voltou, desci o vidro:

“Te amo…”

“Também te amo…”

Chorei no caminho para delegacia. Aquilo foi lindo demais. No horizonte se abria um novo mundo para mim.

***

Meu turno já estava acabando, mais um dia que não pude sair em diligência. Teríamos uma espécie de auditoria, e fiquei responsável de realizar os backups das máquinas, pois meus colegas viam os computadores como dragões, sentiam-se incapazes de digladiar contra eles.

Uma moça morena cruzou a porta. Carlos que já havia trabalhado na costumes conheceu de pronto. Comentou que ela fazia ponto numa avenida “movimentada” da cidade.

“Quero prestar uma queixa desaparecimento”

Chamei-a ao meu bureau. Começou seu relato. Sua amiga Milena – não sabia me dizer o nome verdadeiro – já fazia três semanas que não aparecia. Fui ríspido, afinal, moças com vida tão itinerante tinham pouca credibilidade.

“É um erro está aqui, não sei onde estava com a cabeça!”

“Calma. Preciso de coisas mais sólidas para começar uma investigação. Sua amiga já é adulta, quem garante que ela não viajou, ou algo do tipo?”

“Se fosse outra professorinha o lance era diferente!”

“Não é isso…”

“Como não? Já é terceira de nós que some assim. Outras amigas vieram reclamar o sumiço das outras duas, e vocês não fizeram nada!”

“Três?”

“Sim. Três! Da mesma forma… Até descrição do carro demos… Desculpe senhor policial, vou dá o fora daqui…”

Alcancei-a na calçada. Pedi desculpas. Tentei leva-la para dentro da delegacia. Ela se negou disse que estava atrasada, um cliente a esperava. Antes de ir insistir sobre o carro. Não sabiam o modelo do carro, anotaram as duas primeiras letras. Seria o suficiente talvez. “Chegou a hora de ser policial outra vez”, pensei.

Continua…

Imagem: Evan Dennis

Texto: Tarcísio Oliveira

O que é um coreto?

O que é um coreto?

– Pai o que é um coreto?

– É um… É tipo um… É como se fosse… Puxa como posso ilustrar?… Parece um pequeno teatro. Por quê?

– Escutei vovó dizendo “fulana só vem pra bagunçar o coreto”.

– É uma expressão quase em desuso, quase não existe mais coreto.

– Queria ver um.

– Caramba! Sei onde tem um, mas não sei se ainda continua de pé.

– Podemos ir lá agora?

– Claro.

E andaram pai e filha, de mãos dadas. O pai feliz pela curiosidade da filha adolescente, surpreso afinal de contas, a moça ao contrário da tendência preferiu buscar a informação com ele, e não pela internet. A felicidade da filha era maior, via seu pai com um semblante de satisfação plena, sentia o calor das mãos, achou até que sentirá o pulsar de seu pai. Três quilômetros foram cortados por eles sem incomodo algum. O pai se fazia de guia, contava o máximo de histórias que se lembrou daquelas ruas. Ruas de sua infância, ele apontava o lugar que existira uma loja de moer e empacotar café, dizia o quanto se deliciava ao senti o aroma. E na frente da casa mal assombrada de Dona Lourdes perderam alguns minutos, pois ali, quase com lágrimas nos olhos, o Pai narrava estripulias que ele fizera com seus amigos.

***

Um guia explicava aos turistas a história da praça. Pai e Filha acompanharam as explicações, e ela usou celular para registrar o coreto. Não seguiram com o grupo, eles seguiram para explorar mais o espaço, eles permaneceram no coreto. O Pai tentando manusear aquele aparelho escorregadio, e a Filha posando para fotos.

Por fim ela se centrou no pequeno palco e improvisou:

Ao meu pai com muito carinho improviso este verso,

Numa tarde tão linda e feliz

Sonhei em ser imperatriz

Mas, terminei sendo uma atriz

Numa peça de um homem só

Mas, somente um homem ele não era

Era mais do que isso

É aquele capaz de tudo

Para me deixar feliz.

E mesmo sem rima alguma

Longe de mim lhe proibir de suas vontades.

E grito bem alto: TE AMO!

Os dois correm e se abraçam aos pés do coreto, descobrindo afinal o “que é”, e para “que serve”.

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira