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2114

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Meu sorriso me acusava: estava feliz. Não sei bem ao certo. Apenas sorria gratuitamente.  Talvez tenha haver o reencontro com amigos de infância. Relembramos de nossas travessuras. Oramos por aqueles que não estavam presentes por falecimento. Realmente foi acalentador. Fizemos um belo banquete. No fim trocamos e-mails, fones, profiles de nossas redes sociais… E a promessa de nova reunião.

Nesse mesmo dia recebi a notícia que minha filha passara no vestibular e ingressaria numa das melhores universidades do país. Para coroar: acertei os números da loteria. Só coisas boas aconteciam era esse o motivo de tanta felicidade.

Tudo isso foi muito rápido. Agora me via sentado numa cadeira de rodas. Estava velho. Sentia dores. Outras memórias boas me vinham como um flashback. Fiquei histérico. Estava num asilo. Gritei por socorro, me desesperei. Um enfermeiro me explicou o que acontecia. Sofria uma doença degenerativa no cérebro. Há cinco anos meus filhos me internaram aqui, me visitavam uma vez na semana. A última pergunta que conseguir balbucia foi “em que ano estamos?”, “2114” foi a resposta.

Entre lágrimas rezei para Deus. Queria novamente lembrar o passado. E esquecer esse presente-futuro que não me pertencia. Após ingerir uma pílula entregue pelo funcionário do asilo, fiquei mais calmo. Aos poucos fui adormecendo. Quando acordei estava de mãos dadas com meus pais caminhando pelo parque, feliz porque naquele dia aprendera andar de bicicleta. Feliz porque aquele instante ficaria para sempre na memória e ninguém tiraria de mim.

Imagem:  Collin Armstrong via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Surpresa!

Surpresa!

Na ponta dos pés

Pé ante pé subir as escadas para não fazer barulho. Rosário não sabia que chegaria de viagem hoje. Quando abrir a porta do quarto ela roncava como um glutão depois de se fartar.

Com a mesma delicadeza nos passos, desci as escadas e resolvi me dá mais uns dias de viagem.

***

Surpresa

Ninguém gosta de surpresa. É algo que escapa as mãos, não saber nem controlar o que vem pela frente, assusta.

***

Trinta mil!

Espanto. Nada mais claro para exprimir o que senti quando vi aquela cifra na minha conta: trinta mil! Nunca se quer cheguei a ver mil, imagine trinta. Por isso fiquei assombrado. Era um golpe, só podia ser… Alguém queria me prejudicar. Ainda conferi em outros caixas eletrônicos, mas, o valor continuava lá: trinta mil! Decidi que tinha de sacar o dinheiro, mesmo se fosse alguma espécie de estelionato, arriscaria.

Enfrentei uma fila enorme. Quando chegou a minha vez o caixa informou que o saque para tal quantia teria que ser previamente comunicado a gerência; mencionou outras formalidades. “Fodeu! Vou ser preso”, pensei enquanto me dirigia a gerência. O gerente não chamou a policia, ao contrário, me vendeu um titulo de capitalização de cinco mil e agendou o saque do restante para dia seguinte.

Pasmo fiquei contando aquele tanto de dinheiro em cima da minha cama e que ninguém reclamou.

Abalado como os trinta mil foram embora tão fácil.

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Festa surpresa

Festa surpresa depois de ser demitido, namorada deu o fora e o carro quebrar na volta para casa é no mínimo desconfortável. E quando abri a porta de casa e o “surpresa!” surgiu, confesso que se tivesse armado tinha levado uns cinco para outra vida. Para sorte deles carregava apenas minha pasta e meu paletó. Restava-me comer aquele bolo horrível que compraram já pronto numa dessas delicatéssen e rezar para tia Betânia ter acertado no tamanho certo das cuecas esse ano.

Imagem: Kelley Bozarth

Texto: Tarcísio Oliveira

Lembrar de lembrar

Lembrar de lembrar

Não sei ao certo o que significa lembrar. Alguns dizem que tem a ver com saudade. Mas, saudade… Puxa vida!… Sei lá para que existe. Por que me digam para que serve um sentimento que desperte melancolia? Ninguém dirá com firme certeza.

Porém, continuo sem saber o que significa lembrar. Alguns dizem que lembrar é evocar. Evocar me remete a chamar algo do além… O desconhecido, o intangível… Imperceptível e por isso não tem sensibilidade física. Será que lembrar é não ser sensível? Ou até certo ponto, lembrar é fazer vista grossa para coisas que acontecem a nosso redor?

Eu sei o que é lembrar. É ter memória. Memória é saber do passado, é ter noção da própria história e da história da vida em sociedade. Então não seria tão errado afirmar que lembrar é saber usar a informação que se obtém para viver? E viver sem lembrar é quase inconcebível, e caso isto ocorra o indivíduo deve está tomado por uma patologia, ou influenciado por uma força maior que ele, impedindo-o que use essa capacidade a seu favor?

Lembrar certamente é coisa em desuso. Ando pelas ruas e vejo. Fato. As pessoas não lembram onde por o lixo; as pessoas não lembram em conserva o seu patrimônio; as pessoas não lembram o que é ser gentil; as pessoas não lembram que tudo começa com elas e que fazem a história para as pessoas do futuro.

Será que saudade em demasia cega?

Será que não lembrar é excesso de sensibilidade?

Será que nossa história é tão chata que faz o ato de lembrar algo tão cansativo?

Será que o futuro é não lembrar?

Anotarei em minha agenda “buscar respostas para estas perguntas”. Também, adicionarei no meu aplicativo de lembranças a nota “lembrete: verificar a agenda”.

 

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira