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Estórias de lamparina

Estórias de lamparina

Minha avó morava num pequeno sítio, não era muito longe da cidade, mas o suficiente para ela viver longe de alguns costumes metropolitanos. Uma das coisas mais difíceis era ausência de energia elétrica. Existia uma rede distribuidora, porém, ela optava não usar. Principal motivo para seus outros netos evitarem visita-la. Ao contrário deles, gostava de esporadicamente assumir o estilo de vida dela. Confesso que nas primeiras horas me sentia como um dependente químico tentando deixar de usar drogas. Mas, no dia seguinte meu corpo e mente girava em outro ritmo. Começávamos o dia com um substancioso café da manhã. De estômago forrado acompanhava vovó numa longa caminhada para, segundo ela, melhorar na digestão.

Ela me explicava coisas sobre o relevo, solo, clima, vegetação… Falava com uma propriedade acadêmica que surpreendia seu variado conhecimento. Em determinado trecho ela sacava sua pequena faca, extraia uma casca de árvore e explicava suas propriedades. Nunca me passava pela cabeça questionar a veracidade de tudo aquilo, ficava encantado na verdade, e mesmo se fosse invenção dela, era notável sua imaginação.

Dona de um vigor físico invejável, no retorno para casa, vovó caçoava de mim, que esbaforido tentava subir a pequena colina até sua propriedade. Daí via o quão a vida atrás de um volante me fodia.

Vovó nunca permitia monólogos, queria interação, queria entender meus pensamentos, sonhos e angústias. E novamente me enchia de surpresa: como aquela senhorinha, longe de tudo, podia ter tantas opiniões sobre tantos assuntos? Ela tinha uma enorme biblioteca, mas suas viagens pelo mundo, também, contribuíam para sua incrível mente.

O cair da tarde trazia o frio. Jantávamos ainda com resquícios da luz do sol. Sua sala tinha uma janela panorâmica, víamos o vale ao fundo. Deitava num divã, e ela se aconchegava numa poltrona. Acendia uma lamparina, buscava um de seus livros, lia-o para mim até o sono me alcançar.

Não minto que todas às vezes ao retornar para casa chorava copiosamente.

Hoje estou apreensivo, vovó passará o fim de semana em meu apartamento. Iremos a um casamento de parentes. Fará esse “gigante sacrifício” pelo bem da família. Não teria o aconchego do mato, o máximo que poderei oferecer é um frio do ar-condicionado. Comprei uma lamparina, e comprei um livro de contos infantis. Será minha vez de contar estórias.

 

Texto: Tarcísio Oliveira

Lembrar de lembrar

Lembrar de lembrar

Não sei ao certo o que significa lembrar. Alguns dizem que tem a ver com saudade. Mas, saudade… Puxa vida!… Sei lá para que existe. Por que me digam para que serve um sentimento que desperte melancolia? Ninguém dirá com firme certeza.

Porém, continuo sem saber o que significa lembrar. Alguns dizem que lembrar é evocar. Evocar me remete a chamar algo do além… O desconhecido, o intangível… Imperceptível e por isso não tem sensibilidade física. Será que lembrar é não ser sensível? Ou até certo ponto, lembrar é fazer vista grossa para coisas que acontecem a nosso redor?

Eu sei o que é lembrar. É ter memória. Memória é saber do passado, é ter noção da própria história e da história da vida em sociedade. Então não seria tão errado afirmar que lembrar é saber usar a informação que se obtém para viver? E viver sem lembrar é quase inconcebível, e caso isto ocorra o indivíduo deve está tomado por uma patologia, ou influenciado por uma força maior que ele, impedindo-o que use essa capacidade a seu favor?

Lembrar certamente é coisa em desuso. Ando pelas ruas e vejo. Fato. As pessoas não lembram onde por o lixo; as pessoas não lembram em conserva o seu patrimônio; as pessoas não lembram o que é ser gentil; as pessoas não lembram que tudo começa com elas e que fazem a história para as pessoas do futuro.

Será que saudade em demasia cega?

Será que não lembrar é excesso de sensibilidade?

Será que nossa história é tão chata que faz o ato de lembrar algo tão cansativo?

Será que o futuro é não lembrar?

Anotarei em minha agenda “buscar respostas para estas perguntas”. Também, adicionarei no meu aplicativo de lembranças a nota “lembrete: verificar a agenda”.

 

Fotografia e texto: Tarcísio Oliveira