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O viajante

O viajante

Por Aleksandro F de Paula*

Entre o viajante das letras e o viajante do mundo, qual o conhecimento que restará válido? Penso que certos conhecimentos, emoções e situações são apenas validas para as pessoas que as possuem. Vemos uma pessoa que viajou o mundo inteiro, que já esteve nas cataratas do Iguaçu, do Niágara, esteve em Paris, sentiu a sua síndrome, esteve em Israel, fez todo o caminho que Jesus percorreu, viu as pirâmides, as sete maravilhas do mundo, foi o astronauta que apontou a terra azul, alguém aponta esta pessoa e comenta: “Nossa, esta pessoa viajou o mundo todo.” Ela mesma nos fala e percebemos que é uma emoção que só é dela. Como acontece em outras situações em que a coisa se limita a pessoa que a pertence.

Desta maneira, penso que o único conhecimento válido, mais do que a quem o possui, é o do artista ou profissional letrado que transforma o seu saber e experiência em algo que vai perdurar mais que sua própria existência e experiência. Alguém poderia indicar: “Aquele homem é poeta”. E o que é o poeta? Compreendo que não é ele estar ali, mesmo ainda composto de leituras e angústias que o fizeram. “Aquele homem é pintor”. E o que é um pintor? É ele ser seus rabiscos, esboços, seus traços definitivos em um trabalho final. E o escultor? Suas formas não são aquelas que suas roupas escondem. E o que é um compositor? Melodias soam na voz de algum cantor quando alguém nos informa que ele, o compositor, já passou sem ser visto. E o que é o escritor? Seja lá que cabedal ele nos passe, em uma conversa rápida percebemos que ele será sempre menor que sua obra, que os livros que já absorveu e transformou em novo trabalho. Este viajante nos deixará, mas não levará com ele o seu tesouro no egoísmo insano da morte.

*Aleksandro F. de Paula:

Escritor pernambucano. É autor dos livros “O mecanismo das horas”, “46 Escritos” e “Nada mais e outros poemas”, publicados pela Editora Multifoco. Seu próximo livro já tem título, mas, aguarda data para publicação, “A Criação do Temor e Outros Contos”.

www.facebook.com/ALEKSANDROFDEPAULA

IG: @ferreiraaleksandro

**Crédito imagem: Slava Bowman

Minha vó e o malassombro

Minha vó e o malassombro

Não fui ao enterro de minha vó. Tive medo. Um medo que ela mesma me provocará. Sempre me contou histórias de malassombro. Almas que a noite puxam os pés de garotos trelosos; mortos-vivos que saiam das covas na noite de lua cheia. Sei que no fundo isso era desculpa esfarrapada que criei para não encarar o óbvio: meu medo de verdade era a morte.

Ninguém se prepara para morte, até que tentamos nos acostumar com a ideia, mas, quando ela vem, “Arre! Bate na madeira…”. Por que deveria agir diferente? Alguns diriam “ela é sua avó, seu desalmado!”, eu responderia “tudo bem… mas, não fui e nem vou…”.

Vovó era mórbida. Guardava coisas dos parentes antigos, já falecidos. Pente do seu bisavô, dentes do irmão pequeno que falecera de tuberculose, cabelos de sua mãe, ossos do pai… Nem consigo listar o que ela guardava num baú enorme, sempre escondido embaixo de sua cama. Quando crianças meus primos e eu tentávamos de todas as formas vasculhar aqueles segredos, mas ela sempre chegava a tempo e interrompia nossa bisbilhotice.

De todos os itens o que mais assombrava era a foto de meu falecido bisavô (pai dela). Uma daquelas fotos no qual o olhar parece nos acompanhar de todos os ângulos. Sobrancelhas que se encontravam no limite do desenho do nariz, o bigode volumoso e aquele olhar… Vovó sempre mostrava a porra da foto em dias chuvosos. Acho que era sádica.

Depois de um mês tomei coragem e fui ao mausoléu onde ela foi sepultada. Igreja bonita pequena e em sua nave bonitas esculturas. Fui entrando ninguém para atender, eram dez da manhã. Segui a direção das velas acesas. Cheguei a um corredor com várias tumbas, quase todas decoradas, na maioria por flores. Engraçado que ali podia entender um pouco da história da cidade, muito sobrenomes famosos, datas de nascimento e óbito em épocas importantes: fulano nascido em 1945 e morto em 1984, ou ainda beltrano nascido em 1889 e morto em 1922. Por fim encontrei o túmulo de vovó. Não sabia muito bem o que fazer. Decidi orar. Uma oração que ela me ensinará. E quando estava na metade, um vento assombroso avançou pelo corredor, flores voaram, velas apagaram, vasos se espatifaram. Mesmo assim continuei, tremia, mas não cessei até o “amém”.

Meu corpo ainda estremecia quando cheguei do lado de fora da igreja. Percebi minhas mãos suadas e frias. Busquei o sol para me aquecer. Comecei a andar. Primeiro botequim que achei, parei e pedi uma água ardente. Um senhor que já estava em pé no balcão falou:

– Bebes pelo quê?

– Como? – perguntei.

– Deixa melhorar: alguma coisa que mereça um brinde?

– Sim – falei.

O dono do boteco nos serviu, erguemos os copos e falei “A minha vó… Que mesmo morta ainda consegue me assustar!”. Bebemos.

Créditos texto e imagem: Tarcísio Oliveira