Escolha uma Página
Dias Ligeiros

Dias Ligeiros

Gosto dessa sensação da rapidez dos dias.

É como se os dias ruins passassem logo.

Mesmo que os bons nunca cheguem.

É como se um fardo saísse das costas, mas instantaneamente colocassem outro. Eterno estivador, trabalhador infinito do Porto de Problemas.

Problemas bem que podia ser somente um cais. Que fossemos lá de vez em quando. Porém, Problemas está mais para um bairro, no qual permanentemente estamos nele.

A noite chega. Já sonho. Acordei. Mais um dia.

Desaprendi os nomes dos meses, me pego contando: mês um, mês dois, oito… Ano novo.

É como se fosse um professor que folheia a caderneta de chamada, vê tantos nomes, são tantos futuros, é tanta responsabilidade… Ufa! Termina a aula e segue para outra.

E novamente faz-se o dia. Vem almoço. Não quero lanche. Banho para jantar. Dormir. Sonhar não dá. A luz já chega. Hoje poderia ter menos peso. Quem sabe o alfadengueiro não está de bom humor e alivia para mim? Esperar… Somente o que posso fazer… Esperar.

Imagem:  NeONBRAND via Unsplash

Texto: Tarcísio Oliveira

Janela com vista para vida

Janela com vista para vida

Aquele porteiro não ia com minha cara, fato. Seis meses indo ali, pelo menos três vezes na semana, e ele ainda me fazia esperar numa espécie de cubo; só entrava no prédio, após confirmação de Edna via interfone. O pior era escutar “normas de segurança amigo”, ficava puto. A raiva só diminuía quando Edna me recebia. Hoje ela abriu a porta com um robe transparente, e quando tentei reclamar do porteiro, ela me interrompeu com beijos sôfregos.

“Tá meu amor… Esquece isso… Relaxa…” – falou enquanto abria os botões de minha camisa.

Edna era bem mais nova, não entendia porque gostava de mim. Mas, evitava ficar paranoico com isso, vivia o momento. Devagar afastei sua cabeça do meu ombro, ela dormia profundamente, nossa “maratona” surtira efeito. Acendi um cigarro e fui para janela. Seu prédio fica num desses bairros cheios de concreto, pouco verde e muito carro. O ponto positivo é a vista: está no décimo nono andar, de lá os olhos alcançavam boa parte da cidade. Onze horas da noite, quase ninguém se arriscava na rua, a violência mudou muito a rotina. Lembro-me que ali já fora bairro de muita agitação noturna. Hoje os points eram loja de conveniência ou delicatéssen. Meus pensamentos se interromperam com o despertar de Edna.

“Amor, volta para cama… Quero mais”. – apelou.

***

Gostava de dar aulas. Está próximo da intelectualidade me satisfazia, apesar de cada vez isto era mais incomum. Muitos amigos se apegaram ao conformismo proporcionado pela agilidade de informação propiciada pela internet, e não ligavam mais de explorar ciência com alunos. A faculdade que leciono é referência nacional em muitos cursos, mas, não quer dizer que ainda consigamos forjar excelentes profissionais. Pelo contrário, o empenho maior era manter o status quo, para isso contávamos com grande apoio parlamentar, que direcionava muitos “esforços” que se transformavam em simpósios, congressos, seminários, bolsas de pesquisas, etc.. Não me agradava essa passividade. Lutei e luto veementemente nas reuniões dos docentes, mas, minha fama de professor estrela (antes da academia fiz novelas, mas, fica para outro momento explicar) não me deixava em posição favorável entre meus colegas. Por isso o caminho mais aceitável era reverter toda minha ação para sala de aula.

Edna fora minha aluna. Atualmente ela fazia mestrado em comunicação que ficava em outro prédio, o que ajudou a minimizar minha outra fama que é a de professor garanhão. O que era uma tremenda injustiça, pois a única aluna que tive e tenho relacionamento é minha linda Edna. Antes tive pequenos flertes com amigas de profissão, e talvez venha daí a tal infâmia.

No fim do expediente me encontrava com Edna num restaurante nos arredores do campus para jantarmos. Era o momento que tínhamos para nossas conversas profissionais. Geralmente ela trazia um tema para discutimos durante o jantar. Hoje ela não trouxe tema. Aparentemente chorara e para essas situações eu era um merda.

“Não me enrola… Conta logo o que está acontecendo.” – falei.

“Não… Não sei se vai gosta…”.

“Agora teremos um problema: tu agora és vidente?”

“Que grosso! Não conto mais nada”.

“Desculpe meu amor… Apenas não gosto do suspense.”

“Estou grávida…”

“Puta que pariu”.

Claro que tive de contorna todo o transtorno que causei no restaurante. Ela se desesperou, chorou demais. No fim nos acertamos.

***

“O senhor tem algum problema comigo?”.

“Não… Não senhor”.

“E porque caralho o senhor tem de me anunciar a minha futura esposa e mãe do meu filho?”.

“Normas de segurança.”.

Ela ainda não tinha nenhuma barriga, e por isso ainda continuava tão sensual naquele robe transparente. Assustava era seu apetite sexual: aumentara. Tentei novamente reclamar do porteiro, mas ela nem deu bola, me jogou no sofá e extravasou sua volúpia.

Não falávamos em casamento formal, porém, ela fazia questão de continuar morando ali. Concluirmos ser a melhor opção. Gostava da ideia de compartilhar com ela e nosso bebê aquela janela, claro que infelizmente teríamos que colocar aquelas teias de proteção. O cigarro será mais fácil abandonar, por enquanto, abuso das tragadas, pensando no próximo apelido que colocarão em mim.

Crédito imagem: Takemaru Hirai

Texto: Tarcísio Oliveira