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Janela com vista para vida

Janela com vista para vida

Aquele porteiro não ia com minha cara, fato. Seis meses indo ali, pelo menos três vezes na semana, e ele ainda me fazia esperar numa espécie de cubo; só entrava no prédio, após confirmação de Edna via interfone. O pior era escutar “normas de segurança amigo”, ficava puto. A raiva só diminuía quando Edna me recebia. Hoje ela abriu a porta com um robe transparente, e quando tentei reclamar do porteiro, ela me interrompeu com beijos sôfregos.

“Tá meu amor… Esquece isso… Relaxa…” – falou enquanto abria os botões de minha camisa.

Edna era bem mais nova, não entendia porque gostava de mim. Mas, evitava ficar paranoico com isso, vivia o momento. Devagar afastei sua cabeça do meu ombro, ela dormia profundamente, nossa “maratona” surtira efeito. Acendi um cigarro e fui para janela. Seu prédio fica num desses bairros cheios de concreto, pouco verde e muito carro. O ponto positivo é a vista: está no décimo nono andar, de lá os olhos alcançavam boa parte da cidade. Onze horas da noite, quase ninguém se arriscava na rua, a violência mudou muito a rotina. Lembro-me que ali já fora bairro de muita agitação noturna. Hoje os points eram loja de conveniência ou delicatéssen. Meus pensamentos se interromperam com o despertar de Edna.

“Amor, volta para cama… Quero mais”. – apelou.

***

Gostava de dar aulas. Está próximo da intelectualidade me satisfazia, apesar de cada vez isto era mais incomum. Muitos amigos se apegaram ao conformismo proporcionado pela agilidade de informação propiciada pela internet, e não ligavam mais de explorar ciência com alunos. A faculdade que leciono é referência nacional em muitos cursos, mas, não quer dizer que ainda consigamos forjar excelentes profissionais. Pelo contrário, o empenho maior era manter o status quo, para isso contávamos com grande apoio parlamentar, que direcionava muitos “esforços” que se transformavam em simpósios, congressos, seminários, bolsas de pesquisas, etc.. Não me agradava essa passividade. Lutei e luto veementemente nas reuniões dos docentes, mas, minha fama de professor estrela (antes da academia fiz novelas, mas, fica para outro momento explicar) não me deixava em posição favorável entre meus colegas. Por isso o caminho mais aceitável era reverter toda minha ação para sala de aula.

Edna fora minha aluna. Atualmente ela fazia mestrado em comunicação que ficava em outro prédio, o que ajudou a minimizar minha outra fama que é a de professor garanhão. O que era uma tremenda injustiça, pois a única aluna que tive e tenho relacionamento é minha linda Edna. Antes tive pequenos flertes com amigas de profissão, e talvez venha daí a tal infâmia.

No fim do expediente me encontrava com Edna num restaurante nos arredores do campus para jantarmos. Era o momento que tínhamos para nossas conversas profissionais. Geralmente ela trazia um tema para discutimos durante o jantar. Hoje ela não trouxe tema. Aparentemente chorara e para essas situações eu era um merda.

“Não me enrola… Conta logo o que está acontecendo.” – falei.

“Não… Não sei se vai gosta…”.

“Agora teremos um problema: tu agora és vidente?”

“Que grosso! Não conto mais nada”.

“Desculpe meu amor… Apenas não gosto do suspense.”

“Estou grávida…”

“Puta que pariu”.

Claro que tive de contorna todo o transtorno que causei no restaurante. Ela se desesperou, chorou demais. No fim nos acertamos.

***

“O senhor tem algum problema comigo?”.

“Não… Não senhor”.

“E porque caralho o senhor tem de me anunciar a minha futura esposa e mãe do meu filho?”.

“Normas de segurança.”.

Ela ainda não tinha nenhuma barriga, e por isso ainda continuava tão sensual naquele robe transparente. Assustava era seu apetite sexual: aumentara. Tentei novamente reclamar do porteiro, mas ela nem deu bola, me jogou no sofá e extravasou sua volúpia.

Não falávamos em casamento formal, porém, ela fazia questão de continuar morando ali. Concluirmos ser a melhor opção. Gostava da ideia de compartilhar com ela e nosso bebê aquela janela, claro que infelizmente teríamos que colocar aquelas teias de proteção. O cigarro será mais fácil abandonar, por enquanto, abuso das tragadas, pensando no próximo apelido que colocarão em mim.

Crédito imagem: Takemaru Hirai

Texto: Tarcísio Oliveira

De novo?

De novo?

Guardava a chave reserva da porta do meu apartamento num jarro de planta que ganhei da minha mãe. Ficava enterrada bem perto da borda do jarro, e só minha mãe, Laís e eu sabíamos desse esconderijo. E foi assim que Laís soube como entrar na minha casa. A surpresa maior foi que ela apareceu depois de um ano de ausência, nenhum contato e tão pouco algum esclarecimento do por que tinha ido embora.

– Oi!

– Desculpa a invasão, mas tentei ligar no teu número e atendeu outra pessoa… Imaginei que você trocara de chip…

– Não tem problema… Mas, e ai… Por onde andou?

Tentei ser o mais frio e racional possível, pois sempre foi isso que ela quis para nosso relacionamento. Não era uma coisa tipo carta branca, já que Laís sempre foi extremamente ciumenta e possessiva. Porém, ela achava que não devíamos nutrir tanto futuro num casamento, por exemplo. E nesta confusão de ideais ficamos por dois anos até ela decidir sumir.

– Não quero brigar… Não precisa se justificar…

– Mas, preciso esclarecer algumas coisas… Eu não deixei de te amar…

– Porra! Foi pior que uma atriz de filme B… – e soltei uma longa risada.

Realmente os papéis no século XXI começavam a se inverte, ou no mínimo ficaram mais complexos. Não fazia o tipo sentimental, mas aquela atuação dela me deixou puto.

Mesmo contra minha vontade, ela foi contando os lugares que andou, o que fez. E quando dei por mim, convidei-a para jantar. Escutava tudo aquilo passivamente, rindo das coisas engraçadas, me mostrando atento para os detalhes interessantes, porém, em alguns momentos queria esgana-la.

– Você me acha um idiota não é? – perguntei.

– Não…

– Como não?! Passa um ano desaparecida…

– Não desaparecida!

– Claro que sim… Seus parentes nem se preocupavam em informar seu paradeiro para mim… Sabe do que mais: foda-se – levantei e abordei o garçom exigindo a conta.

Eu era um idiota sim. Esperei por ela fora do restaurante. Ao se aproximar ficou de ponta de pé e me beijou a testa.

– Tu és foda! – agarrei-a pela cintura e nos beijamos.

Que poder sobre mim ela tinha… O restaurante ficava uns três quilômetros do prédio que morava, assim como na ida, a volta fizemos andando. A noite não estava tão fria, mas ela aproveitou e abraçou meu braço. Ficamos em silêncio.

Já na frente de casa ela me chamou para ficarmos um pouco na praça que tinha do outro lado da rua. Sentados na gangorra, revisitamos nossa memória.

– Com quantas mulheres você saiu nesse tempo?

– Duas… Três talvez…

– Bonitas?

– Sim… Bonitas… Por quê? … Faz diferença? …

– Curiosidade apenas…

– E me fala do tal Reginaldo, seu amigo de infância que reencontrou nessas andanças…

– Não é Reginaldo! É Nelson – e foi a vez dela disparar uma longa risada.

– Reginaldo ou Nelson não importa: os dois cantaram o “amor boêmio” – e ela não parava de rir.

Subimos. Fumamos um baseado que ela carregava na bolsa. Bebemos umas doses de whiskey. Essa combinação, talvez, tenha servido de combustível para nossa tara. Imagino que por artimanha, ela usava uma fragrância de perfume que me agradava; beijei seus lábios, seu pescoço, seu colo. Minhas mãos procuraram seus seios, acariciei, lambi, mordi. Ela retribuiu quase como uma cópia minhas caricias. Rodamos pela cama. Puxei seus cabelos. Falamos obscenidades. Nossas línguas sempre se encontrando em beijos longos. Virei-a de bruços. Lambi suas costas, desci até seus glúteos, não me fiz de rogado nessa região do corpo dela. Suspendi seu quadril e a penetrei. Levantei-a buscando sua nuca. Nossos corpos na vertical, aproveitei e repeti palavras impuras em seu ouvido, o que ela respondia em voz alta. Não seguimos uma ordem natural para nossa fome, nem premeditamos um tempo para tudo acontecer. De repente sugávamos nossos sexos, numa posição quase tântrica. Num outro momento ela gemia de dor e luxúria quando a possuía por trás. E foi assim nossa madrugada.

A primeira coisa que pensei quando acordei e não a vi na cama foi “de novo… puta que pariu?”. “Tristeza não tem fim mesmo… Só a porra da felicidade”, falei em voz alta. Porque por mais insano que isso possa soar, estava feliz. Coloquei o travesseiro no rosto para abafar o som do grito que dei, finalizado por um “Laís sua puta!”. E por mais clichê que possa parecer, minha histeria foi interrompida por um “oi… algum problema… surtou de vez?”, ela falou vestida apenas com uma das minhas camisas mais longas, escorada no portal de entrada do quarto.

Imagem: Michael Prewett

Texto: Tarcísio Oliveira