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Sofá

Sofá

Ter um pai como famoso arquiteto do país não é sinônimo de talento adquirido. Nem de longe meus trabalhos podiam ser comparados com os de papai. Falar de trabalhos no plural é forçar a barra, pois durante cinco anos de profissão projetei apenas duas casas, que nem foram aprovadas pelos clientes. Mas, nem todos precisavam saber disso.

Valda… Menina franzina na época da faculdade, mas hoje se tornou um mulherão. Nos esbarramos num shopping da cidade, e para colocar o papo em dia, paramos num café. Logicamente ela queria saber tudo sobre minha famosa vida de arquiteto bem sucedido. Fiz de tudo para mudar de assunto, mas, todas as minhas perguntas ela me respondia com outras perguntas.

Claro que gostei da possibilidade de um novo encontro com Valda, mas não como arquiteto do apartamento dela. Mesmo ela sendo profissional da área encarregou a mim o futuro ambiente de seu novo lar. Quis dizer a ela que não passava de uma fraude. Cansava manter o tal personagem. Nem consigo mensurar quantas vezes pensei em abandonar tudo e ir embora… O conforto e a fama ordinariamente pesam nessa decisão.

No dia marcado para avaliar o espaço, me atrasei. Queria que ela desconsiderasse o lado profissional, e pensasse em mim apenas como possível namorado. Porém, Valda também não foi pontual, chegamos ao mesmo tempo. O prédio ficava de frente ao mar. O apartamento mesmo usado era amplo, arejado, bem divido… Perfeito.

“Bem legal aqui… Vista linda”.

“Demais! Já pode adiantar alguma sugestão?”.

“Poucos móveis, manter a cor clara nas paredes…”.

Falei outras bobagens. Nem sabia de onde tirava aquelas ideias, Valda escutava com atenção, e no final exprimia um “hum”.

“O sofá é seu?”

“Presente do inquilino anterior. Teremos que dá um jeito de descartar.”

“Teremos?”

“Sim seu bobo!”

Sentamos no futuro descarte. E comecei a buscar na minha memória tudo que sabia sobre minha questionável prática na profissão. Ela apoiava o queixo no punho da mão direita, que por sua vez se escorava no encosto do sofá. Vestida de jeans e uma camiseta de alças finas, ela tirou seu tênis e acomodou as pernas. Concentramos nossos olhares, e enquanto falava, percebia seus olhos com maior dedicação na direção dos meus lábios. Podia não entender de arquitetura, já de luxúria…

Detestava ternos por “n” coisas, e a dificuldade de tira-los é talvez a mais aparente.

Nosso encontro profissional teve o caráter que queria desde o início. Ficamos ali no sofá o restante do dia. Pedimos pizza para nem a fome atrapalhar nossa libertinagem. Como já mencionei, Valda é linda, e ali no sofá descobri outras qualidades. E entre beijo quentes e carícias devassas, divagava se o antigo inquilino usara o móvel para fins parecidos. Viajei tanto nesse delírio e comecei a pensar que havia algo de afrodisíaco nele.

No encontro seguinte resolvi abrir o jogo, contei toda minha história para ela. Reagiu com uma tremenda gargalhada. Tomado de raiva comecei a me vestir para ir embora. Mas, ela se controlou e me abraçou impedindo minha fuga. Meses depois nos casamos.

Diferente de mim Valda era excelente arquiteta. Possivelmente meu pai se orgulharia em tê-la como filha. Teria de se contentar com a nora. Além de uma esposa ganhei uma cúmplice, no sentido mais pejorativo da palavra. Valda começou a dar vida a todos os projetos dos quais fiquei responsável. O nível de aprovação aumentou. Meu pai feliz abriu mão de uma parte generosa das ações que lhe cabiam, coroando a estratégia montada por minha amada.

O sofá foi descartado, além de guardar muito segredos, estava velho demais. Fiquei triste, no fundo acreditava no seu poder afrodisíaco.

Crédito imagem: Rommão HQ

Texto: Tarcísio Oliveira

Janela com vista para vida

Janela com vista para vida

Aquele porteiro não ia com minha cara, fato. Seis meses indo ali, pelo menos três vezes na semana, e ele ainda me fazia esperar numa espécie de cubo; só entrava no prédio, após confirmação de Edna via interfone. O pior era escutar “normas de segurança amigo”, ficava puto. A raiva só diminuía quando Edna me recebia. Hoje ela abriu a porta com um robe transparente, e quando tentei reclamar do porteiro, ela me interrompeu com beijos sôfregos.

“Tá meu amor… Esquece isso… Relaxa…” – falou enquanto abria os botões de minha camisa.

Edna era bem mais nova, não entendia porque gostava de mim. Mas, evitava ficar paranoico com isso, vivia o momento. Devagar afastei sua cabeça do meu ombro, ela dormia profundamente, nossa “maratona” surtira efeito. Acendi um cigarro e fui para janela. Seu prédio fica num desses bairros cheios de concreto, pouco verde e muito carro. O ponto positivo é a vista: está no décimo nono andar, de lá os olhos alcançavam boa parte da cidade. Onze horas da noite, quase ninguém se arriscava na rua, a violência mudou muito a rotina. Lembro-me que ali já fora bairro de muita agitação noturna. Hoje os points eram loja de conveniência ou delicatéssen. Meus pensamentos se interromperam com o despertar de Edna.

“Amor, volta para cama… Quero mais”. – apelou.

***

Gostava de dar aulas. Está próximo da intelectualidade me satisfazia, apesar de cada vez isto era mais incomum. Muitos amigos se apegaram ao conformismo proporcionado pela agilidade de informação propiciada pela internet, e não ligavam mais de explorar ciência com alunos. A faculdade que leciono é referência nacional em muitos cursos, mas, não quer dizer que ainda consigamos forjar excelentes profissionais. Pelo contrário, o empenho maior era manter o status quo, para isso contávamos com grande apoio parlamentar, que direcionava muitos “esforços” que se transformavam em simpósios, congressos, seminários, bolsas de pesquisas, etc.. Não me agradava essa passividade. Lutei e luto veementemente nas reuniões dos docentes, mas, minha fama de professor estrela (antes da academia fiz novelas, mas, fica para outro momento explicar) não me deixava em posição favorável entre meus colegas. Por isso o caminho mais aceitável era reverter toda minha ação para sala de aula.

Edna fora minha aluna. Atualmente ela fazia mestrado em comunicação que ficava em outro prédio, o que ajudou a minimizar minha outra fama que é a de professor garanhão. O que era uma tremenda injustiça, pois a única aluna que tive e tenho relacionamento é minha linda Edna. Antes tive pequenos flertes com amigas de profissão, e talvez venha daí a tal infâmia.

No fim do expediente me encontrava com Edna num restaurante nos arredores do campus para jantarmos. Era o momento que tínhamos para nossas conversas profissionais. Geralmente ela trazia um tema para discutimos durante o jantar. Hoje ela não trouxe tema. Aparentemente chorara e para essas situações eu era um merda.

“Não me enrola… Conta logo o que está acontecendo.” – falei.

“Não… Não sei se vai gosta…”.

“Agora teremos um problema: tu agora és vidente?”

“Que grosso! Não conto mais nada”.

“Desculpe meu amor… Apenas não gosto do suspense.”

“Estou grávida…”

“Puta que pariu”.

Claro que tive de contorna todo o transtorno que causei no restaurante. Ela se desesperou, chorou demais. No fim nos acertamos.

***

“O senhor tem algum problema comigo?”.

“Não… Não senhor”.

“E porque caralho o senhor tem de me anunciar a minha futura esposa e mãe do meu filho?”.

“Normas de segurança.”.

Ela ainda não tinha nenhuma barriga, e por isso ainda continuava tão sensual naquele robe transparente. Assustava era seu apetite sexual: aumentara. Tentei novamente reclamar do porteiro, mas ela nem deu bola, me jogou no sofá e extravasou sua volúpia.

Não falávamos em casamento formal, porém, ela fazia questão de continuar morando ali. Concluirmos ser a melhor opção. Gostava da ideia de compartilhar com ela e nosso bebê aquela janela, claro que infelizmente teríamos que colocar aquelas teias de proteção. O cigarro será mais fácil abandonar, por enquanto, abuso das tragadas, pensando no próximo apelido que colocarão em mim.

Crédito imagem: Takemaru Hirai

Texto: Tarcísio Oliveira

A causa dos animais

A causa dos animais

Ativista de sofá

Todas às vezes que assisto filmes com animais choro. Pode ser qualquer animal, até aqueles documentários que fazem na savana africana. Acho que é inerente a nós humanos sentir pena. É na verdade deve ser isso: pena. Não é sensibilidade. Mas, gosto de pensar que sou diferente e me sinto um apoiador das causas dos animais, mesmo que seja do sofá.

***

Carroça

O povo que crítica minha carroça é porque não sabe o que é passar fome, se soubesse queria ver se iam me criticar. Acordo cedo e selo a égua. Passo areia nos arranhões das patas dela… Aprendi que assim cicatrizava mais rápido. Evito dar chicotadas, mas, às vezes perco a paciência. Outro dia um corno na rua quase que me bate. Disse que eu devia ter vergonha de fazer isso, eu perguntei “fazer o que… sobreviver?”. Ele gritou dizendo que eu podia comprar uma dessas motos de baixa cilindrada, para puxar minha carroça. Eu mandei ele se foder. Tinha que usar a égua até o fim, se não teria prejuízo.

***

Deus e o chicote

“Por que Deus não manda um raio agora e arranca o chicote das mãos desse infeliz!”, pensei e falei dentro do carro. Acendi o alerta, parei na via e fui falar com o cara. Tentei convence-lo de que a forma que ele tratava o animal era errada, e ele poderia continuar o trabalho dele de forma mais eficaz se investisse numa motocicleta. Mas, não teve jeito, além de quase levar uma chicotada dele, tive de ouvi impropérios. De volta ao meu carro, ainda escutei piadas dos outros motoristas. “Às vezes penso que Deus não existe”.

***

Gaiola

Quando vejo uma gaiola penso o quanto o ser humano é sádico, na extensão de crueldade. É difícil alcança o prazer que sente uma pessoa ao enclausurar uma ave. Animal de asas, feito para voo, mas, para atender a perversão de outrem limita seu voo a pequenas linhas de arame.

Um dia sair cedo para o trabalho e vi uma gaiola pendurada numa parede. Vi de longe que o dono andava com outra gaiola. Em instantes tomei a decisão, ninguém observava e o cara estava de costas. Fui rápido e preciso. Soltei o pássaro. Quando cruzei com o malfeitor, tive vontade de gargalhar, porém, me comedi… Minha intenção era libertar os outros.

Tornou-se minha especialidade soltar aquelas pobres aves. Inventei vários métodos para invadir casas. Contudo, descobri que as aves por serem cativas, não iam longe. Terminavam caindo em novas gaiolas-armadilhas. Fiquei triste e por pouco não abandonava a causa.

Percebi que não existiria melhor liberdade aos enjaulados senão a morte. Comprei uma espingarda de ar comprimido. E durante as noites, enquanto todos dormiam, ensinava novamente aos bichinhos a maneira certa de voar.

Texto: Tarcísio Oliveira