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Divagações ao universo próximo

Divagações ao universo próximo

Uma gripe me deixou na cama por três dias. Muita febre e dor de cabeça me tiraram forças até para andar. Esse período de ócio foi o suficiente para decorar quase toda programação da TV. Já começava a me identificar com algumas personagens de novelas. As novelas têm uma função pertinente na formação da população brasileira, ditam costumes, jargões, moda… Realmente formidável. No meu caso, que teria de abandona-las no fim da “breve folga”, faria uma falta tremenda. No trabalho o máximo que tinha direito era o som do meu rádio AM/FM, que em virtude de não está numa área muito agraciada só as ondas AM tinham bom sinal.

Alguém falou que o ócio pode ser criativo. Merece o Nobel quem pensou isso. Deitado na cama via muitos detalhes do meu quarto que nunca imaginei:

*Minha cama fazia um som diferente a cada vez que me virava de lado. Lado esquerdo mais grave, direito agudo;

*No canto superior do teto havia uma pequena teia de aranhas. Não entendia muito desse aracnídeo, mas imaginava que era um casal, na realidade nem sei se existe aranha macho e fêmea, nem mesmo se eram duas aranhas, ou três… Talvez nenhuma… O certo é que sempre aparecia uma lagartixa;

*As ranhuras do acabamento na parede lembravam imagens do piso lunar;

*Passei horas olhando os poros da minha pele. Quão complexa imagem. O mais louco é refletir sobre o bulbo dos pelos. Que criações miraculosas do corpo!

Nessa condição física não há nada tão ruim quanto o banho frio. Quase uma crucificação, mas a indicação do médico dizia que se a febre aumentasse, água fria ajudaria controlar a temperatura do corpo. À noite mamãe me visitava levando uma sopa, o que era ótimo, pois o dia todo de solidão acabava quando ela chegava. Falava de coisas que acontecerá na sua loja de artigos esportivos; discutíamos um pouco sobre futebol e no fim recomendações para ficar melhor. De novo sozinho me entregava às descobertas das coisas ao meu redor.

*Gatos só miavam à noite? E só miam no cio?

*O som de um relógio poder ser “tac e tic”, não “tic e tac”.

Das inúmeras coisas que pensei noventa por cento foram delírios, só agora que me dou conta. E assim não consigo fazer um relato fiel das minhas criações filosóficas.

Pode ser mórbido, porém, sinto falta dos meus períodos de febre terçã. Porque sou carregado a confrontar o óbvio, que por sua vez me ensina a ver o mundo de outra forma. Sou levado a conhecer meu universo próximo, sem medo do que possa encontrar.

Imagem: Ricky Kharawala

Texto: Tarcísio Oliveira

O Vermículo

O Vermículo

O razoável é acreditar que, de fato, tudo está interligado, tudo faz parte de um grande todo. A ideia de que o conhecimento, de alguma maneira, nos torna meio que desconexo de tudo, nos faz enxergar como um ser a parte, ainda que consciente do grande mecanismo no qual somos uma pequena peça sem quase importância alguma. Quanto mais uma mentalidade é evoluída mais ela tende a procurar não seguir esse indistinto conjunto, a se individualizar, a ser uma peça meio fora do contexto. Seria essa a razão da qual Deus tenha proibido o homem a não tocar na árvore do conhecimento? Seria como se fosse aquilo ali um arquivo infectado?

Todo o mecanismo do universo e de tudo que não esteja arraigado no raciocínio segue uma regrinha muito simples e implacável. Mesmo se considerarmos a entropia. Seria possível conceber que a nossa capacidade de pensar fosse como um defeito desse mesmo mecanismo. Algo exatamente criado para ir de encontro à saudável lógica de tudo. Algo que eu já teria tentado abordar, de que quanto mais uma coisa progride, mais ela tende a não ser aquilo. A evolução tende a um fim, ao nada. Ou o perder-se no todo. Seria como a ideia de um fruto que vai evoluindo, que amadurece, mas que nesse amadurecer vai possibilitar que lhe surja algo que, aparentemente seria mais evoluído, lhe determinará o fim: o vermículo. A nossa consciência seria o vermículo, a gênese do fim daquilo que progrediu o bastante e requer, é chegada a hora, a sentença final.

Mas isso seria apenas de nós mesmos, de nossa consciência. E todo o resto, que é tudo, continue.*

*Texto extraído do livro “46 Escritos”

Crédito imagem: Jeremy Thomas

Texto: Aleksandro F. de Paula, escritor pernambucano. É autor dos livros “O mecanismo das horas”, “46 Escritos” e “Nada mais e outros poemas”, publicados pela Editora Multifoco.

www.facebook.com/ALEKSANDROFDEPAULA

IG: @ferreiraaleksandro

Obrigada, Universo!

Obrigada, Universo!

Texto: Helena Rodrigues*

O meu dia quando começa errado, invariavelmente, só tende a piorar. Como o despertador não tocou já previ uma segunda-feira indigesta, afinal, o meu grau de insatisfação dobra nesse dia da semana. Porque as segundas-feiras são tão cretinas?

Após um banho rápido, saí correndo para pegar o ônibus. “Quase uma hora de atraso, mas, ainda dá para contornar!”, pensei. Otimista demais, esqueci de considerar que sou mulher e fumante, ou seja, salto-alto e falta de fôlego certamente não me tornam apta a correr em uma maratona. Resumindo: perdi o ônibus e fiquei plantada mais de vinte minutos esperando o próximo chegar. Vida de pedestre não é fácil!

***

Não existiram desculpas que justificassem o enorme atraso apenas deixei o relatório e saí.

***

Andando cabisbaixa, voltando ao trabalho, ouvi alguém me chamar – de todas as pessoas que essa maldita cidade abriga, tinha que ser justo ele! Este motivo em particular me fez apoiar a criação de leis universais que impeçam o encontro entre ex-namorados quando uma das partes estiver em uma situação tão deplorável quanto a minha, naquele momento.

Após um abraço apertado ele disse:

“Você não pode fugir para sempre. Vamos tomar um café?”

“Claro! O meu com uma pitada de cicuta, por favor.”

 

*Helena Rodrigues:

Curitibana, criadora do blog ***CAOS***

Confiram  – www.caos-s01.blogspot.com.br

Crédito imagem: Desirre Marie – www.missdreamymarrie.wordpress.com